A sociedade humana, presumivelmente, ao contrário de outras formas de agrupamento, rege-se, no seu funcionamento, articulada por um conjunto de normativos jurídicos, fundados no direito positivo, bem como regras sociais e hábitos, que resultam de usos, costumes e tradições, abrangidos pelo direito consuetudinário, onde pontificam atitudes, comportamentos e reações, sustentados por uma axiologia, relativamente estável, quanto a alguns dos valores que a compõem, mas também em função das personalidades individuais, em construção permanente, pelos métodos inerentes ao processo de socialização que, igualmente, nunca estará concluído.
Efetivamente, não há um modelo perfeito e acabado, muito menos existe o paradigma de uma sociedade ideal, eventualmente, nem as cidades-utópicas, concebidas por grandes pensadores como Platão e a sua Republica, S. Tomás de Aquino com a Cidade de Deus; Owen e o Falanstério; Saint-Simon com um projeto assente nas bases da ciência e da indústria, para conseguir uma sociedade sem classes e uma renovação ético-religiosa, apenas para invocar alguns e, finalmente, a Democracia atual em que vivem a maior parte das sociedades mundiais.
É certo que nem todos os valores, muitos deles transformados em direitos e deveres, são comuns à totalidade das populações, dos cerca de cento e noventa e cinco países que há no mundo porém, alguns daqueles valores, consensualmente interiorizados, como a saúde, a família, o trabalho, a educação, a paz, a felicidade, são pacificamente aceites, desejados e cumpridos: "Toda intervenção na realidade humano-social está eivada de valores. (…) Há certo consenso em se adoptar como valores: 1. O valor e a dignidade humana; 2. O bem-estar e a integridade do grupo; 3. O progresso e o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade; 4. A segurança do indivíduo e da sociedade." (FALCÃO 1979:15-16).
Naturalmente que tais valores se identificam mais com a intervenção social nas comunidades, grupos, famílias e pessoas individualmente consideradas, mas outros valores são, igualmente, importantes para o bem-estar geral das populações, designadamente, por exemplo, o desenvolvimento da qualidade de vida, a saúde, o emprego, a educação, a habitação, a própria religião, enfim, Deus.
Fomentar, praticar, consolidar e reatualizar os valores essenciais para a boa convivência humana, entre pessoas, famílias, grupos, comunidades e sociedades, para além de ser um dever de cidadania, em que cada indivíduo se deve empenhar profundamente é, também, uma obrigação ético-política dos titulares de cargos e funções dirigentes.
São eles que devem dar os primeiros e mais evidentes exemplos, porque na verdade, eles são líderes de uma determinada comunidade: cívica, política, religiosa, empresarial, desportiva ou de qualquer outra natureza. Seria incompreensível e inaceitável que um líder semeasse a discórdia, promovesse a formação de grupos e fações rivais, utilizasse métodos divisionistas, no seio de uma comunidade que, a partir do momento da eleição ou da nomeação, tem o mesmo chefe, devendo este assumir-se como o líder de toda a comunidade e não apenas da parte de quem o apoiou, num determinado processo democrático.
A estabilidade, qualquer que seja a abordagem e objetivos, salvo raríssimas e justificadas exceções, aqui entendida no seu conceito de harmonia, concórdia, respeito pelas opiniões e opções políticas, religiosas, profissionais e associativas de cada cidadão, é um valor a aprofundar, cultivar e conservar.
A compreensão e generosa análise das atitudes de cada pessoa, família, grupo ou comunidade, deve ser a linha de rumo que cada cidadão terá de seguir, embora a responsabilidade maior, até em termos ético-morais, caiba, justamente, a quem desempenha funções de liderança e executivas, com poderes para tomar decisões, que afetam, positiva ou negativamente, pessoas e/ou instituições.
Existem vários níveis no exercício do poder, dos quais se destacam os seguintes: família, Igreja, escola, político, militar, empresa, associativismo, entre outros, onde os respetivos dirigentes não podem falhar de forma intencional, reiterada, estruturada e consolidada, sob pena de estarem a prestar um péssimo serviço às comunidades que os elegeram ou nomearam para os respetivos cargos.
Tal como numa família, numa empresa ou numa religião, a estabilidade político-social, numa determinada comunidade local, é essencial para o bem-comum, para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, bem como para a segurança de pessoas e bens.
