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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor

Direitos Humanos, Filosofia e Ciências Humanas

Abordar a Filosofia como uma "ciência" estruturada, sistematizada, sincrónica ou diacronicamente considerada, nos dias de hoje, é uma tarefa praticamente impossível e, ao longo dos séculos e dos milénios, a "mãe de todas as ciências", ela, a Filosofia, tem vindo a ser invocada, para o bem e para o mal, analisada, estruturada, debatida, rejeitada, aplaudida, contudo, o seu estatuto, não pode deixar de ser altamente valorizado, num mundo que tende a globalizar-se, que resvala para as tecnocracias desumanas, para o materialismo selvagem e insensível aos dramas da humanidade e pelo respeito dos mais elementares direitos humanos.

Nesta fase da minha vida etária, cívica, académica e profissional, cumpre-me, como eternamente aprendiz de filósofo, lançar um grito de "revolta pacífica" para a situação que os detratores dos valores humanos querem levar a Filosofia, procurando esvaziá-la dos seus conteúdos mais altruístas e vitais para a sociedade humana, desviá-la dos seus objetivos primordiais e mais nobres que, afinal, fundamentam, categoricamente, os mais importantes e imprescindíveis valores do homem, plasmados nos documentos internacionais sobre a problemática dos Direitos do Homem e do Cidadão. Reflita-se então sobre alguns pilares, entre outros, como a religião, o trabalho, e diversos valores sempre atuais, que considero necessários, para uma sociedade cada vez melhor para este novo século XXI:

a) Filosofia, enquanto ciência do pensamento estratégico sobre a situação do homem nas suas mais profundas interrogações: Quem somos? O que queremos? Para onde vamos? b) Educação, como caminho a percorrer, ao longo desta vida terrena e principal meio para o homem se perspetivar numa dimensão superior, enquanto ser dos seres naturais, concebido à imagem e semelhança do seu Criador? c) Direitos Humanos, como valores inquestionáveis, delimitadores de toda a praxis humana, na sua vertente relacional do homem para com o seu semelhante, mas também do homem para com a natureza animada, inanimada e divina? d) E a Ciência, o que nos pode dizer acerca da situação do homem face aos inúmeros, complexos e velhos problemas que afligem a humanidade? A positividade científica, como deve ela colocar-se ao serviço do bem, da virtude, da paz?

A cumplicidade e solidariedade que devem existir entre a Filosofia, a Ciência e a Educação para os Direitos Humanos, serão pois, nesta minha breve reflexão, o assunto que tentarei desenvolver de uma forma muito pessoal, recorrendo, naturalmente, a algumas ilustres personalidades da área filosófica e a uma outra obra, ou, a uma outra teoria, confessando-me, porém, desde já, que não sou um profundo apologista do acumular de teorias, sem a passagem à prática daquelas que possam, efetivamente, contribuir para a melhor formação do homem e da sua qualidade de vida, por isso, entendo que o filósofo deve ser mais interventivo na vida concreta, real, quotidiana, das pessoas, atuando no terreno, saindo um pouco mais das universidades e das bibliotecas, a partir das quais terá, certamente, uma nova importância e o estatuto da Filosofia e do filósofo, serão, seguramente valorizados, porque se trata de uma praxis milenar da sabedoria.

Para alguém se atrever a dar uma tentativa de definição de Filosofia, terá, no mínimo, de reunir várias qualidades/condições: sabedoria, prudência, experiência, maturidade e humildade. Reconheço que não congrego, na minha pessoa, todas aquelas faculdades (ou qualidades), todavia, não deixarei, como sempre tenho feito ao longo da vida, de recorrer às personagens que julgo poderem dar satisfação a tão antiga quanto profunda interrogação: O que é afinal a Filosofia? Eu não sei, mas, defendo que se trata de um saber, cada vez mais necessário e insubstituível para a resolução dos problemas e conflitos que atormentam a humanidade.

Sendo o objetivo deste trabalho refletir um pouco sobre o que é afinal a Filosofia, certamente, não cabe no seu âmbito académico e histórico, recuar muito no tempo, para inventariar as inúmeras e possíveis definições, todavia não resisto a transcrever algumas passagens, da idade moderna aos nossos dias, e nesta metodologia é importante destacar o que pensavam alguns responsáveis da época, começando primeiro por mencionar o Prof. Pinharanda Gomes, na apresentação que faz à obra de Silvestre Pinheiro Ferreira, (1769-1846) quando afirma:

"De verdade, uma nação só é autónoma e livre quando se garante a liberdade, a propriedade de pensamento e de movimento. Nenhuma ficção política ocultará a verdade da subserviência filosófica, se esta for tão real como tem sido, desde o século XVIII (no caso português). Ainda que possamos dispor de poder económico mundial, não seremos dignos, se não garantirmos, antes disso, a autonomia de uma própria e inalterável felicidade filosófica." (in FERREIRA, 1994:23).

