A apresentação e aprovação de um contrato-promesssa para construção de um pavilhão multiusos na antiga Quinta dos Meiras (Corgo), em Vilarelho, suscitou controvérsia e expectativa no concelho de Caminha.
Desde essa data, não houve evolução aparente do processo.
Tempo para que o C@2000 auscultasse um caminhense, possuidor de um mestrado em planeamento urbano com tese em planificação de turismo na Universidade de Toronto (1994), e um doutoramento em geografia económica e urbana na Texas A&M University (2007), duas das maiores e melhor reputadas universidades na América do Norte, a par de ter dado aulas em universidades de Portugal, Canadá e Estados Unidos. Do seu currículo, ressalta ainda a experiência de ter trabalhado nos "convention bureaux" (que são os serviços de turismo e de captação de eventos) de Toronto, Belo Horizonte e São Paulo, tendo sido ainda consultor para vários governos estaduais e provinciais, e cadeias hoteleiras internacionais.
Colocamos a José António Gavinha, algumas questões relativas a este tema:
C@2000 - Como pessoa com uma larga experiência em planeamento e em turismo de eventos, que comentário se lhe oferece esta proposta, para a construção de um pavilhão multiusos em Caminha?
JAG - Em princípio, é sempre um bom sinal que haja grupos privados interessados em investir no concelho. Qualquer projeto, especialmente quando depende de ajudas públicas, deve ser analisado em detalhe.
Será uma boa solução para combater a sazonalidade motivada pela aposta do concelho no turismo?
É difícil responder-lhe, até pelo pouco que tem vindo a público sobre os detalhes físicos do projeto. É fundamental saber de que usos estamos a falar. Só sabendo áreas e capacidades de espaços específicos podem identificar-se as atividades que neles cabem. Quantos metros quadrados cobertos estariam disponíveis para uma exposição de produtos industriais? Quantos espaços (fixos ou moduláveis) poderiam funcionar de forma independente e em simultâneo, durante um pequeno congresso? Quantos e quais estariam climatizados? Qual o máximo de pessoas que (dentro das normas de segurança) poderiam assistir a uma palestra (sentadas), ou a um concerto (em pé)?
Em lugares onde trabalhei, tínhamos com frequência um jantar e baile de casamento numa sala, vizinho de uma exposição de móveis, e logo ao lado um evento para a apresentação de um novo livro; tudo, ou mesmo mais, ao mesmo tempo. Isso é possível, mas exige uma infraestrutura muito flexível, e muito bem equipada. Só depois de identificar os tipos e tamanhos de eventos, dentro dos limites impostos pelo que se construiu, pode começar a falar-se de ocupação e de sazonalidade, até porque cada tipo de evento também tem a sua sazonalidade própria (boa parte dos eventos artísticos tendem a concentrar-se mais para o verão, exposições de produtos pela meia-estação, congressos mais para o inverno).
O local foi bem escolhido? Além de obrigar a uma alteração ao PDM que aponta para a criação de uma nova ligação entre as ruas do Corgo e a do Sidónio Pais, através desta quinta.
Em princípio, e desconhecendo detalhes importantes do projeto, creio que é uma das opções mais adequadas - um terreno amplo, bem acessível, não demasiado afastado do núcleo urbano, com potencial para expansão. Um espaço deste tipo requer um acesso fácil a veículos pesados, e bastante espaço total (pense-se em estacionamentos, carga e descarga, e armazenamentos), por isso seria bom que as plantas (se as há) apresentadas fossem conhecidas.
Há quem advogue que a inexplorada zona industrial de Argela/Vilar de Mouros - e prevista em PDM - seria uma melhor opção para a fixação de emprego dos jovens do concelho…
...são coisas diferentes. Um espaço de eventos requer arranjos urbanos que uma zona industrial não necessita. Quando compartem espaços, os multiusos são colocados na periferia, para minimizar interferências (especialmente de tráficos, que não são os mesmos). Nada impede, no entanto, que possam ser vizinhos.
Terão impacto sonoro ou visual nas redondezas, uma zona de expansão habitacional?
Não creio que seja um problema de maior, pois a área do Corgo já está muito diversificada, e com algumas estruturas bastante volumosas (como a Escola Preparatória e Secundária e o Pavilhão Municipal). Poderá, como em todas as situações, haver desenhos e soluções específicas que criem problemas; assim como usos específicos que sejam discutíveis. Os primeiros devem resolver-se durante a discussão pública do projeto arquitectónico, a segunda pelo regulamento de utilização que se aprove para o pavilhão.
O holding baseia-se nas 319 mil pessoas da região (Ponte de Lima-Tomiño) para consubstanciar o êxito financeiro do investimento.
