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FALECEU FUNDADOR DO PS EM CAMINHA José Maria Martins Verde, de 70 anos, faleceu no passado dia 16, vítima de doença. Foi um dos fundadores do Partido Socialista em Caminha, após o 25 de Abril, e um dos mais activistas da época. Em entrevista concedida a alunos e a um professor da Escola EB 2,3/S de Caminha, por alturas da celebração dos 30 anos do 25 de Abril, no ano passado, relatou alguns dos episódios mais marcantes dos primeiros anos da II República. Aqui reproduzimos essa entrevista publicada pelo C@2000 em 8 de Maio de 2004 Entrevista com José Verde, activista do MUP
" O PS em Caminha forma-se a partir do MUP" Taxista no Terreiro de Caminha à data do 25 de Abril, o seu táxi transforma-se num ponto de encontro da esquerda caminhense. Activista empenhado do MUP no período que se segue à revolução, desempenha um papel de destaque em alguns dos principais episódios do PREC local. Em Novembro de 1974, juntamente com outros caminhenses, surge como um dos fundadores do Partido Socialista (PS) em Caminha, partido que ajudará a impor como a principal força política caminhense durante longos anos e que representará na Assembleia Municipal até meados dos anos 80. Sabemos que o Sr.José Verde teve muita participação cívica após o 25 de Abril. Mas, antes da revolução, já desenvolvia alguma actividade política ? Nessa altura não era fácil fazer política mas não gostava do regime, como quase toda a gente … Em Caminha havia um grupinho do "contra", o José Pires, o Luís Almeida (pai) e onde eu estava incluído, que ouvia a rádio Portugal Livre, do Manuel Alegre, que estava exilado na Argélia. Eu era então taxista e normalmente era dentro do meu carro que ouvíamos as emissões. Ás vezes estávamos ali mesmo no Terreiro, outras vezes íamos ali para a Portela. Certa vez, um legionário viu que nós estávamos a ouvir a rádio Portugal Livre e foi fazer queixa ao comandante da Legião Portuguesa aqui em Caminha mas este não ligava nada, chamou o tipo à atenção e ele até me veio depois pedir desculpa ! Em todo o caso, o cérebro da oposição aqui em Caminha era o Sr.Diogo de Oliveira, comerciante de Venade e maestro, que movimentava aí a malta toda antes do 25 de Abril … Lembra-se onde é que estava quando se deu o 25 de Abril ? Recordo-me que não dormi toda a noite e que, de manhã, telefonou-me uma pessoa amiga que estava no Porto a dizer que havia uma revolução. Depois então é que eu já não dormi, estive sempre a ouvir a rádio … Nesse dia 25 de Abril as pessoas saíram logo à rua aqui em Caminha ? Ao fim da tarde já foi muita malta para o Terreiro, ainda antes de jantar. Juntaram-se aqueles murmurinhos, um murmurinho aqui, outro acolá … Juntou-se aquela malta toda mas ainda estava tudo na expectativa … Uma semana depois, no 1º de Maio, houve alguma manifestação em Caminha ? Houve. O Movimento de Unidade Popular (MUP) já estava mais ou menos montado e já se movimentou ali a malta no Chafariz … Montou-se lá um altifalante com um microfone e quem quisesse dar bocas, dava … Dizia-se aquilo que se sentia, era espontâneo … Falou do MUP. Como se formou esse movimento político caminhense ? O MUP era um grupinho que se juntou no princípio … que se juntava no chafariz, era muita malta … Era o falecido Luís Agostinho, o Luís Almeida, o Fernando Canedo, o Fernando Ermida … eram muitos, já não me lembro de todos. Estávamos ali no Terreiro e depois a malta juntava-se ali toda ao lado do meu carro. E começámos então a organizar-nos … No dia 1º de Maio já fomos nós que animámos aquilo, mas quem organizou foi o maestro, o Diogo de Oliveira … A partir daí era diariamente, o Terreiro estava sempre com o microfone ali, quem quisesse mandar umas bocas, dizia-as … Quando foi o 25 de Abril quem é que estava na Câmara de Caminha ? Era o Sr. Francisco Presa, um homem honesto, mas começaram a exigir que saísse e o homem abandonou a Câmara. Ficou então o Sr. Parente de Lanhelas, que era vereador mas não se notava grande alteração, correu tudo na mesma … Quem mandava mesmo na Câmara era o Secretário, o Sr. Patrício, no fundo era ele que mandava lá na altura … Era um funcionário excepcional mas politicamente era um homem conservador, claro … Mais tarde, em Outubro e Novembro de 1974, a constituição da Comissão Administrativa da Câmara não foi completamente pacífica … Houve divergências e fizeram-se várias reuniões agitadas no Teatro Valadares. Depois de um tenente da Guarda Fiscal que estava aí em Caminha não poder ficar, um grupo mais ou menos organizado, em que alguns se diziam do MDP-CDE, o Diogo Oliveira, o Arqº. Horácio Silva, o Félix Ribeiro, a D.Maria Ângela e o António Sobral, quiseram tomar conta da Câmara durante uma sessão no Valadares … Foi então que a malta do MUP disse "Não, não pode ser assim, tem que haver eleições !" e obrigámos a que houvesse eleições de braço no ar. Nós éramos