Possivelmente, aceitaremos, sem grande contestação, que a Filosofia, desde sempre, há mais de 25 séculos, constitui uma dimensão fundamental e exclusiva do ser humano, e também é sabido que, principalmente a partir dos primeiros filósofos naturalistas, críticos, pré-socráticos, socráticos, platónicos, aristotélicos até aos dias de hoje, todos se vêm preocupando com aspetos que a ciência não abordara, ainda outros que não consegue explicar e, quem o poderá garantir, se alguma vez conseguirá de forma objetiva, rigorosa e provada, esclarecer-nos acerca das questões radicais, que desde sempre têm atormentado o homem.

A Filosofia poderá não nos esclarecer, globalmente, sobre tais informações mas, pelo menos, assume, incessantemente, a busca para uma explicação, recuando sempre, e em primeira abordagem, às causas mais remotas e transcendentais, mesmo continuando a ser acusada de nada resolver.

Se analisarmos o Manual de Filosofia do "Curso Elementar de Philosophia", segundo o programa oficial para o ensino nos Lyceus do Reino, em 1866, elaborado por António Ribeiro da Costa, começaremos por formular algumas interrogações sobre certas respostas afirmativas à época, podendo daqui resultar uma tentativa de definição de Filosofia. Então citemos o autor:

"Quem sou eu? Qual é a minha origem, e o porquê da minha existência? Onde está o meu fim, ou o para quê da minha existência? A Filosofia é a ciência que se ocupa de resolver estes três problemas; solução que é o ideal a que o homem aspira e do qual se aproxima incessantemente, sem poder jamais chegar à solução completa. Deste modo a Filosofia pode definir-se a ciência que procura expor a natureza, atributos e faculdades das substâncias espirituais, consideradas em si mesmas, e nas suas relações gerais com as outras substâncias." (COSTA, 1866:7).

Numa perspectiva mais global, mas específica e clássica, certamente que nos é possível avançar algumas ideias do que é e do que não é a Filosofia, porque se é difícil, se não mesmo impossível, defini-la, então tentaríamos a via de esclarecer aquilo que ela não é, deixando ao paciente leitor deste trabalho, a delicada tarefa de concluir, com toda a sua sabedoria, o que é, então, a Filosofia. Invocando MARÍAS, começaria por transcrever algumas passagens do seu pensamento: "Por Filosofia entenderam-se, principalmente, duas coisas: uma ciência e um modo de vida. (...) Ambas as dimensões são inseparáveis e, de facto, nunca apareceram totalmente desligadas. A Filosofia é um modo de vida, um modo essencial que, justamente, consiste em viver numa certa ciência e, portanto, a postula e exige. É portanto uma ciência que determina o sentido de vida filosófica. (...) Em Aristóteles a Filosofia é uma ciência rigorosa, a sabedoria ou o saber por excelência. A ciência das coisas enquanto são. (...) Depois de Aristóteles, a partir da morte de Alexandre e a seguir a todo o Império Romano, a Filosofia esvazia-se de conteúdo científico e vai-se convertendo, cada vez mais, num modo de vida, o do sábio sereno e imperturbável, que é o ideal humano da época. No criatrurismo com Santo Agostinho e S. Tomás a Filosofia mover-se-á entre uma ciência Teológica e uma ciência Filosófica. Na época Moderna, com Descartes, entende-se como uma ciência para a vida. Trata-se de viver, viver de certo modo aquilo que se faz e, sobretudo, aquilo que se deve fazer.

A Filosofia como um modo de vida que postula uma ciência. Kant vem falar-nos de um conceito escolar e de um conceito mundano de Filosofia: pelo primeiro, é um sistema de todos os conhecimentos filosóficos; pelo segundo, é a ciência tida como a relação com os fins essenciais da razão humana. (...) No nosso tempo e com Husserl a Filosofia é a ciência escrita e rigorosa; Dilthey a vincula essencialmente à vida humana e à história; Ortega com a ideia de razão vital torna a pôr de um modo radical o próprio núcleo da questão estabelecendo uma relação intrínseca e necessária entre o saber radical e a própria vida." (s.d., 24-25).

