Para alguém se atrever a dar uma tentativa de definição de Filosofia terá, no mínimo, de reunir várias qualidades/condições: sabedoria, experiência, maturidade e humildade. Reconhece-se que não se congregam nas pessoas todas aquelas faculdades (ou qualidades) todavia, não se deixará, como sempre se tem feito ao longo da vida, de recorrer às personagens que se julga poderem dar satisfação a tão antiga, quanto profunda interrogação: O que é afinal a Filosofia? Não se sabe, mas defende-se que se trata de um saber, cada vez mais necessário e insubstituível, no contributo que pode dar, na resolução dos problemas e conflitos que atormentam a humanidade.
Sendo o objectivo deste capítulo reflectir um pouco sobre o que é afinal a Filosofia, até porque ela está indissociavelmente ligada à educação, certamente, não cabe no seu âmbito académico e histórico, recuar no tempo, para inventariar as inúmeras e possíveis definições, todavia não se resiste a transcrever algumas passagens, da idade moderna aos dias de hoje.
Nesta metodologia será importante referir o que pensavam alguns responsáveis da época, começando primeiro por destacar Pinharanda Gomes, a propósito da apresentação que faz à obra de Silvestre Pinheiro Ferreira, quando afirma: "De verdade, uma nação só é autónoma e livre quando se garante a liberdade, a propriedade de pensamento e de movimento. Nenhuma ficção política ocultará a verdade da subserviência filosófica, se esta for tão real como tem sido, desde o século XVIII (no caso português). Ainda que possamos dispor de poder económico mundial, não seremos dignos, se não garantirmos, antes disso, a autonomia de uma própria e inalterável felicidade filosófica." (1977: 239)
Possivelmente, aceita-se sem grande contestação que a Filosofia, desde há mais de vinte e cinco séculos, constitui uma dimensão fundamental e exclusiva do ser humano, como também é sabido que, principalmente a partir dos primeiros filósofos naturalistas, críticos, pré-socráticos, socráticos, platónicos, aristotélicos até aos dias de hoje, todos se têm preocupado com aspectos que a ciência não abordara e outros que ainda não foi capaz de explicar e, quem o poderá garantir, se alguma vez conseguirá e de forma objectiva, rigorosa e comprovada, esclarecer acerca das questões radicais que desde sempre têm atormentado o homem.
A Filosofia poderá não dizer nada sobre tais interrogações mas, pelo menos, assume incessantemente a busca para uma explicação, recuando sempre e em primeira abordagem às causas mais remotas e transcendentais, mesmo continuando a ser acusada de nada resolver:
"Quem sou eu? Qual é a minha origem, e o porquê da minha existência? Onde está o meu fim, ou o para quê da minha existência? A Filosofia é a ciência que se ocupa de resolver estes três problemas; solução que é o ideal a que o homem aspira e do qual se aproxima incessantemente, sem poder jamais chegar à solução completa. Deste modo a Filosofia pode definir-se a ciência que procura expor a natureza, atributos e faculdades das substâncias espirituais, consideradas em si mesmas, e nas suas relações gerais com as outras substâncias." (COSTA, 1866: 7)
Numa perspectiva mais global mas específica e clássica, certamente que é possível avançar algumas ideias do que é e do que não é a Filosofia, porque se é difícil, senão mesmo impossível defini-la, então tenta-se a via de esclarecer aquilo que ela não é, deixando ao paciente leitor deste trabalho, a difícil tarefa de concluir, com toda a sua sabedoria, o que é, então, a Filosofia. Invocando Julian Marías, transcrevem-se alguns passos do seu pensamento: "Por Filosofia entenderam-se, principalmente, duas coisas: uma ciência e um modo de vida. (...) Ambas as dimensões são inseparáveis e, de facto, nunca apareceram totalmente desligadas. A Filosofia é um modo de vida, um modo essencial que, justamente, consiste em viver numa certa ciência e, portanto, a postula e exige. É portanto uma ciência que determina o sentido de vida filosófica." (s.d. 24-5)
O vocábulo Filosofia, nos dias que correm, tem sido, diversificadamente, utilizado de uma forma utilitarista, no sentido de dignificar, dar maior relevo, a uma certa postura social, profissional e institucional: aquela pessoa tem uma filosofia de vida excelente; aquele indivíduo tem uma óptima filosofia de trabalho; o governo aprovou uma nova filosofia para a saúde; os portugueses aderiram às filosofias agrícolas comunitárias ou os brasileiros assumem-se com uma filosofia de vida feliz em cada dia. Invocar-se, tão frequentemente, a filosofia para fundamentar e justificar determinados actos, isso constitui um reconhecimento geral quanto à necessidade da sua existência, mas explicar, conceptualmente o que é a Filosofia, continua difícil e, uma vez mais, numa outra latitude - Brasil - trazem-se à discussão, novas e actuais ideias:
