A Associação de Protecção e Conservação do Ambiente - APCA, perante a situação de absoluta degradação e esquecimento a que foi votada a Mamôa da Ereira, localizada no lugar do Medorro da freguesia de Afife, concelho de Viana do Castelo, vem por este meio denunciar publicamente o estado calamitoso em que se encontra este importante monumento megalítico do Noroeste Peninsular e apelar a quem de direito, em razão do lugar e da matéria, uma rápida intervenção.
Numa visita ao local, conforme nos é aconselhado em alguns roteiros turísticos e de promoção da região, deparamos com um monumento, completamente ao abandono, sendo a vegetação infestante, que o cobre, a sua "única protecção". Trata-se de um cartão de visita da região verdadeiramente lastimável e incompreensível, que no mínimo deveria de envergonhar quem tem a incumbência de tratar do Património Cultural. Debaixo de inúmeros pés da infestante austrália, silvas e mato esconde-se um dos mais importantes monumentos megalíticos funerários de Portugal - A Mamoa da Eireira de Afife, cuja localização a escassos 20 metros da Estrada Nacional n.º 13, deveria constituir um pólo de atracção turística da região e do tão apregoado desenvolvimento sustentável, mas que infelizmente, no momento presente, é a imagem fidedigna da atenção dispensada e da forma como se trata o Património Cultural nas ditas áreas rurais.
Relembramos que este monumento foi objecto de estudo aprofundado entre 1986-1989, por uma equipa liderada pelo Prof. Eduardo Lopes da Silva, que definiu este monumento nos seguintes termos: "A mamôa da Ereira (Afife) apresenta uma arquitectura dolménica que viria a configurar-se como uma estrutura com corredor duplamente indiferenciado, assemelhando-se às áleas cobertas francesas. Na verdade, este monumento apresenta todos os esteios com a mesma altura, com acentuada inclinação para o interior. Trata-se de uma estrutura sem paralelos conhecidos, até hoje, no nosso País". |

|
Na mamôa da Ereira de Afife surgiram lado a lado gravuras e pinturas, salientando-se um esteio gravado e pintado, além de um fragmento de laje só com pinturas, em bom estado de conservação. Sem embargo do grande interesse dos motivos referidos, destaque particular vai para os 6 esteios decorados do dólmen de Afife, um dos quais corresponde a um grande e raro motivo antropomórfico, estilizado. A importância deste monumento é, ainda, reforçada com um conjunto apreciável de pontas de seta encontradas "in situ" no decurso das escavações, assim como outro material lítico e cerâmico com grande relevância arqueológica.
Considerando a importância, deste monumento funerário, da cultura megalítica, no contexto europeu, e a sua óptima localização não será demasiado tempo, os cerca de 20 anos já decorridos, desde a sua escavação, em que ano após ano se vem prometendo a recuperação e musealização do mesmo? Ou será que o estado a que deixaram chegar a Mamôa da Ereira de Afife, tem por objectivo justificar, num futuro próximo, a urbanização da área onde se encontra implantada?
A melhor forma de destruir a cultura ancestral do Povo do Alto Minho é a eliminação, por permissão consciente ou por omissão ou negligência, de qualquer referência às suas raízes históricas e como tal definidoras da sua matriz cultural.