O vocábulo Filosofia, nos dias que correm, tem sido, aparentemente, banalizado, quando é utilizado de uma forma utilitarista, no sentido de dignificar, dar maior relevo, a uma certa postura social, profissional e institucional: "aquela pessoa tem uma Filosofia de vida excelente; aquele indivíduo tem uma ótima Filosofia de trabalho; o governo aprovou uma nova Filosofia para a saúde; os portugueses aderiram às Filosofias agrícolas comunitárias ou os brasileiros assumem-se com uma Filosofia de vida feliz em cada dia, etc.". Ora, invocar, a propósito de tudo e de nada, a Filosofia, para fundamentar e justificar determinados atos, isso constitui, afinal, um reconhecimento geral quanto à necessidade da sua existência; explicar, conceptualmente o que é a Filosofia, continua difícil e, uma vez mais, numa outra latitude - Brasil - trago à discussão, novas e atuais ideias.

Com efeito: "A Filosofia é saber pelo saber. Não sendo, pois, dirigida a nenhuma solução de ordem prática, ela é num certo sentido, o mais útil de todos os saberes. (...) Quando se examina a história das civilizações, até um passado muito recente, um aspecto que chama à atenção é o dinamismo das Sociedades Ocidentais...

A Sociedade Ocidental não só elabora as Teorias Físicas que resultaram da tecnologia moderna, mas também todas as grandes teorias no campo da biologia, da psicologia, da política, da economia, etc., que revolucionaram a visão tradicional sobre os homens e as suas instituições. Com seus méritos e desméritos, vantagens e desvantagens, todo esse dinamismo tem a ver com o tipo de pensamento desenvolvido no Ocidente, isto é, com a Filosofia. (...) Filosofia é saber de todas as coisas, é saber crítico. (...) A Filosofia é, justamente, a ciência com a qual não é possível ao mundo permanecer tal e qual." (REZENDE, 1997:15-16).

A imagem que normalmente nos chega desde os tempos remotos da antiguidade sobre o aspeto físico do filósofo (não da Filosofia) é a de um homem maduro, a caminho da velhice, com um semblante circunspecto, compenetrado, responsável.

Por outro lado, ainda hoje verificamos, em muitas comunidades portuguesas, a existência do "Conselho de Anciãos", (v.g. Concelho de Bragança) constituído por pessoas de idade avançada, imensas experiências vividas e conhecimentos tradicionais, com uma base filosófica muito acentuada, a denominada Filosofia Popular, da Vida, o bom senso. Estes "Conselhos de Anciãos" ou de "Sábios" como na antiga Grécia, resolvem muitos problemas comunitários, devido às experiências riquíssimas que, durante as suas longas vidas, têm vivenciado. Aliás, Deleuze, confirma-nos isto mesmo.

Provavelmente: "Talvez só tarde na vida se possa pôr a questão: O que é a Filosofia? Quando chega a velhice e a hora de falar concretamente. (...) Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude, mas, pelo contrário, uma liberdade soberana, uma necessidade pura em que se goza um momento de graça entre a vida e a morte e em que todas as peças da máquina se combinam para lançar em direcção ao futuro um traço que atravessa as idades." (DELEUZE e GUATTARI, 1992:9).

Contemporaneamente, e na perspectiva de alguns autores, concretamente, Deleuze, que agora estamos a analisar, verificamos que há um recuperar do vocábulo "amigo" para, a partir dele, chegarmos ao conceito de filósofo, como o que classicamente já se vinha defendendo: "Amigo da Sabedoria", evoluindo-se então para outros termos tais como amante, pretendente e rival. O filósofo terá então de ser o amigo do conceito, quando admitimos que a Filosofia é a disciplina que consiste em criar juízos, e assim o filósofo não só não deve aceitar os conceitos que lhe são dados.

Na verdade e quanto à necessidade dos conceitos: "É necessário que comecem por os fabricar, os criar, os formular e persuadam os homens a recorrer a eles... (...) Estamos pelo menos a ver aquilo que a Filosofia não é: não é contemplação, nem reflexão, embora possa ter julgado ser uma ou outra, devido à capacidade que qualquer disciplina tem em engendrar as suas próprias ilusões e de se esconder atrás de um nevoeiro que especialmente emite." (Ibid.:12-13).

Também nesta perspectiva, daquilo que a Filosofia não é, desenvolve-se a tese segundo a qual: a Filosofia não tem que se preocupar com os Universais na medida em que a Filosofia tem como primeiro princípio o de que os Universais não explicam nada, mas pelo contrário, têm de ser eles próprios explicados.

