Num 24 de Abril de há 100 anos atrás, do ano de 1904, um grupo de Ancorenses decidiu dar um impulso, um novo rosto a este espaço, tornando-o um sítio de visita obrigatória, e de onde se podem admirar as melhores paisagens de Vila Praia de Âncora.
Da primeira reunião dessa Comissão lavrou-se uma acta que dizia:
"Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e quatro, aos vinte e quatro dias do mez de Abril no sitio da Lagarteira e casa de António Affonso de Amorim e Silva compareceram Porphirio Affonso, Bernardo Augusto Barbosa Vianna, Miguel Nuno da Silva, Abilio Pires Pinheiro, José Affonso Vianna, Constantino Fernandes, Joaquim Alves de Paula, João José de Brito, Celestino Martins Fernandes, José Pereira do Rego, Francisco José Domingues, Sulpício Alves Rocha e Rodrigo Lourenço Rocha, os quais conhecendo de perto a Cappela de S. Salvador do Mundo e o local do Calvario d'esta freguezia onde ella se acha, bem como a sua grande importancia não só debaixo do ponto de vista religioso por ter ali perfeitas imagens dos Santos mais recorridos, mas ainda por ser um ponto lindissimo pela sua grande elevação e bello panorama, onde os frequentadores da nossa Praia affluem por devoção ou recreio, resolveram iniciar ali algumas obras simples mas efficazes, precedidas dum plano geral para a sua continuação.
Haviam-se para isso quotisado em dez mil reis cada um, tendo adherido para este acto tão patriotico com a mesma quota expontanea os Senhores José A. Fernandes Cannas, D. Eugénia Cannas Esposa do mesmo, Domingos Gonçalves(Amonde), Silvestre Alves da Deveza, Adolpho Achilles de Vasconcelos Maia, Conego Abbª. Bernardo José Vaz, Pedro Antonio Porttela, Damião Fernandes Baixinho e Antonio Martins Pereira, ausentes, mas n´este acto representados por cartas ou individuos. Verificando-se pois que as quotas dos vinte e tres subscriptores produsiam a quantia de duzentos e trinta mil reis, passaram a discutir por onde mais comvinha o iniciamento da obra acabando por deliberar se procedesse ao alargamento, vedação e terraplanagem do adro por se achar mais proporcional com aquella quantia subscripta, visto que o escadorio por espaçoso e dilatado estava muito alem dos parcos recursos de que agora podiam dispôr.
Convencidos porem ficaram, attento o grande patriotismo de seus conterraneos, a quem na maior parte é desconhecida esta arrojada tentativa de manifesta bôa vontade dos subscriptores referidos, appareceram recursos bastantes para levar a bons termos todos os melhoramentos que a opportunidade do local está exigindo.
Resolveram tambem que entre os presentes e dos mesmos fosse eleita uma Comissão Administractiva de cinco vogaes, para mais commodamente fazerem executar quaisquer determinações da Assemblea Geral de todos os socios a cuja approvação e discussão aquella Comissão submetterá todos os assumptos mais importantes.
Procedendo-se em seguida á eleição, ficaram por maioria de votos eleitos: Presidente - Rodrigo Lourenço Rocha - Secretario - Celestino Martins Fernandes - Thesoureiro - Porphirio Affonso - Vogais - Francisco Jose Domingues e Sulpício Alves Rocha.
Resouveu-se finalmente que todos os socios comparecessem no proximo dia vinte e seis no local das obras pelas seis horas da manhã para ahi melhor conhecer da sua precisão.
E como nada mais houvesse a tratar lavrou-se a presente acta que eu secretario recem-eleito escrevi e por todos os outros eleitos e eleitores vae ser assignada.
Rodrigo Lourenço Rocha
Celestino Martins Fernandes
Porphirio Affonso
Francisco José Domingues
Sulpicio Alves da Rocha
Abilio Pires Pinheiro
Bernardo Augusto Barboza Vianna
Constantino Fernandes
João José de Brito
Joaquim Alves de Paula
José Affonso Vianna
José Pereira do Rego
Miguel Nuno da Silva
Pedro Ant.º Portella
Declaro em tempo que por lapso deixou de ser mencionado o subscriptor Raphael Franc.co Martins dos Santos.
