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Escola EB 2,3/S de Caminha

Projecto pioneiro da associação ETHOS

Cão lavrador utilizado como ferramenta por professores de educação especial

Criança com síndrome de DAMP melhora défices de atenção, motricidade e percepção

Desde Janeiro de 2015 que funciona na EB 2,37S de Caminha um projecto-piloto de apoio a um aluno de 13 anos, com síndrome de DAMP, em que um cão de raça Lavrador cumpre papel preponderante no tratamento de "questões comportamentais", como é o caso do limiar da frustração de uma criança perante as dificuldades que enfrenta, ou do seguimento de regras e instruções, a par de actuar sobre o défice de atenção, motricidade e percepção.

O caminhense Paulo Torres, entre 2012 e 2013, tirara em Barcelona uma pós-graduação em intervenção educativa e terapêutica assistida por cães, e aí estagiando em algumas instituições de apoio à deficiência, após o que decidiu apresentar uma proposta de colaboração (gratuita) com a escola -onde ele próprio estudou, enquanto jovem -, o que foi aceite.

"Vazio legal"

Utilizou a sua cadela Maggie, com três anos, para esta terapia praticamente pioneira em Portugal. Assinalou que esta prática - ainda carente de regulamentação própria por parte do Estado, no nosso país, ao invés do que sucede há já muitos anos nos EUA e em vários países do norte da Europa -, não se confunde com outras "actividades lúdicas que nada têm a ver com a terapia", em que também são usados cães, cavalos ou golfinhos.

Refere que quando se pretende melhorar as patologias mentais, cada aula não pode ter muitos alunos, como sucede neste caso em que apenas o João interage com a Maggie. No caso das patologias físicas, esse número pode atingir os seis alunos em simultâneo, precisa.

"O cão é uma ferramenta"

Paulo Torres não tem qualquer dúvida de que "o cão é um facilitador e motivador ao serviço do professor de educação especial", durante uma aula semanal que decorre no auditório da escola, ao permitir à criança gerir muito melhor as suas emoções.

Explicou que esta cadela foi seleccionada "desde o início" para este fim com fins terapêuticos, possuindo um vasto reportório de actividades (designados por comandos ou ordens e que superam as 50) que desenvolve com a criança. Nesta aula a que assistimos, o recolher as bolas de diferentes cores de um cesto por parte da cadela, e entregá-las ao aluno, ou receber dele os arcos para colocar num cone, insere-se na componente didáctica da sessão, de acordo com as necessidades de ajuda que o miúdo requer, no seguimento dos exercícios que lhe são exigidos pelo professor, e perante os quais encontra dificuldades.

Embora entendesse que deveriam ser os professores a pronunciarem-se sobre os resultados desta terapia, dado que apenas acompanha a evolução do aluno durante uma aula, Paulo Torres reconhece os progressos registados, "controlando-se bastante bem", afirma. Estes progressos são registados em relatórios feitos a cada aula, nomeadamente, o relacionamento com o cão, com o professor e ele próprio, sublinha este terapeuta.

"Os resultados foram muitos"

Manuela Fão é a professora coordenadora da Educação Especial do Agrupamento (existem 113 alunos com necessidades educativas especiais), a cuja direcção foi apresentado este projecto - ainda no tempo em que era responsável outra colega -, mas que foi impossível implementar de imediato tal iniciativa por falta de disponibilidade. Quando assumiu a coordenação em 2013, "voltei a consultar o processo e considerei-o ser da maior pertinência, quer pelo seu aspecto inovador, quer pelas mais-valias que iriam trazer para os alunos".

Esta professora, coordenadora de uma equipa de 11 profissionais do ensino, após mais de um ano de experiência com esta terapia, admite que os resultados com o aluno "foram muitos".

"Utilizar o cão como uma ferramenta, originou uma motivação maior no miúdo", explicita esta docente, ao definir o animal "como um amigo do aluno, a quem ele pode mostrar as suas fragilidades sem ser punido, porque o cão nunca lhe chama a atenção. Está sempre feliz".

"O cão torna-se um "prémio" motivador

Através dos jogos das bolas, arcos e outros objectos, e quanto mais o aluno trabalhar e acertar, "mais contacto tem com o cão", levando-o a concluir que quanto mais concentrado e aplicado for, o prémio é um relacionamento mais estreito e duradouro com o Lavrador, sendo-lhe permitido, por isso, brincar amiudadamente com ele.

Manuela Fão, contente com a aposta, referiu-nos ainda que não existiu qualquer risco, ou despesa com este projecto, além de constatarem que "o João está mais disponível para aprender".

Este aluno com necessidades educativas especiais, até então com uma auto-estima e aprendizagens baixas, revela agora resultados bem satisfatórios, completa a professora.

"O trabalhar com o cão, ajuda imenso a acalmar o João"

Estas conclusões são reconfirmadas pelo professor de Educação Especial Nelson Pereira, o mestre da aula que presenciamos, sublinhando as alterações de comportamento e de atitudes. Referiu-nos que o João possui "níveis de actividade muito altos, elevando-se para patamares difíceis de controlar se não actuarmos no momento".

"Através da utilização do cão", refere este professor, "ele pensa que é uma brincadeira, fica bem-disposto e, sem que ele se aperceba, estamos a trabalhar a parte em que ele é mais deficitário - a hiperactividade, o comportamento, a ansiedade - e se atinge este patamar, "é difícil de controlar e não aprende nada, revelando aprendizagens quase nulas".