Importa: "Conhecer-se a si mesmo - aprender a pensar - fazer como se nada fosse evidente - espantar-se, "espantar-se por o ente ser um (…) estas e muitas outras determinações da Filosofia foram atitudes interessantes, embora cansativas a longo prazo, mas não constituem uma ocupação bem definida, uma actividade precisa, nem sequer de um ponto de vista pedagógico. Pode considerar-se decisiva, pelo contrário, esta definição de Filosofia: Conhecimento através de puros conceitos." (Ibid.:14).

A Filosofia Contemporânea, abordada por Deleuze, rompe com os conceitos clássicos utilizados na sua definição e desenvolve, pelo contrário, toda uma argumentação no sentido de atribuir à Filosofia a ciência, ou a disciplina de construir conceitos, até porque, de contrário, estaríamos perante um caos cerebral, ou seja, só conhecemos algo a partir da sua conceptualização e, neste jogo de construção de conceitos, o que desde logo verificamos é que todo o conceito, só o é com referência a um outro e, qualquer que seja o conceito, ele deve conter certas componentes as quais elas mesmas definem o conceito.

Ora: "Todo o conceito, remete para um problema, para problemas sem os quais não haverá sentido e que por sua vez só podem ser isolados ou compreendidos ao mesmo tempo que a sua solução... (...) em Filosofia só se criam conceitos em função de problemas que se julgam mal vistos ou colocados (pedagogia do conceito)... (...) Com efeito todo o conceito dado que tem um número finito de componentes vai entroncar noutros conceitos, compostos de maneira diferente, mas que constituem outros do mesmo plano, respondem a problemas concretos, participam de uma co-criação." (Ibid.:22-23).

A Teoria do Conceito em Deleuze, enquadra, portanto, uma nova conceptualização de Filosofia que se pode, agora, idealizar com o seguinte passo: "As proposições ou funções bastam à ciência, enquanto a Filosofia por seu lado, não tem necessidade de invocar um vivido que apenas daria uma vida fantasmática e extrínseca a conceitos secundários já se si exangues. O conceito filosófico não se refere ao vivido por compensação, mas consiste, pela sua própria criação em estabelecer um acontecimento que sobrevoe qualquer vivido. (...) A grandeza de uma Filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos a que os seus conceitos nos chamam ou que ela nos torna capazes de libertar em conceitos. (...) O conceito pertence à Filosofia e só a ela pertence." (Ibid.:35).

Até que ponto é que esta Teoria do Conceito como definição de Filosofia se pode, ou não, comparar à Teoria dos Paradigmas, para a ciência? Será uma análise para posterior discussão, no âmbito da Filosofia e da ciência contemporânea? Chegados a este ponto, um outro problema da transição dos séculos, XX para XXI, se nos coloca e que tem a ver com a possibilidade, ou não, de se estudar Filosofia? E pelo estudo da Filosofia chegaremos a alguma conclusão, sobre o que é a Filosofia? Ou sobre o que ela não é?

Há quem defenda que: "A Filosofia estuda-se como outra matéria qualquer, com algum esforço, algum prazer, alguma disciplina. A organização do estudo é fundamental para que os conhecimentos não aparecem dispersos, desligados uns dos outros e, sobretudo, de nós próprios. Só uma boa organização do estudo permite uma boa compreensão e assimilação do que pretendemos. (...) A Filosofia não tem o monopólio destas ou daquelas ideias, embora exista um modo filosófico de as expressar." (TAVARES e FERRO, 1983:25).

Temos visto, ao longo do presente trabalho, quão complexa é a Filosofia, face a outras áreas disciplinares, nomeadamente, se compararmos com as ciências exatas. De facto, a "máquina humana" é, ainda hoje, um labirinto de incógnitas, pese, embora, o esforço das várias ciências humanas, cada uma com o (s) seu (s) objeto (s) de estudo, à Filosofia, contudo, não é fácil determinar tal objeto, pelas seguintes causas:

"a) O seu objecto especial nas actividades humanas, entre as que são resultado tanto da arte como das da ciência, ou se se prefere, entre as artes e as ciências; b) A sua própria evolução histórica que a levou, e ainda continua a levar, algumas vezes a procurar a sua definição eliminando quanto não é ela, evolução que provoca periodicamente uma crise (real ou artificial, segundo o mal do tempo) da sua consciência autónoma; c) Uma discussão que já vem de longo tempo entre os filósofos no seu conjunto, e os especialistas das regras da acção humana, quer estes sejam filósofos ou não, mas em nome da moral (religiosa ou não) da política, ou de qualquer Teoria do Comportamento." (LEGRAND, 1983:176).