"A Filosofia é saber pelo saber. Não sendo, pois, dirigida a nenhuma solução de ordem prática, ela é num certo sentido, o mais útil de todos os saberes. (...) Quando se examina a história das civilizações, até um passado muito recente, um aspecto que chama à atenção é o dinamismo das Sociedades Ocidentais (...). Com seus méritos e desméritos, vantagens e desvantagens, todo esse dinamismo tem a ver com o tipo de pensamento desenvolvido no Ocidente, isto é, com a Filosofia. (...) A Filosofia é saber de todas as coisas, é saber crítico. (...) A Filosofia é, justamente, a ciência com a qual não é possível ao mundo permanecer tal e qual." (REZENDE, 1997: 15-16)
A imagem que normalmente chega desde os tempos remotos da antiguidade sobre o aspecto físico do filósofo (não da Filosofia) é a de um homem maduro, a caminho da velhice e um semblante circunspecto, compenetrado e responsável. Por outro lado, ainda hoje se verifica, em muitas comunidades portuguesas, a existência do "Conselho de Anciãos", constituído por pessoas de idade avançada, imensas experiências vividas e conhecimentos tradicionais, com uma base filosófica muito acentuada, a denominada "Filosofia Popular", o bom-senso.
Estes "Conselhos de Anciãos" ou de "sábios" como na antiga Grécia, resolvem muitos problemas comunitários, devido às experiências riquíssimas que durante as suas longas vidas têm vivido: " Talvez só tarde na vida se possa pôr a questão: O que é a Filosofia? (...) Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude, mas, pelo contrário, uma liberdade soberana, uma necessidade pura em que se goza um momento de graça entre a vida e a morte e em que todas as peças da máquina se combinam para lançar em direcção ao futuro um traço que atravessa as idades." (DELEUZE & GUATTARI, 1992: 9)
Contemporaneamente e na perspectiva de alguns autores, concretamente Deleuze que agora se analisa, verifica-se que há um recuperar do vocábulo "amigo" para a partir dele se chegar ao conceito de filósofo, como o que classicamente já se vinha defendendo: "Amigo da Sabedoria", evoluindo-se então para outros termos, tais como: amante, pretendente e rival.
O filósofo terá então de ser o amigo do conceito quando se admite que a Filosofia é a disciplina que consiste em criar conceitos e assim o filósofo não só não deve aceitar os conceitos que lhe são dados, mas também: "É necessário que comecem por os fabricar, os criar, os formular e persuadam os homens a recorrer a eles... (...) Estamos pelo menos a ver aquilo que a Filosofia não é: não é contemplação, nem reflexão, embora possa ter julgado ser uma ou outra, devido à capacidade que qualquer disciplina tem em engendrar as suas próprias ilusões e de se esconder atrás de um nevoeiro que especialmente emite" (IBID: 12)
Também nesta perspectiva, ou seja, daquilo que a Filosofia não é, desenvolve-se a tese segundo a qual: a Filosofia não tem que se preocupar com os Universais na medida em que a Filosofia tem como primeiro princípio o de que os Universais não explicam nada, mas pelo contrário, têm de ser, eles próprios, explicados:
"Conhecer-se a si mesmo - aprender a pensar - fazer como se nada fosse evidente -espantar-se, "espantar-se por o ente ser um..." estas e muitas outras determinações da Filosofia foram atitudes interessantes, embora cansativas a longo prazo, mas não constituem uma ocupação bem definida, uma actividade precisa, nem sequer de um ponto de vista pedagógico. Pode considerar-se decisiva, pelo contrário, esta definição de Filosofia: Conhecimento através de puros conceitos." (IBID: 14)
A Filosofia Contemporânea abordada por Deleuze, rompe com os conceitos clássicos utilizados na sua definição e desenvolve toda uma argumentação no sentido de atribuir à Filosofia a ciência, ou a disciplina de construir conceitos, até porque de contrário estar-se-ia perante um caos cerebral, ou seja, só se conhece algo a partir da sua conceptualização e neste jogo de construção de conceitos, o que se verifica é que todo o conceito, só o é com referência a um outro.
