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CAROCHO DO RIO MINHO NA BASE DE ENCONTRO DE EMBARCAÇÕES TRADICIONAIS
O Encontro de Embarcações Tradicionais previsto para Lanhelas para os próximos dias 31 de Maio e 1 de Junho pretende "evidenciar a riqueza patrimonial e cultural da freguesia, reavivando as suas memórias".
Dentro deste espírito que vai fazer desta aldeia da Ribeira Minho, durante dois dias, uma referência da "cultura popular de Lanhelas nas mais diversas actividades" relacionadas com um símbolo deste rio - o Carocho, a organização (Junta de Freguesia; Corema; Lanhelas Futebol Clube; Associação de Barcos do Norte), aproveitou a data de 23 de Abril para entregar à imprensa um dossier do evento e um desdobrável (igualmente distribuído pela freguesia) contendo um pequeno resumo histórico da justificação pela qual tal efeméride, é como que um símbolo da aldeia.
A VALENTIA DO(A)S LANHELENSES
O tema reporta-se ao tempo das guerras da Restauração, baseado no imaginário popular e em documentos escritos da época, representados num quadro a óleo existente na Igreja Paroquial de Lanhelas, realçando o valor dos habitantes desta aldeia, ao rechaçar uma invasão castelhana chefiada por um tal capitão Toro que caiu prisioneiro e causando simultaneamente pesadas baixas nas hostes inimigas.
Este texto (reproduzido na íntegra nesta edição), da autoria do historiador lanhelense Luís Guerreiro, vai servir de pretexto a que o Dia 23 de Abril venha a ser reconhecido como o Dia de Lanhelas, passando, futuramente, a ser assinalado condignamente pela autarquia local, dado que é "seu dever preservar a identidade da freguesia e a memória dos antepassados que a ilustram".
"PONTES VIVAS"

É dentro deste contexto que surge o Encontro de Embarcações Tradicionais, igualmente como forma de destacar a "importância do rio como intercâmbio entre Portugal e Galiza, transformando as embarcações em pontes vivas".
Um programa diversificado promete gerar nesta aldeia caminhense um polo de cultura tradicional e popular no decorrer desse fim de semana, em que a simbiose rio/carocho servirá de base.
Entre 15 a 20 barcos tradicionais portugueses e galegos serão utilizados como "museu vivo", ao ser permitida a sua fruição (viagens pelo rio), cabendo ao carocho minhoto um papel central, dado que será feita uma breve resenha histórica da embarcação e respectiva técnica de construção em que o artesão Luís Marrocos se esmerou, disponibilizada através de uma exposição em vídeo patente na Casa da Torre (outro marco histórico da aldeia).

Esta "mostra" permitirá ainda aos visitantes visualizar entrevistas a várias pessoas ligadas a Lanhelas e às suas memórias; os usos e costumes chegados até aos nossos dias; o papel do carocho e do rio "no modo de organização da sociedade, do trabalho e do intercâmbio com a Galiza".
As paisagens que se contemplam a partir do rio e a sua fruição, a qualidade do ambiente e o "nosso futuro", incluem também este filme, em que a história da pesca, os seus intervenientes e a sua ligação ao meio fluvial não serão descurados.
"REERGUER O MOVIMENTO DOS CAROCHOS"
Os organizadores apontam assim o dia 31 de Maio (em que se concentram as principais actividades), como um "reerguer do movimento dos Carochos, um recuperar e relançar da cultura popular de Lanhelas nas mais diversas actividades ligadas a esta embarcação".
Regatas de carochos a remos, provas desportivas para crianças, jogos populares, percursos pedestres (Esqueiro-Casa da Torre), palestras (a carpintaria naval tradicional/património fluvial/o rio Minho), exposição de miniaturas, um encontro de música popular portuguesa e galega e fogo de artifício, completam a vasta programação delineada para a margem de um rio e de um barco (originário das antigas drakkar vikings, como reza a lenda) "sempre em evidência" no decorrer do Encontro, como se de um ritual mágico se trate.
Memórias de L a n h e l a s
O 23 de Abril de 1644

