Jornal Digital Regional
Nº 591: 9/15 Jun 12
(Semanal - Sábados)






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Revive a Casa da Câmara

Prestes a completar dois séculos de existência, revive em Caminha a Casa da Câmara. Preterida como edifício-sede dos serviços políticos e administrativos municipais desde que em 2005 estes transitaram para o antigo Hospital da Misericórdia, ressurge agora para albergar no pavimento inferior a nova Loja de Turismo e, no piso superior, onde continuará a destacar-se o Salão Nobre, uma ampla sala capaz de receber com dignidade a Assembleia Municipal, entre outras dependências de exposição, reunião e representação.

Levantada em 1818, nas vésperas da revolução liberal, a construção da Casa da Câmara no pátio da Capela de São Sebastião (então encostada à Torre do Relógio, datada de 1622) simbolizou a afirmação do Terreiro — "Praça Municipal" (1869) antes de se chamar "Praça Conselheiro Silva Torres" (1891) — como o centro social, económico e político da vila da foz do Minho, substituindo nessas funções o Largo do Corpo da Guarda (hoje, certamente não por muito tempo, "Largo do Posto de Turismo"). Neste último estava o velho Paço do Concelho (atual Museu-Biblioteca), que manteve nesse início de oitocentos apenas as valências de Tribunal e Cadeia, perdendo para o novo e bem lançado edifício, de amplas janelas e três arcadas, os restantes serviços públicos. Para além da Câmara, aqui estiveram concentrados em períodos diversos dos séculos XIX e XX, a Administração do Concelho, a Repartição de Finanças e a Tesouraria, a Conservatória do Registo Predial e o Notariado, a primeira Biblioteca Municipal (numa pequena sala) e até a estação telegráfica entre 1858 e 1883 — o telégrafo foi instalado em Caminha apenas três anos depois de ter chegado a Portugal.

Naturalmente, este valioso imóvel municipal sofreu variadas e significativas transformações ao longo do tempo.
Durante o liberalismo monárquico, fizeram-se obras de algum vulto nos mandatos de José de Oliveira Torres (Barão de S.Roque) em 1853, e de Álvaro Abílio de Sousa Rego, em 1858-1859, quando os serviços foram alargados para a Capela de São Sebastião, entretanto profanada em 1842. Na época republicana, em 1915-16, com Damião Lourenço Júnior na presidência da edilidade, promoveu-se a sua ampliação para o lado da Rua Direita — onde agora ficará a Loja de Turismo — à custa da expropriação de uma casa particular. Já no período da Ditadura Militar, em 1927, depois de uma bem sucedida negociação com a Câmara presidida pelo primeiro-tenente José Maria Claro Outeiro, aqui se instalou a primeira agência em Caminha da Caixa Geral de Depósitos.

No Estado Novo, no decorrer da extensa presidência de Francisco Dantas Carneiro, foram realizadas outras duas importantes reformas.
A primeira em 1939-1940, quando se fez o Salão Nobre cujo teto foi forrado com os caixotões do recém-demolido coro da Igreja Matriz, e depois a grande obra de 1954-1957, quando o arquitecto vilarmourense José Porto (1883-1965) conseguiu a proeza de prolongar as arcadas até à Torre do Relógio respeitando a traça original do edifício, enquanto do lado contrário uma pequena capelinha era desmantelada e o interior era modernizado com a valorização da escadaria da entrada, rasgando um átrio pleno de luz que se manteve até aos dias de hoje.

Neste início da segunda década do século XXI, a seis anos de perfazer dois séculos de vida, a Casa da Câmara revive pois como uma singular nota de otimismo em tempos de uma omnipresente crise da qual não se vislumbra saída e adquire condições para reassumir um importante papel público e patrimonial, dominando com a sua nobre fachada o Terreiro de Caminha. Graças a uma feliz obra municipal, pouco dispendiosa mas não com menor qualidade, feita com recurso aos bons ofícios e artes dos trabalhadores da autarquia. Respeitando e restaurando na sua integridade a traça original do histórico imóvel, na fachada exterior mas também nos seus interiores, em acentuado contraste, diga-se, com o infeliz sucedido no vizinho Solar dos Pitta Negrões ("Casa das Torres"), onde para se instalar um estabelecimento hoteleiro, recentemente inaugurado, se sacrificou de modo inglório todo o interior setecentista.

pntbento@mail.telepac.pt, 9 de Junho de 2012