A COREMA - Associação de Defesa do Património, mês e meio antes da data das últimas eleições autárquicas, convidou os representantes de todas as forças políticas candidatas à Câmara Municipal de Caminha para um debate sobre o rio Minho. Foi aí que conhecemos a presidente cessante da edilidade, Dra. Júlia Paula Costa, marcando esta nossa iniciativa a sua primeira aparição pública como candidata à autarquia de Caminha. Durante os primeiros meses de governação autárquica demos o benefício da dúvida ao novo executivo camarário, na expectativa de que as questões relacionadas com a defesa do ambiente, do património construído e da qualidade de vida dos cidadãos do concelho viessem a ganhar a visibilidade que não tinham tido nos anteriores mandatos. Foram por demais conhecidas as nossas divergências com os executivos que precederam o actual, e será oportuno lembrar que estivemos sozinhos contra muitas das suas opções em matéria de política ambiental, urbanismo, ordenamento e gestão do território.
Porém, as nossas expectativas logo se esfumaram com a discussão pública dos traçados do IC1 para o troço norte do lanço Viana do Castelo - Caminha. O executivo camarário assumiu a defesa das alternativas mais gravosas para as populações e para o ambiente, em total desrespeito pelas posições então assumidas pelos delegados da Assembleia Municipal, pelas Juntas e Assembleias de Freguesia, pelos subscritores de milhares de assinaturas recolhidas, e pelas posições da COREMA. A culminar tudo isto, as Juntas de Freguesia de Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas, a Comissão de Moradores de Vilar de Mouros e a COREMA foram constituídas arguidas de um processo judicial, ainda em curso, por terem participado numa acção cívica, realizada a 30/08/2003, na Avenida Marginal de Caminha, após denúncia do executivo camarário.
Assim tem permanecido a edilidade caminhense, de costas voltadas para as legítimas preocupações das populações visadas e ao lado das propostas da empresa concessionária da obra. Este executivo é, na realidade, o principal responsável pelo maior atentado ambiental, paisagístico e social alguma vez perpetrado neste concelho. Apesar dos dois "chumbos" da chamada "Ligação a Caminha" (de facto, Ligação a Gondarém - Vila Nova de Cerveira), o executivo camarário insiste sua construção, obcecado com uma fantasiosa ponte internacional (a 5 km da existente em Vila Nova de Cerveira) e indiferente aos brutais impactes que a rodovia teria para Lanhelas. Deixou as populações do vale do Âncora e do vale do Coura sozinhas, assistindo, impotentes, ao esventramento do seu território e do seu património, à destruição e contaminação dos seus recursos hídricos e à desagregação da paisagem que moldaram ao longo de várias gerações.
Em relação aos problemas do rio Minho, o divórcio da Câmara Municipal de Caminha foi, de igual modo, notório. Basta dizer que foi a única autarquia que não contestou os projectos de construção de três barragens no seu troço internacional! A sua inqualificável "neutralidade" perante tão grave ameaça é reveladora da falta sensibilidade face a questões ambientais de importância capital para o concelho e para a região. Exibe, ao mesmo tempo, como um trofeu a dragagem do canal de acesso à ponte cais, em Caminha. Para além dos seus efeitos negativos no conjunto dos sistemas vivos esturarinos, tratou-se de uma intervenção perfeitamente ineficaz dado o contínuo assoreamento a que o referido canal está exposto.
O rio Âncora continua a ser alvo do despejo de esgotos domésticos, ao mesmo tempo que a ETAR da Gelfa se mantém subdimensionada e sem capacidade para depurar os efluentes a ela ligados. Mas o que importa ao executivo camarário é a atribuição da bandeira azul a Vila Praia de Âncora...
A adesão contra-natura do município caminhense à Comunidade Urbana "Valimar" foi propagandeada com grande estrondo pela Sra. Presidente da Câmara Municipal, apontando-a como imprescindível à defesa do ambiente, e em particular do rio Minho e do litoral de Caminha. Não se conhece uma única medida que tivesse sido posta em prática no âmbito da conservação e valorização dos recursos naturais daqueles ecossistemas! Ao ter rejeitado a integração natural de Caminha na Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho renegou a História, os laços culturais e sentimentais que sempre existiram entre os caminhenses e toda a comunidade transfronteiriça do rio Minho, que os restantes municípios ribeirinhos têm defendido, com maior ou menor empenhamento.
Mas não foi só o património natural que foi visado por este executivo que agora termina o seu mandato. Também o património histórico-cultural e arquitectónico do concelho de Caminha tem sido alvo do aviltamento, da descaracterização e desclassificação, bem retratados nas seguintes intervenções: edifício do antigo Hospital de Caminha; zona envolvente das Muralhas da vila / Baluarte de Sto. António; Chafariz Quinhentista de Caminha; zona de protecção da Estação Arqueológica do Alto do Coto da Pena; Ponte de Bouça Mé, em Orbacém. Ainda, a desfiguração do Parque Municipal de Caminha, transformado em exemplo acabado de poluição luminosa e desperdício energético, contrários a qualquer visão moderna da arquitectura dos espaços públicos. Também a uniformização cromática e o vazio estético do espaço urbano, como foi o caso da intervenção levada a cabo na Praça da República de Vila Praia de Âncora. Tudo isto foi realizado com um profundo desprezo pela opinião dos cidadãos e pelos laços afectivos que os ligam ao espaço edificado onde nasceram e onde vivem, ao mesmo tempo que se lapidou, de forma chocante, o erário publico.
O reconhecimento público do trabalho realizado pela COREMA ficou, há cerca de dois meses, patente no prémio nacional de ambiente que recebeu. Ganhe a força política que ganhar neste acto eleitoral, a COREMA manter-se-á fiel aos seus princípios e continuará a assumir, de forma coerente e independente, a defesa do Ambiente e do Património, quer isso colida com interesses particulares ou desagrade a certos poderes instituídos. O nosso estatuto de "parceiro social" foi totalmente desrespeitado pelo executivo cessante, que nos elegeu como seus inimigos. Ainda há dias, numa intervenção pública realizada em Lanhelas, a poucos metros da sua sede, a Sra. Presidente da Câmara Municipal de Caminha destilou o seu ódio de estimação em relação à COREMA.
Daqui a quatro anos cá estaremos para fazer o balanço da actuação do futuro Executivo da Câmara Municipal de Caminha em matéria de Ambiente, Património e Desenvolvimento Sustentável. Esperemos que ele seja positivo!
Caminha, Outubro de 2005