Por tudo o que fica analisado, não será difícil aceitar que o filósofo, ao contrário de outros intervenientes no processo humano, tem, e terá sempre, o seu trabalho dificultado e inacabado. Tradicionalmente, aliamos à noção de ciência o conceito de conhecimento e, nesta perspectiva, analisamos, também, as diversas maneiras de compreender o mundo destacando-se aqui os níveis clássicos: conhecimento espontâneo ou senso comum e o conhecimento científico, entendendo-se que este é uma vitória recente da humanidade, tendo surgido no século XVII com as Revoluções Copernicana e Galeliana.

Se é certo que no pensamento grego a Filosofia e a ciência integravam uma única árvore do saber, igualmente é verdade que já na idade Moderna a separação também se consumaria, buscando cada uma delas - Filosofia e Ciência - o seu percurso concreto, o seu método, o seu objetivo, aliás, a ciência moderna surge ao determinar um objetivo específico de investigação e ao adotar um método através do qual se controlará o conhecimento.

O recurso a métodos rigorosos possibilita que a ciência atinja um tipo de conhecimento sistemático, metodológico, preciso, objetivo e reversível, pelo qual se descobrem relações universais e necessárias entre os fenómenos, permitindo prever acontecimentos e atuar de forma mais eficaz.

A ciência tem um caráter geral, na medida em que as suas conclusões não valem exclusivamente para os casos observados, mas sim para todos os que se assemelham, daí que a grande preocupação do cientista resida na descoberta da regularidade, de tal forma que um determinado fenómeno, depois de observado, possa resultar num enunciado que será generalizado: uma lei científica.

A realidade, ou o mundo construído pela ciência, postula a objetividade, isto é, as conclusões podem ser verificadas por qualquer outro membro competente da comunidade científica. Está estabelecido que para ser objetiva, a ciência dispõe de uma linguagem rigorosa, de tal forma que os conceitos são definidos de maneira a evitar ambiguidades, insuficiências ou ambivalências, todavia, não estamos em condições de, por outro lado, podermos afirmar que ela, a ciência, é a única explicação da realidade e que, portanto, se trata de um conhecimento absolutamente certo e infalível, e isto porque: os paradigmas se sucedem, se destroem; as teorias, por vezes, são contraditórias e, se nos debruçarmos sobre as ciências humanas, então a dificuldade é ainda maior, porquanto a sua componente qualitativa não pode ser reduzida à mera quantidade, para além de resistir a certas técnicas de experimentação.

Ao delinear, idealmente, este trabalho, impus-me, a mim próprio, um determinado percurso, em obediência a uma das questões especiais no âmbito da Gnoseologia e da Ontologia, naturalmente numa postura em ordem a obter determinado resultado, precisamente, através do ser inigualável que é o homem e o acervo de conhecimentos que o caracteriza, ou seja, a Filosofia, a Política, a Religião, a Educação, a Formação, a Ciência e os Direitos Humanos, não me sendo possível, aqui e agora, analisar outras vertentes, eminentemente humanas, tais como o Trabalho, a Cultura e, mesmo ao nível da Ciência, preferirei as Ciências Humanas e Sociais, tema que procurarei desenvolver um pouco mais.

A apreciação dos factos humanos começou a suscitar a curiosidade dos cientistas da natureza no século XIX, exigindo-se, então, a autonomização das Ciências Humanas em relação ao pensamento filosófico, contudo, o estatuto da cientificidade que pretendem, vai ser-lhes muito difícil: não por força da oposição positivista; também por via dos métodos utilizados nas Ciências da Natureza; como ainda, naturalmente porque pretendem um método distinto de todos os outros; e, por fim, considerando a especificidade do seu objeto de estudo: fenómenos humanos muito complexos.