No cimo do Outeiro d´Antas ergue-se desde 1940 o Cruzeiro da Independência sobre o corpo cilíndrico de um antigo moinho de vento. O monumento é o mais conhecido e visível dos ex-libris de Lanhelas e celebra um feito de armas protagonizado pela gente da freguesia na época das guerras da Restauração.
No seguimento do 1º de Dezembro de 1640, a dinastia dos Filipes foi afastada do trono de Portugal e o reino ficou em guerra durante longo período com a Espanha até à assinatura da paz em 1668. Sem descanso, as forças espanholas assediaram nesses anos as praças de armas fronteiriças e as povoações raianas. A resistência organizada pelo novo monarca, D. João IV, foi pontuada por grandes batalhas entre os exércitos rivais e repetidas escaramuças, em particular no Alentejo e no Minho, nas quais as populações da zona de fronteira tiveram presença de destaque.
Foi nesse quadro de mobilização popular e intensa exaltação patriótica, que o povo de Lanhelas se viu envolvido em diversas contendas lutando pela sobrevivência e pela autonomia de Portugal. A mais notável dessas acções bélicas - o recontro do 23 de Abril de 1644 - deixou uma marca indelével na tradição local e teve o mérito de ficar inscrita na memória oficial das guerras da Restauração. Com efeito, os actos heróicos cometidos nesse dia memorável pelas gentes de Lanhelas mereceram a atenção de D. Luís de Meneses, conde da Ericeira. General de artilharia com larga folha de serviços nas mesmas guerras, veio a tornar-se depois o mais conhecido cronista deste turbulento período da história peninsular. Assim, sempre que o ataque espanhol a Lanhelas é evocado, recorre-se invariavelmente à sua História de Portugal Restaurado.
A narrativa do conde da Ericeira pode resumir-se brevemente. Os moradores de Lanhelas, alertados pelas vigias em atalaia no rio para o avanço de uma incursão do inimigo, mobilizaram-se em massa acorrendo à estacada erguida ao longo da orla do Minho, entre a Casa da Torre e o Parapeito. A pé firme, uns 60 "bravos lanhelenses" aí entrincheirados aguardaram o desembarque da hoste atacante que receberam com intensas descargas de mosquete. Já em debandada, os assaltantes foram depois perseguidos à espadeirada, com chuços, lanças e outras armas de arremesso, e muitos, incapazes de alcançar as suas barcas, acabaram por cair nas mãos dos vencedores. Ericeira calcula em mais de 600 homens o total de efectivos da força invasora e qualifica o resultado do combate como "horrorosa matança". No rol dos prisioneiros contava-se o capitão Toro, de cognome "O Trovão", comandante da força estrangeira, mais tarde servindo de moeda de troca para a libertação de dois combatentes de Lanhelas, António Lourenço e seu filho Pedro Lourenço, em posse do inimigo.
O valor indicado por Ericeira no que toca ao quantitativo dos assaltantes, distorcido provavelmente por gralha tipográfica ou lapso de escrivão, carece de ser revisto. Ora duas outras fontes permitem-nos uma avaliação mais razoável desse cômputo.
O abade de Pêra, João Salgado de Araújo, publicista de nomeada, dá-nos notícia do mesmo recontro, bem como enumera as façanhas do capitão António de Azevedo e respectiva ordenança de Lanhelas, cuja acção militar inclui diversas entradas em povoações galegas. A propósito dos responsáveis pelo assalto do 23 de Abril, ocorrido claramente no âmbito de um ciclo de mútuas ofensas e retaliações, refere uma "barcaça de cem Infantes, acompanhada de outras", saldando-se a temeridade dos espanhóis numa centena de mortos e prisioneiros. Segundo o abade, dois moradores de Lanhelas teriam ficado feridos na refrega e três perdido a vida. Avança ainda um dado esclarecedor, omisso nas restantes fontes: o triunfo do 23 de Abril não resultou apenas da lavradores do lugar e de suas mulheres (Sucessos militares das armas portuguesas em suas fronteiras).
Um documento emanado da Câmara eclesiástica de Valença, da autoria de João Alves Soutelo, vigário de Lanhelas e testemunha directa dos acontecimentos, é o que nos suscita maior confiança. Apresenta-nos uma versão comedida do evento, sem todavia ensombrar o relevo dos feitos dos lanhelenses. Informa que o atacante surpreendera os moradores da freguesia ao romper da alva, fazendo-se transportar em oito pequenas embarcações. No termo da escaramuça, segundo a mesma fonte, foram arrolados 38 prisioneiros, entre os quais o referido capitão Toro, o capitão Jorge e dois alferes, muitos deles exibindo as marcas das cutiladas e do fogo da mosquetada. Quanto a baixas da parte do invasor, dez corpos ficaram varados na praia, aos quais o pároco, cristãmente, veio a dar sepultura "nas costas da capella mor" da igreja local. Quatro foram os homens de Lanhelas tombados em defesa da sua terra e dois outros molestados gravemente pelas armas do inimigo.

Estas fontes escritas são pouco conhecidas da população local. Muitos, porém, alimentaram o seu imaginário através da evocação pictórica do 23 de Abril ainda conservada na igreja matriz da freguesia. O quadro é de autor desconhecido e conta-se entre os mais representativos deste heróico período histórico. Possui naturalmente uma valia inestimável para todos os lanhelenses enquanto testemunho de um passado que lhes cumpre perpetuar, bem como é pertença do património emocional e artístico da nação portuguesa.
O conjunto é traçado numa factura convencional e ingénua. Num cenário estereotipado sobressaiem quatro picos montanhosos, assinalados com legendas, e desdobra-se uma encosta salpicada de figurações de diversos povoados onde, em plano médio, se desenvolve o duelo dos combatentes. Semi-ocultas, descortinam-se duas edificações mal proporcionadas nos ângulos do quadro do lado esquerdo, a capela da Senhora do Crasto e a Casa da Torre. À distância, avistam-se grupos de homens armados a aguardar o desfecho do recontro, numa alusão à tradição que chacoteia o acanhamento das forças de certas aldeias vizinhas vindas em socorro dos sitiados. Paralelamente à linha da estacada, em plano inferior, divisam-se as barcas dos intrusos em abandono ou voltadas de borco sobre os corpos das vítimas da peleja. Numa escala agigantada, triunfante e a preencher o centro da tela, São Jorge, alçado no seu cavalo, trespassa à lançada o dragão inimigo. A sua irrupção na contenda simboliza o carácter nacional da vitória da gente de Lanhelas, parecendo ainda disputar a São Martinho o lugar de patrono da freguesia.
A Junta de Freguesia de Lanhelas entendeu relembrar o 23 de Abril, esperando de futuro celebrá-lo de forma apropriada, pois é seu dever preservar a identidade da freguesia e a memória dos antepassados que a ilustram.
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