O secretario
Celestino Martins Fernandes"
A esta Comissão se seguiram outras que, com a autorização da Junta de Freguesia - ex. Junta de Paróquia, de quem eram delegadas, introduziram melhorias importantes neste sítio, imprimindo-lhe características especiais e originais.
O primeiro quartel do século XX ficou assinalado com as seguintes acções de vulto, resultantes dessa iniciativa:
- a Junta, entre uma cedência, uma doação e, muito especialmente, trocas de terrenos seus por áreas de particulares na zona adjacente à Capela de S. Salvador do Mundo, criou uma ampla área de lazer circundante, de mais de 16 000m2, que em anos posteriores foi ampliada.
- o adro foi redimensionado, e o escadório, da Capela de S. Salvador do Mundo, foi construído e assim chegou aos nossos dias.
- foi aberto o acesso ao local.
- realizou-se um arranjo circundante ao local de culto.
- construiu-se a gruta e seu escadório de acesso.
- construiu-se a casa de sessões de apoio ao local.
- etc.
Realizaram-se neste local, e durante muitos anos, as tradicionais Festas do Calvário, que ocorriam no mês de Julho, e que chegaram a ter uma certa projecção. Festividades que deixaram de se efectuar há uma larga série de anos .
Pensamos que o local merece um novo impulso. Ideia a considerar para mais um ciclo, ou uma nova projecção cíclica, para este século XXI, com o desenvolvimento de iniciativas que, para além da necessária inclusão de cuidados mais permanentes, e frequentes, introduzam melhorias, no respeito pelos princípios regulamentadores do PDM, tais como, por exemplo, espaços para equipamento, de lazer e cultura, certos de que o Monte Calvário é uma área urbana com valor cultural.
Dar-se-á, assim, de certa forma, resposta ao actual imperativo de alargar e diversificar as nossas ofertas turísticas, que passam, também, pela conservação e melhoria deste local emblemático que os Ancorenses podem oferecer a quem nos visita.
Foi um grupo de Ancorenses ilustres que, com o seu dinamismo, iniciou/contribuiu em 1904 para as relevantes obras que muito dignificaram o Monte Calvário, além de outras iniciativas em prol da projecção de S.ta Marinha de Gontinhães, hoje Vila Praia de Âncora, tirando-a do anonimato. Parte deste grupo dinamizou e concretizou outras iniciativas que projectaram esta freguesia para o século XX e, porque não dizer, contribuiu para que esta nossa terra passasse a Vila.
Não só foram os impulsionadores do ressurgimento deste aprazível sítio, mas também de outros feitos: a construção da Avenida Dr. Ramos Pereira, construção dum acesso satisfatório ao Monte Calvário, constituição da Associação dos Bombeiros Voluntários e arranque da construção do quartel, instalação do Instituto de Socorros a Náufragos, etc.
Neste octogésimo aniversário de passagem de Gontinhães a Vila Praia de Âncora, é de primordial importância que este grupo de Ancorenses seja justa e merecidamente homenageado, de uma forma condigna, pois foram homens de visão, que souberam desenvolver e engrandecer este encantador espaço, que é uma varanda privilegiada sobre a nossa terra, sobre o Atlântico e sobre o Vale do Rio Âncora.
Daqui lançamos o apelo, que esperamos seja devidamente acolhido, para que seja prestada uma homenagem de reconhecimento e gratidão a quem, há 100 anos atrás, soube empreender notáveis melhoramentos, que muito contribuíram para o progresso de S. Marinha de Gontinhães, actual Vila Praia de Âncora.
Entendemos que seria de incluir na programação do 80º Aniversário de Passagem a Vila algumas cerimónias, como preito a estes nossos antepassados, cuja memória muito nos deve honrar, sendo certo que são credores da nossa gratidão, do nosso respeito e da nossa veneração.