Qualquer que seja o conceito, ele deve conter componentes, as quais, elas mesmas, o define: "O conceito filosófico não se refere ao vivido por compensação, mas consiste, pela sua própria criação em estabelecer um acontecimento que sobrevoe qualquer vivido. (...) A grandeza de uma Filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos a que os seus conceitos nos chamam ou que ela nos torna capazes de libertar em conceitos. (...) O conceito pertence à Filosofia e só a ela pertence." (IBID: 35)
Até que ponto é que esta teoria do conceito filosófico se pode, ou não, comparar à teoria dos paradigmas da ciência? Chegados a este ponto, um outro problema relativo à transição dos séculos XX para XXI, se coloca e que tem a ver com a possibilidade, ou não, de se estudar Filosofia? E pelo estudo da Filosofia é possível chegar a alguma conclusão sobre o que é a Filosofia? Há quem defenda que:
"A Filosofia estuda-se como outra matéria qualquer, com algum esforço, algum prazer, alguma disciplina. A organização do estudo é fundamental para que os conhecimentos não apareçam dispersos, desligados uns dos outros e, sobretudo, de nós próprios. Só uma boa organização do estudo permite uma boa compreensão e assimilação do que pretendemos. (...) A Filosofia não tem o monopólio destas ou daquelas ideias, embora exista um modo filosófico de as expressar." (TAVARES & FERRO, 1983: 25)
Tem-se analisado ao longo do presente capítulo quão complexa é a Filosofia face a outras áreas disciplinares, nomeadamente, se comparada com as ciências exactas. De facto, a "máquina humana" é um labirinto de incógnitas, apesar do esforço das várias ciências humanas, cada uma com o (s) seu (s) objecto (s) de estudo.
À Filosofia não é fácil determinar tal objecto, pelas seguintes causas: "1) O seu objecto especial nas actividades humanas, entre as que são resultado tanto da arte como das da ciência, ou se se prefere, entre as artes e as ciências; 2) Uma discussão que já vem de longo tempo entre os filósofos no seu conjunto, e os especialistas das regras da acção humana, quer estes sejam filósofos ou não, mas em nome da moral (religiosa ou não) da política, ou de qualquer Teoria do Comportamento." (LEGRAND, 1983: 176)
Por tudo o que fica analisado, não será difícil aceitar que o filósofo, ao contrário de outros intervenientes no processo humano, tem e terá sempre o seu trabalho dificultado e inacabado. Correlativamente e por maioria de razão porque os métodos e estratégias de estudo recaem sobre a pessoa, idênticas dificuldades encontram as Ciências da Educação.
O objecto de estudo de qualquer domínio do conhecimento torna-se bem mais complexo quando incide ou interfere com a pessoa, por isso é fundamental reflectir na educação a partir de uma base filosófico-pedagógica e o estudo não ficaria equilibrado sem esta preocupação do investigador. As Filosofia, tal como a Educação, estão predestinadas a caminharem em total sintonia e com interesses afins: formar para a vida o homem integral - pessoa e técnico; construtor de ideais e de objectos materiais; produtor e consumidor de uma existência compatível com a sua própria grandeza, enquanto ser único, indivisível, inigualável e irrepetível. O homem à semelhança do seu Deus-Criador.
Bibliografia
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BARTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2009). Filosofia Social e Política, Especialização: Cidadania Luso-Brasileira, Direitos Humanos e Relações Interpessoais, Tese de Doutoramento, Bahia/Brasil: FATECTA - Faculdade Teológica e Cultural da Bahia.
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REZENDE, Antônio (Org), (1997). Curso de Filosofia para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação, 7a Ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/SEF.
TAVARES, Manuel; FERRO, Mário, (1983). Guia do Estudante de Filosofia. 4a Ed. Lisboa: Editorial Presença.