Em virtude de estarmos num período de grandes alterações climáticas a subida das águas do mar estão acentuar-se. No entanto, estes fenómenos naturais podem ser retardados ou acelerados pela intervenção humana.
Na costa portuguesa há mais de meio século que o homem ou por ignorância, negligencia ou mesmo para satisfazer os lobis, de "obras marítimas/portuarias", tem vindo acelerar esses fenómenos com uma série de obras que tornam as consequências irreversíveis,.
Quer na área, técnico/científica, grupos políticos e mesmo ambientais existem forças que defendem obras, que cada vez degradam mais o litoral português.
As barragens e extracções de areias reduziram a quantidade de sedimentos que atingiam o litoral para renovação do cordão dunar, sendo o mais grave as obras que têm sido executadas na orla costeira, com desenhos errados, dando muito dinheiro a ganhar às empresas de obras marítimas, com as construção de obras pesadas de engenharia costeira, as quais aceleram a erosão desviando as areias para zonas mais externas e profundas da plataforma continental.
Temos por exemplo temos a construção do molhe do porto de Aveiro, nos anos 1949/50, onde a norte do mesmo se estimava uma acumulação de areias de cerca de 8 x 105 m3/ano, enquanto a sul foram registados recuos da costa médios anuais de 8 m/ano. Tentando resolver esta situação construíram-se os esporões na Costa Nova, que, nos dois anos seguintes, induziram recuos da ordem dos 50 m (Dias, 1993).
Subindo a costa, temos o porto de Leixões, cujo esporão norte deu origem a uma redução de todo o cordão dunar para Sul, incluindo Espinho Cortegaça, Esmoriz etc., não satisfeitos mais recentemente fizeram um portinho na Aguda (que por sinal também costuma assorear, o qual originou a destruição total da praia da Granja, como não conseguiam travar o avanço do mar semearam com esporões o litoral entre a foz do Douro até Aveiro.
Para uma análise dos efeitos nefastos dos esporões basta deslocarem-se para o litoral a Sul de Viana do Castelo onde constatarão o que o esporão Norte do porto de Viana do Castelo causou. Também aqui o recuo do cordão dunar foi de tal gravidade, que originou a necessidade da construção de uma série de esporões.
Em Castelo do Neiva, como se tratava dum pequeno porto de mar construíram um esporão que deu origem à destruição do cordão dunar do topo Norte da área protegida do litoral de Esposende.
Podemos pois concluir que as ditas obras cujos esporões entram no mar, que dizem ser de "protecção costeira", além de indutoras de erosão, são extremamente dispendiosas para o erário público o que é tanto mais irónico se pensarmos que, na maior parte dos casos, estas se destinam a proteger interesses privados que, em termos de um correcto ordenamento, deveriam estar localizados mais para o interior e não mar dentro.
Quanto à duna dos Caldeirões no princípio do século passado, os responsáveis da CP, actualmente REFER, procuraram consolidar a duna, colocando na altura de execução da linha do caminho-de-ferro, umas sulipas (que por vezes estavam visíveis), para garantir segurança dessa via, já foram levadas para o mar.
Foi por isso que até 1962, a duna dos Caldeirões apresentava-se com uma dimensão que permitia todas as investidas do mar, intacta e sem problemas de erosões, conforme podemos ver na fotografia que se anexa
DUNA DOS CALDEIRÕES - DÉC.60
Para melhor entendermos o que se passou na duna dos caldeirões em Vila Praia de Âncora somos obrigados a recuar mais de 50 anos.
Na ultima metade do séc. passado foi construído o campo de futebol do Âncora Praia no topo Norte da Mata Nacional da Gelfa em, 28/12/63. A partir daí e devido a utilização da duna como acesso ao campo de futebol, o pisoteio excessivo que a duna teve de suportar, provocou a sua redução e a consequente fragilização com a "ajuda" da erosão eólica, sendo agravados gerando assim o desequilíbrio ecológico desta área, com a criação dos ditos corredores eólicos sendo agravado pela não obrigatoriedade da plantação do feno.
Durante perto de trinta anos a cota da crista da duna foi reduzindo, até que em 1990, após uma tempestade, o mar saltou a duna, e, arrastou uma quantidade significativa de areia, para o interior do leito do rio, no entanto não chegou a abrir o acesso para o mar, conforme é visível na foto aque se segue.
Em Maio de 1990 a JAP e a Câmara Municipal de Caminha autorizaram a extracção de areia na praia de V.P. de Ancora, com o objectivo da empresa extractiva recuperar a duna (coisa que nunca foi feita, por quem extraiu a areia). Quem ganhou e quanto foi, ninguém sabe, só sabemos que devido a essa exploração houve quatro crianças que estavam de férias em Vila Praia de Âncora, que morreram nos fundos originados por essas extracções.
Só em , 1994,o Ministério do ambiente através do Instituto de Conservação da Natureza e integrado na recuperação da Mata da Gelfa deu inicio à recuperação dessa duna.
Entretanto em 2000, foi apresentado o projecto do portinho de Vila Praia de Âncora, situação em que houve alguns técnicos que questionaram a sua localização bem como o seu desenho, devido a considerarem que iria trazer diversos problemas, quer à duna dos Caldeirões quer à praia de Vila Praia.
De facto, o Ministério não ligou aos alertas que esses técnicos apresentaram nem sequer se pronunciou sobre o assunto a não ser a comunidade europeia.
As obras do portinho avançaram, e os problemas na duna dos Caldeirões, começaram aparecer, dando razão aos técnicos que contestaram os estudos da análise do E.I.A., pois embora não tivesse sido do conhecimento geral houve vários pareceres que foram enviados para os responsáveis ambientais da altura.
Abordando a análise parece que ninguém se preocupou com os efeitos dinâmicos do mar. Possivelmente, agora também ninguém o fará, e aquela que foi uma das mais belas praias e uma das primeiras estancias balneares do País, vai ver o seu perfil desaparecer.
Assim:
1 -
Que iniciou o seu avanço com a alteração das correntes laterais e com a energia da ondulação, devido às alterações das correntes litorais, provocado pela execução do portinho de Vila Praia de Âncora.
2 -
Quem andou a monitorizar os efeitos que as obras do portinho estavam a provocar, é que tinha a noção do emagrecimento que o cordão dunar estava a sofrer.
Os efeitos dinâmicos na praia, associados aos outros factores da variação do nível do mar, deram origem à erosão daquela, que se foi acentuando, rebaixando a área da praia, começando a colocar em perigo todo o cordão dunar que devido à força marítima começou a demolir a duna.
3-
As ondas ao atingirem a base da duna sofreram os efeitos da rebentação, dando origem à derrocada da duna e de seguida á sua eliminação. Nesta fase formava-se a energia de ondulação, que se libertava, criando um sistema de correntes que começou a destruir o cordão dunar.
Foto: Abílio Azevedo
Perante o descrito e a análise enviada para o Ministério do Ambiente e para a comunidade económica europeia à treze anos atrás, a situação torna-se MUITO preocupante, embora continue afirmar que estas alterações demoram alguns anos a criar novos equilíbrios.
Espero que os intervenientes nestas situações não esquecessem que a Natureza não se vende, não entra em "negócios escuros", e não pactua com a ignorância.
Agora, a praia de Vila Praia de Âncora, a corda dunar da Gelfa e o mar vão coabitar com as asneiras realizadas pelo homem criando novos desenhos de toda aquela corda dunar.
Só podemos pois alertar aqueles que tem as suas moradias junto da margem do rio Âncora, a REFER e toda a zona baixa de Vila Praia de Âncora para os resultados futuros, que parecem ser bastante negativos.