contra eles tomarem o poder assim de mão beijada, daquela maneira. Houve votação e o resultado é que ficou sem efeito. Nesse dia não conseguiram mas, mais tarde, embora não eleitos, acabaram por o conseguir através de nomeação pelo Governo Civil. Aí já não reagimos, compreendemos que alguém tinha de tomar conta daquilo …Até lhes digo que, afinal, até se portaram muito bem … Recorda-se de um episódio em Janeiro de 1975 quando o retrato de Sidónio Pais foi retirado da Câmara ? Eu assisti a esse episódio mas não colaborei em nada. O Luís Agostinho estava lá dentro, entrou primeiro como se fosse fazer qualquer coisa. Depois, entrou o Luís Almeida, o Fernando Ermida e o "Chasco" … Este foi buscar o quadro, tiraram-no pela varanda e foram escondê-lo numa grade de uma quelha que ali tem … A Câmara pôs um processo em Tribunal mas depois safaram-se … Entretanto, o Partido Socialista já se estava a organizar aqui em Caminha. Quer contar-nos como foi ? O Partido Socialista aqui em Caminha forma-se com algumas pessoas que vêm do MUP a que se juntaram outras, numa reunião no Colégio Fonseca lá para Novembro de 1974. A iniciativa até foi do Zé Araújo (Pai) mas que depois não ficou, pelo que fomos sete a constituir o PS Caminha: o Dr. Damião Cunha, que não esteve presente mas já estava filiado no Porto, eu, o Amílcar Barata, o Alfredo Sá, o Manuel Segadães, o José Abel e o Eduardo Sousa. Fomos logo directamente para o PS Porto e não quisemos saber do distrito de Viana para nada, apesar de um funcionário do PS, o José Luís Faria, ter então aparecido … Nós reagimos, não aceitámos e ele foi-se embora. Assim foi, e eu sou o militante nº 2844 do PS, filiado no dia 17 de Novembro de 1974 … Recorda-se desses primeiros tempos do PS em Caminha ? A primeira sede do Partido Socialista aqui em Caminha foi uma casinha aqui na rua dos Pescadores, era eu que pagava a renda do meu bolso … Lembro-me de um comício em Seixas com o Tito de Morais. Foi num domingo à tarde na Casa de São Bento, estava na mesa o Dr. Damião … Depois houve outros às medida que se aproximavam as eleições nacionais e, sobretudo, as autárquicas em 1976 … Nessa altura caiu-nos do céu o Pita Guerreiro que tinha vindo do Canadá, um indivíduo que ninguém conhecia … Quem o trouxe foi o Humberto Lima … Nós nessa altura estávamos à rasca, não tínhamos ninguém para Presidente da Câmara porque o Dr. Damião não quis, só aceitava ir para a Assembleia Municipal, e nós éramos todos malta com a 4ª classe, um ou outro tinha o ciclo preparatório, e quem íamos propor ? Chegou então o Pita Guerreiro, que era mesmo um político ! Por essa época estávamos nós a fazer obras numa casa na rua Barão de S.Roque, que o Dr. Damião cedeu então ao partido, fizemos lá uma sede enorme, com um salão para fazermos lá as sessões todas … Ainda antes das autárquicas, quando das eleições para a Assembleia da República em Abril de 1976, lembra-se do episódio da passagem por Caminha da caravana do CDS com o General Galvão de Melo ? Se me lembro ! Nesse dia, eu fiquei encarregado de saber por onde é que andava a caravana do CDS, meto-me no carro e vou para Cerveira. Cheguei a Cerveira e estava então o Galvão de Melo no primeiro andar de um café a falar. O comício acabou, eles metem-se todos dentro de um carro e arrancam, mas eu arranco à frente. Cheguei a Lanhelas e telefonei dali para Caminha : "o homem está a seguir, vai já embora !". Enquanto fui telefonar, atrasei-me e quando cheguei cá abaixo estava a caravana a passar e não me consegui meter no meio deles. Ao chegar a Caminha, deixei o carro abandonado e fiu ver o que é que se estava a passar. O Terreiro estava nesse dia cheio de malta e vejo o Galvão de Melo com uma pistola na mão, era um pistolão, mas o homem até se portou bem. E quando eu cheguei, o Galvão ia a descer a última escada do chafariz com a pistola na mão, puxou por ela, mas não disparou. Só mostrou. Meteu a pistola no bolso, meteram-no no carro e arrancaram …Ninguém queria que o Galvão de Melo entrasse aqui, estava uma movimentação da breca … Passados trinta anos desse tempo, acha que a revolução valeu a pena ? A mim, desiludiu-me muito. Claro que a gente está agora aqui a conversar e estou à vontade porque tenho a certeza que amanhã não me vêm cá buscar mas … é a única coisa … a liberdade … O problema é que apareceram para aí uma cambada de oportunistas e todos aqueles que andaram a trabalhar para que isto esteja mais ou menos como está, andou afinal a angariar para eles. É a única desilusão que eu tenho, o oportunismo …toda a gente sabe disso … Ainda tem hoje alguma participação política ? Depois de dois mandatos na Assembleia Municipal, estou afastado da política activa mas não deixo de ser aquilo que sempre sou … Continuo a ser militante do Partido Socialista e pago as quotas … Entrevista preparada e realizada por
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