Pode-se pensar que: "No mundo corporativo, em que cada vez mais o trabalho em equipe é valorizado, devemos cultivar a capacidade de escutar e de manter um diálogo constante com o outro e com o mundo. Se observarmos bem, a falta de diálogo dá origem ao sujeito arrogante ('só eu sou bom'), egocêntrico (aquele que nega o outro) e chato (aquele que só consegue ver o seu próprio ponto de vista)" (CARVALHO, 2007:42).
No quadro das pequenas comunidades, como são a maioria das aldeias, vilas e concelhos portugueses, de facto não se compreendem quaisquer atitudes que visem lançar a discórdia, o debate estéril, o uso de argumentos ofensivos, o recurso à perseguição covarde e sem rosto, a ingerência na vida privada e outras 'técnicas' de tristes resultados e de má memória.
A vida física de cada ser humano é muito limitada no tempo, mas incomensuravelmente valiosa e, quanto mais não fosse, bastariam estas realidades, indesmentíveis, para que cada pessoa, cada família, cada grupo, utilizasse, de forma construtiva, inteligente e agradável, este pouco tempo que têm, de passagem por um mundo, que não pertence a nenhum mortal.
Só as obsessões, próprias da teimosia, do orgulho inflamado, da arrogância e da prepotência, é que possibilitam comportamentos tão desestabilizadores, quanto injustos e prejudiciais à tranquilidade, harmonia e paz sociais.
A estabilidade que conduz a uma determinada paz, equivalente ao marasmo ou à acomodação, obviamente que não interessa, na medida em que prejudica o desenvolvimento, a troca de conhecimentos, de experiências, de ideias e de opiniões. Uma estabilidade sem progresso, sem debate, sem democracia, seria própria de uma monopartidocracia qualquer.
Não é isso que se está a defender aqui mas, bem pelo contrário, uma estabilidade dinâmica, que se credibiliza pela evolução, isto é: cada meta alcançada e ganha, a favor da comunidade, deve ser consolidada; fixados os seus resultados, a partir dos quais se avança para novos objetivos; caminhando sempre para um valor-ideal, o da perfeição, conscientes, porém, que jamais será alcançado, embora, persistentemente buscado.
O confronto de ideias, a utilização recíproca de conhecimentos e experiências, sem o recurso a 'bodes expiatórios', aproveitando os erros do passado, para com eles se aprender ou, pelo menos, a não repeti-los e conjugando as sinergias de todas as pessoas e grupos de boa-vontade, parece uma boa estratégia para apaziguar ânimos mais exaltados, compreender as razões pelas quais certos factos aconteceram, em que determinadas pessoas e/ou grupos tiveram comportamentos diferentes dos esperados.
Nem sempre o que parece é e, em política, como em religião, entre quase todas as restantes atividades e como em tudo na vida, tal como se aplica à mulher de César: 'não basta parecer séria, é preciso ser', na circunstância, é necessário parecer e ser, por exemplo, correto.
No contexto da governação política, poucos valores são tão importantes como a estabilidade, não significando que seja este o único e o mais valorizado valor, numa hierarquia axiológica ou no quadro das referências ético-políticas. Em democracia é muito difícil governar, devido, justamente, à instabilidade provocada pela luta política pelo poder.
Os interventores políticos têm dificuldades em separar a dimensão pública da cidadania, da dimensão privada dos adversários, recorrendo, quantas vezes, acreditando-se que sem intencionalidade ofensiva, ao insulto, à ingerência na vida privada do concorrente, na família, na atividade profissional, tudo vasculhando para denegrir e eliminar o opositor político.
A estas práticas, normalmente, adiciona-se uma linguagem complexa, por demasiado técnica, por excessivamente ambígua e pela circularidade dos desenvolvimentos temáticos, vislumbrando-se, eventualmente, algumas técnicas 'tautológicas', um certo "cinzentismo" que nada afirma e nada nega, mas que poucos entendem.
A estabilidade social, no seio de uma comunidade, como são os aglomerados populacionais, da maior parte dos concelhos portugueses, consegue-se, portanto, a partir dos comportamentos modelares dos dirigentes, através de uma comunicabilidade assertiva, que se caracteriza, por uma: "Comunicação transparente, através da qual as pessoas expressam necessidades, pensamentos e sentimentos, de forma clara, honesta e direta, respeitando o direito dos outros. (…) A comunicação assertiva é o estilo que possibilita SER e PARECER, pois suas características estimulam uma comunicação transparente, honesta, objectiva e de mão dupla. A pessoa que adopta a comunicação assertiva consegue estabelecer as duas direcções que flexibilizam e dão equilíbrio à sua relação com o outro: influenciar e ser influenciado." (MARTINS, 2005:16, 28, 48, 50).