"O que eu noto no João", completa Nelson Pereira, "é que está muito mais aberto à aprendizagem, mais calmo e sossegado e o que corre bem aqui, é transportado para o dia-a-dia do aluno", prossegue este professor, completando que ele até nem apreciava muito os cães, mas, "agora, até já tem um em casa".

Manuela Fão acrescentou ainda que que a partir do momento em que o João começou a ter contacto com o cão, "ganhou mais responsabilidades, passando a haver horas, obrigações, cuidados e atenção a ter com o animal, o que ajuda a crescer", naturalmente.

"É um ás nos Simpsons"

No decorrer da actividade desenvolvida nessa aula, foi notória a apetência do aluno para uma série televisiva ("Os Simpsons"), que conhecia bem, a par da sua predilecção pelo Sporting, factos que contribuíram para que a aprendizagem se centrasse nesses pontos "mais lúdicos para ele", frisou Paulo Torres. A insistência em temas que não lhe são totalmente agradáveis e, portanto, "mais frágeis", não resultam nestas patologias, devendo-se mesclar ambas e, partir de então, "trabalhar os seus aspectos mais débeis", como será o caso da matemática.

A par destas aulas funcionais, este miúdo integra também uma turma, completou Nelson Pereira. Este técnico já trabalhou também com cavalos, mas reconhece as vantagens da utilização dos cães. Os cavalos revestem-se de um aspecto mais "sensorial", ao passo que com os cães, a "parte cognitiva" é muito mais trabalhada.

Os alunos com necessidades educativas especiais superam neste agrupamento a média nacional, frisou Manuela Fão, ao que não é alheio o facto de os jovens que se encontram na Casa Benjamim frequentarem este estabelecimento de ensino. Contudo, convém referir que dos 113 alunos referenciados pelas dificuldades na aprendizagem, apenas 10 podem ser incluídos neste grupo reduzido de disfuncionalidades.

"Receita" não é igual para todos

A vontade dos responsáveis por este projecto é prosseguir com a experiência, de acordo com as características particulares de cada caso, atendendo a que não se trata de uma "receita" a aplicar a todos, assinala Paulo Torres.

"Já fizemos por duas vezes a apresentação desta terapêutica educativa no Centro de Saúde de Caminha, com a presença de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e responsáveis pela Casa Benjamim, estando já prevista realizar idêntica acção no próprio Hospital de Viana do Castelo", explicou-nos a coordenadora de Educação Especial, embora admita que a nível do Ministério da Educação, esta situação ainda seja desconhecida, talvez por culpa própria, ao não terem procedido talvez a uma maior divulgação.

Interesse pela experiência alarga-se

A experiência de Caminha já é conhecida noutros pontos do distrito, como é caso de Monção, conforme referiu Nélson Pereira, pretendendo os professores do Ensino Especial desse município conversar com Paulo Torres a fim de estudar a possibilidade de fazer chegar até aí esta prática terapêutica.

Igualmente no decorrer do encontro mantido no Centro de Saúde de Caminha, uma educadora de Educação Especial de Intervenção Precoce considerou que seria "uma terapêutica muito adequada para os miúdos de idade inferior, por volta dos três anos, para a aquisição de mobilidade e marcha", deu conta Manuela Fão.

Estas práticas começam a revelar uma atenção especial do ensino universitário, como sucede em Santiago de Compostela, onde desde o ano passado está a ser dado um "master", exclusivamente para professores de Educação Especial no âmbito da intervenção educativa assistida por cães, recordou Paulo Torres.

Mas como é que surgiu esta terapêutica?

Paulo Torres explicou que os Lavradores, Goldens e Cavalier King Charles, são os exemplares com melhores características para estes tratamentos, iniciados por acaso nos anos 50, com um psicoterapeuta norte-americano - embora estes métodos já fossem utilizados na antiga Grécia, com antigos combatentes que faziam passeios a cavalo para combater o stress-pós-guerra.

Esse psicoterapeuta (Levingstone) possuía um cão, mas que não permitia que estivesse nas suas consultas, até que um dia, uma mãe com uma consulta marcada para o filho, apareceu no consultório antes da hora marcada, porque estava desesperada com mais umas das suas crises (retraimento muito forte), e o cão ainda se encontrava dentro da sala de consultas. A criança não comunicava com ninguém e estava prestes a ser internada, quando constataram que ela começou a falar com cão. Esse comportamento chamou a atenção do terapeuta, levando-o a fazer perguntas ao miúdo acerca do cão, e começando a obter respostas até então impossíveis de conseguir.

Foi desta forma acidental que esta terapia iniciou o seu percurso, pese embora pouco se tenha avançado, por falta de investigação científica, admite Paulo Torres.

Sem regulamentação

Alguns países (Bélgica, Holanda, Finlândia e sul de Itállia, p.e.) já possuem uma regulamentação desta actividade, por parte do Estado, o que ainda não sucede em Portugal, em que esta profissão ainda não é reconhecida, "o que tem trazido dificuldades", lamenta, e experimentalismos nada condizentes com uma base científica que se pretende.

Apoios para que este processo progrida no Agrupamento de Escolas, são pedidos pelos professores envolvidos.

Câmara apoiará

A Câmara de Caminha, através do vereador Rui Fernandes, responsável pelo pelouro da Educação, manifestou-nos o seu interesse em apoiar esta iniciativa, perante os resultados conseguidos com este aluno, de modo a alargar a intervenção em anos futuros, aguardando que o responsável pela associação ETHOS apresente uma proposta nesse sentido.


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