Várias são hoje as ciências humanas e Sociais, das quais e numa perspectiva histórico-sincrónica, referirei:

1) A Economia, que desde uma definição mercantilista, relações de troca entre indivíduos e países (séc. XVII); passando depois para um sistema económico em termos matemáticos, aplicada ao crescimento da população, numa fase seguinte (séc. XVIII); até se tornar mais rigorosa, com a precisão introduzida nos seus conceitos, e por se ter em conta a explicação científica do conjunto de fenómenos humanos económicos (séc. XIX); para, nos tempos correntes, se tornar uma ferramenta vital no desenvolvimento das sociedades, ao nível de vida das populações (séc. XX). Atualmente, já nesse século XXI, a economia está endeusada e faz-se girar tudo à sua volta, como se não houvesse mais vida para além dela, tornando-se os governos, empresas e indivíduos seus escravos;

2) A Sociologia é uma outra ciência humana, muito recente (séc., XIX), e que na perspectiva comteana, é uma ciência positiva porquanto procura analisar os factos sociais, as instituições, costumes, crenças coletivas. Os factos sociais, na óptica durkheimiana são coisas e como tal, susceptíveis de objetivar, contudo, devido às dificuldades de experimentação, recorre ao método estatístico;

3) A Psicologia é a ciência que mais direta e intimamente estuda o ser humano, que mais frequentemente se preocupa com a natureza do espírito humano, daí que ao falarmos em ciências humanas, a Psicologia é, por excelência, a ciência do homem na sua dimensão psíquica; estuda o psíquico do homem como um ser singular e diferente de todos os outros, (estando exposto a inúmeras variáveis externas), através do comportamento do mesmo, sendo este observável e, sentimentos e pensamentos visíveis ou ocultos.

Se quisermos invocar os conhecimentos acumulados, hoje ao nosso dispor, poderíamos recuar a Descartes, início do séc., XVII para justificarmos a importância da Psicologia, quando aquele filósofo já afirmava que o homem é composto por duas substâncias: uma de natureza espiritual, a substância pensante (a rés cogitans); outra de natureza material, a substância extensa (rés extensa), e só esta última pode ser objeto das Ciências da Natureza, ficando a substância pensante, lugar de liberdade, para a reflexão filosófica. Não desenvolverei aqui a história da Psicologia, nem os seus progressos, porquanto, mais tarde, refletirei sobre a importância da ciência em geral para a valorização, implementação e respeito pelos Direitos Humanos.

O Homem estava convencido que a ciência constituía a panaceia para todos os males; o método científico era, por excelência, o único que nos conduzia à realidade; as teorias positivistas e evolucionistas traduziam o expoente máximo do otimismo generalizado, que estimulava e rejubilava com a capacidade de transformação humana, no sentido de um mundo melhor; a educação, até então baseada na cultura humanista, é reformulada e procura a inclusão dos estudos científicos nos currículos escolares, todavia, ainda no séc. XIX, e já no séc. XX, algumas descobertas, provocam rudes golpes nas conceções clássicas, originando aquilo que alguns designam por crise da ciência moderna.

Ciência, Técnica e Filosofia constituem, portanto, um trinómio que deve ser inseparável, não se devendo tentar sobrevalorizar um, em detrimento dos outros, porque eles constituem, apenas, uma parte dos conhecimentos e práticas que caracterizam a Humanidade, sendo certo que enquanto assim não se proceder, o mundo não terá paz, as desigualdades entre as pessoas aumentarão, até ao dia em que uma esmagadora maioria de excluídos se revoltará e tomará conta dos destinos de todos.

Nesta perspectiva, é fundamental o respeito, cada vez mais responsável pelos Direitos Humanos, não só nas cartas e declarações de boas intenções, mas e principalmente em atos concretos e permanentes. Pedir a alguns dos mais altos responsáveis políticos, religiosos e outros detentores do poder, uma prática regular de bons exemplos a partir das instituições que chefiam, é um dos objetivos que este trabalho pretende alcançar, sem quaisquer acusações, ressentimentos ou polémicas que não conduzem aos resultados pretendidos.

Bibliografia

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix, (1992). O Que é a Filosofia. Trad. Margarida Barahuna e António Guerreiro. 1a ed. Lisboa: Editorial Presença.

FERREIRA, Silvestre Pinheiro (1994) Categorias de Aristóteles. Tradução de Silvestre Pinheiro Ferreira, apresentação e notas de Pinharanda Gomes, 3ª ed., Lisboa: Guimarães Editores.

LEGRAND, Gerard (dir.), (1983). Dicionário de Filosofia, Trad. De Armando J. Rodrigues e João Gama, Lisboa, Edições 70.

MARIAS, Julián, (s.d.). Historia de la Filosofía. Trad. de Alexandre Pinheiro Torres. São Paulo: S.A.

REZENDE, Antônio (Org), (1997). Curso de Filosofia para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação, 7a ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/SEF.

TAVARES, Manuel; FERRO, Mário, (1983). Guia do Estudante de Filosofia. 4a Ed. Lisboa: Editorial Presença.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


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