Um mínimo de população (residente e flutuante) tem que ser sempre o primeiro ponto para discutir a viabilidade de um projeto como este. Por toda a costa do Norte de Portugal e da Galiza, as densidades de população são muito altas, e quase qualquer localidade pode apresentar populações como essas, ou até mais altas. Bem mais importantes do que a população, são a estrutura económica e empresarial da região servida, e a experiência da equipa que operaciona a infraestrutura.
É fácil atrair regularmente (ao longo do ano) feiras, exposições, espectáculos e outros eventos para este Centro de Exposições Transfronteiriço para 13.500 lugares?
Esse é um dos pontos fundamentais. O turismo de eventos é das áreas mais competitivas do turismo; há muitos eventos, mas também muitas localidades com excelentes espaços que gostariam de os acolher. É extremamente difícil manter um calendário preenchido, mesmo com as equipas de vendas mais competentes e agressivas. No caso de muitos eventos regulares (por exemplo, um congresso de engenheiros, ou uma reunião anual de rotarianos), a sua captação deve ser iniciada um ou mais anos antes. Faz falta construir e manter uma boa rede de contactos. Esta indústria não funciona com abrir, colocar fotos e notícias nas redes, e esperar que os clientes venham bater à porta.
Esta estrutura vai custar mais de 25.000€/mês ao Município, durante 25 anos, como opção de compra até 100.000€.
Também aqui não é fácil de responder, não sabendo o que está (ou não está) incluído nesses valores. O tipo de espaço de que falamos exige quase sempre custos de acondicionamento e de manutenção muito elevados, e um clima húmido no inverno e quente no verão não ajuda. Por exemplo, há exposições que só podem ser feitas em espaços climatizados; muitas, pelo valor dos produtos expostos, exigem condições de segurança acima da média. Muitos usos são mixtos, havendo exposições e palestras em simultâneo. Uma boa parte requer comidas e bebidas fornecidas por catering externo, o que limita as receitas de uma cafetaria própria. Equipar e renovar um espaço multiusos, não só em termos de infraestrutura, não é barato - pense só nos equipamentos audiovisuais, que é preciso modernizar regularmente.
Poderá ser um "elefante branco" para o Município, que terá de arcar com a manutenção do imóvel, estacionamento, parque de lazer, luz, água, acessos e contratação de funcionários? Embora possa concessionar, subarrendar a terceiros.
Este é, no meu entender, o grande risco. Geralmente, o turismo de eventos gera lucros importantes, mas exige infraestruturas que são caras de equipar e de manter. Diria mesmo que não conseguiria entender este projeto sem que o pavilhão esteja terceirizado a uma empresa privada especializada, e que o envolvimento financeiro da Câmara seja limitado e de baixo risco.
Não consta que os pavilhões de Viana do Castelo ou Cerveira tenham uma ocupação apontada por estes investidores e CMC.
Não tenho elementos para lhe responder. Viana será sempre um forte competidor, que por acessibilidade e tamanho tem vantagens claras sobre Caminha (tal como Tui ou Valença, sobre Cerveira).
É correcto comparar Caminha com projectos existentes em grandes centros urbanos como Porto, Lisboa, Guimarães ou Setúbal para justificar o sucesso da proposta?
O concelho de Caminha nem tem uma população nem um parque industrial (ou de serviços) comparáveis aos que cita. Isso não significa que não se possam atrair tipos específicos de eventos, menores e mais diversificados. É difícil, mas não impossível.
Estas sociedades de Fundos de Capital de Risco são fiáveis?
É uma pergunta para um economista, não para mim. No entanto, e como em qualquer empresa do setor privado, o cartão de visita é sempre a experiência anterior e os resultados já obtidos. Cada sociedade e cada empresário são um caso à parte, e são os seus percursos o que os avaliza.
Este projecto teria sido bem planeado (pensado)? Optaria por projecto semelhante, se tivesse de escolher?
Precisaria de saber mais detalhes. Certamente olharia com o maior interesse para um projeto deste tipo, se fosse gerido pelo setor privado, e com uma participação limitada de fundos municipais. Creio que a Câmara deveria encomendar um estudo de viabilidade independente antes de continuar com a proposta.
Não seria preferível investir noutras infraestruturas com ligação à Galiza (por exemplo, túnel ou ponte no estuário do rio Minho)?
Basta olhar para um mapa para entender que uma ligação direta à Galiza deverá ser sempre um dos grandes objetivos estratégicos para o concelho (e mesmo para Viana, quando nesta cidade se entenderem as vantagens comparativas que lhe traria uma ligação a Vigo por Baiona). No entanto, este projeto não deveria ser analizado como alternativa, que nunca poderá sê-lo; um pavilhão multiusos é uma estrutura relativamente pequena, que uma empresa privada qualificada pode levar a cabo perfeitamente. Já uma ligação rodoviária internacional implica vontades políticas e recursos económicos muito mais consideráveis.