A estratégia normalmente utilizada, por regimes prepotentes, passa pelo recurso a várias 'técnicas', como por exemplo: lançar a divisão entre os que se pretende governar; pelo obscurantismo e desinformação da população; pela hipocrisia envolvida em lamúria e tristeza, por situações conhecidas, entre outras.
Felizmente, a primeira e segunda décadas do novo século, têm vindo a revelarem-se propícias à eliminação de tais sistemas políticos, embora, ainda, sem resultados evidentes, sendo a Democracia, atualmente, um valor frágil, mas essencial ao exercício pleno da cidadania.
Hoje, pretende-se que se formem verdadeiros líderes, no sentido profundo da Democracia, da comunicação e do comportamento assertivos. É não só desejável como imperioso a prática do diálogo democrático-assertivo, de elevado nível e no respeito pela dignidade dos interlocutores, independentemente das suas posições.
Atualmente, desejam-se líderes com autoridade democrática. Adotando, pois, alguns princípios e valores de liderança assertiva, num contexto de sinceras relações humanas, é possível viver com estabilidade, até com amizade e simpatia, na medida em que: "As relações sociais são cruciais para o desenvolvimento do indivíduo. Um corolário é que apenas através da experiência de outras pessoas podemos aprender a fazer frente a outras pessoas e compreendê-las, e isto, evidentemente, pressupõe que permitamos às nossas mentes permanecer abertas e que estejam preparadas para reconsiderar nossos próprios pontos de vista, quando estes forem questionados por outros." (WILLIAMS, 1978:95).
A paz social proporcionada por uma estabilidade dinâmica, no conceito democrático-assertivo, deve constituir um dos primeiros objetivos a ser garantido, rapidamente alcançado e consolidado por qualquer líder, nas diferentes atividades sócio-profissionais, importando, aqui, a dimensão política.
No espaço físico-territorial dos municípios portugueses, obviamente que os Presidentes das Câmaras Municipais e os Presidentes das Juntas de Freguesia, politicamente considerados como as máximas autoridades civis locais, são os líderes que devem constituir-se em paradigmas dos valores genuinamente humanos, tais como: o respeito pelo seu concidadão; pela dignidade da pessoa humana; a tolerância, a solidariedade, a humildade democrática e tantos outros.
Os líderes locais devem simbolizar a autoridade democrática, a garantia da estabilidade social, os dinamizadores do trabalho em equipa, quaisquer que sejam as tarefas, com objetivos inequivocamente comunitários, os moderadores de conflitos, solucionadores dos problemas e das dificuldades, enfim, devem ser os garantes de uma genuína e insofismável paz social, num clima de liberdade, de empatia, de relações humanas assertivas, de sincera amizade, ajudando a construir uma comunidade de valores, verdadeiramente solidária e coesa.
A estabilidade dinâmica constitui a palavra-chave para o êxito dos líderes, quaisquer que sejam os níveis do poder que ocupam. A estabilidade pode conseguir-se pela: generosidade, humildade, compreensão, entre-ajuda, tolerância, consideração, estima e respeito pela pessoa humana. É impossível liderar-se e pretender-se a paz e coesão pela "força violenta das armas", considerando-se aqui como armas, por exemplo, o insulto, a humilhação, a perseguição e todos os métodos que violam os mais elementares direitos humanos.
Bibliografia
CARVALHO, Maria do Carmo Nacif de, (2007). Gestão de Pessoas. 2ª Reimpressão. Rio de Janeiro: Senac Nacional
FALCÃO, Maria do Carmo Brant de Carvalho (1979). Serviço Social. Uma nova Visão Teórica. 3ª Edição, revista. São Paulo: Cortez e Moraes.
MARTINS, Vera Lúcia Franco, (2005). Seja Assertivo - como ser direto, objetivo e fazer o que tem de ser feito: como construir relacionamentos saudáveis usando a assertividade. Rio de Janeiro: Elsevier
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark
TORRE, (1983). O Homem e a Sociedade. Uma Introdução à Sociologia. 11ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional
WILLIAMS, Michael, (1978). Relações Humanas. Trad. Augusto Reis. São Paulo: Atlas