O insólito aconteceu ontem à tarde no salão nobre dos Paços do Concelho de Caminha, no decorrer de uma cerimónia preparada pela autarquia caminhense, destinada a entregar cheques às colectividades concelhias, respeitantes aos subsídios de 2007.
Quando chamada a associação Corema a fim de receber uma importância de 100€, surgiu o seu presidente José Gualdino, vestido a rigor, de fraque e laço ao pescoço, ladeado por dois "seguranças" igualmente dirigentes deste grupo de defesa do património.
Após receber o cheque correspondente das mãos do vereador da cultura, junto do qual se encontrava a presidente Júlia Paula, José Gualdino abriu uma pasta, guardou-o dentro e exibiu uma montagem ampliada de um cheque de 100€ aos presentes, dizendo antes de se retirar (sempre seguido dos "seguranças") que a verba em causa "evitou que a Corema tivesse que fechar a porta", respondendo ironicamente ao comentário do vereador que o subsídio "sempre dava para apoiar algumas actividades".
NENHUMA ASSOCIAÇÃO RECEBEU VERBA TÃO BAIXA
Num comunicado distribuído à saída da cerimónia, a Corema explicou que tal atitude se deveu ao facto de a Câmara lhes ter destinado a verba mais baixa de todas quantas a outras associações e instituições receberam, pois não houve mais nenhuma que tivesse obtido menos de 250€.
"Só podemos entender este subsídio como uma tentativa para nos amesquinhar, duplicada pela humilhação que decorre da aceitação de 100€ numa cerimónia pública", afirma a Corema, entendendo-a ainda como uma "provocação", enquanto que a cerimónia é classificada como "uma acção de marketing político, envolvendo despesas várias e perda de tempo para muitos".
Fazem questão de relevar também que o subsídio atribuído a entidades com fins recreativos "que envolvem o extermínio de espécies de animais alcança valores 15 a 20 vezes superiores" ao destinado à Corema.
ESTRANGULAMENTO FINANCEIRO NÃO OS DEMOVE
A Corema assegura que "não será o estrangulamento financeiro, como está comprovado, que nos vai demover de prosseguir a nossa intervenção cívica na defesa do Ambiente e do Património", embora não deixando de "reclamar os direitos que nos são devidos".
A Corema fez contas ao passado e concluiu que entre 1989 e 2001 receberam 45 contos anuais; em 2002 e 2003, já com a actual câmara, a subvenção passou para 250€; de 2004 a 2006 nada receberam, passando agora para 100€.
Fazendo a média aos valores atribuídos pelo actual Executivo social-democrata, dá 100€/ano, verba que "não chega sequer para cobrir as despesas de selos do correio", adiantam.
Esta associação recorda ainda que não são "um mero clube de amigos que se encontram aos fins-de-semana", mas sim uma colectividade "com amplas responsabilidades públicas e por isso solicitada por diversos órgãos estatais", dando como exemplos a sua presença em diversos organismos, como o Conselho de Bacia do Rio Minho, Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, Comissão de Acompanhamento do Aterro Sanitário de S. Pedro da Torre e Comissão Mista de Coordenação do Plano de Ordenamento da Área de Paisagem Protegida de Corno de Bico.
"INDEPENDÊNCIA DOS PODERES"
Acrescentam que vêm ainda prestando apoio a escolas e outras entidades e a ela recorrem inúmeros cidadãos "confrontados com situações de graves violações aos seus direitos ambientais e patrimoniais"
Por último, relembram que são uma das mais antigas e activas associações de defesa do ambiente do país, "com prova dadas quanto à independência relativamente aos poderes e grupos de influência".
Refira-se que Júlia Paula e Paulo Pereira nada disseram perante esta atitude da Corema, não deixando contudo de transparecer sorrisos elucidativos.