Jornal Digital Regional
Nº 590: 2/8 Jun 12
(Semanal - Sábados)






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CIDADANIA

Abordar a Filosofia como uma "ciência" estruturada, sistematizada, sincrónica ou diacronicamente considerada, nos dias de hoje, é uma tarefa praticamente impossível e, ao longo dos séculos e dos milénios, a "mãe de todas as ciências", a "fonte da sabedoria" ou quaisquer outros qualificativos que se lhe queiram atribuir, tendo vindo a ser invocada, ela a Filosofia, para o bem e para o mal, analisada, estudada, debatida, rejeitada, aplaudida, contudo, o seu estatuto, não pode deixar de ser altamente valorizado, num mundo que tende a globalizar-se, que resvala para a tecnocracia, quantas vezes desumanizada, para o materialismo selvagem e insensível aos dramas do mundo e pelo respeito dos mais elementares direitos humanos e da educação para a cidadania. Não se pode ignorar o significado e o contributo que estes e outros domínios do conhecimento proporcionam para o exercício de uma cidadania democrática, dos quais se destacam:

Filosofia, enquanto "ciência do pensamento" acerca da situação do homem nas suas mais profundas interrogações: Quem somos? O que queremos? Para onde vamos?

Educação, como caminho a percorrer, ao longo desta vida terrena e principal meio para o homem se perspectivar numa dimensão absoluta, enquanto ser dos seres naturais, concebido à imagem e semelhança do seu criador?

Cidadania, entendida como responsabilidade pelos actos e omissões, consciência de deveres e de direitos, comunhão e partilha no êxito e no fracasso, impulso para a solidariedade e para a participação, insatisfação na injustiça e na discriminação, vontade de melhorar, disponibilidade para servir com espírito inovador, tolerante e firme?

Direitos Humanos, como valores inquestionáveis, delimitadores de toda a praxis humana, na sua vertente relacional do homem para com o seu semelhante, mas também do homem para com a natureza animada, inanimada e divina?

Ciência, o que pode dizer acerca da situação do homem face aos inúmeros, complexos e velhos problemas que afligem a humanidade? A positividade científica, como deve ela colocar-se ao serviço do bem, da virtude, da paz?

A cumplicidade e solidariedade que devem existir entre a Filosofia, a Ciência e a Educação para a Cidadania e os Direitos Humanos será nesta breve reflexão, o assunto que se tentará desenvolver de uma forma muito concreta, recorrendo, naturalmente, a algumas personalidades das áreas: filosófica e das ciências da educação; a uma ou outra obra, e a uma ou outra teoria, com a passagem à prática daquelas teses que possam, efectivamente, contribuir para a melhor formação do homem e da sua qualidade de vida, e por isso, entende-se que o filósofo e o educador devem ser mais interventivos na vida concreta, real e quotidiana das pessoas, actuando no terreno, saindo um pouco mais das universidades e das bibliotecas, a partir das quais terá uma nova importância e os estatutos da Filosofia e das Ciências da Educação serão, seguramente valorizados.

O cidadão de hoje não tem de ser, necessariamente, filósofo, educador, cientista, médico, engenheiro, arquitecto, jurista ou possuir uma especialização para lhe serem reconhecidas capacidades para o exercício da cidadania porque a interiorização de valores, a aquisição de conhecimentos, a acumulação de experiências e a determinação em desenvolver, na prática, todas as potencialidades, contribuem para uma intervenção cívica mais responsável, mais eficaz e mais credível.

Nesse sentido se defende ser fundamental para este novo cidadão, disponibilidade para algumas áreas disciplinares, com destaque para a filosofia e para as ciências da educação, com o objectivo de transmitir aos seus concidadãos as vantagens que a reflexão e o conhecimento podem trazer para a vida diária da sociedade.

O paradigma do cidadão informado e formado está, entre outros possíveis, no autor de referência. Com efeito, quem (ao tempo: em pleno período iluminista, no confronto entre liberalismo e absolutismo, no avanço da ciência e do conhecimento empírico) como Silvestre Ferreira, revelou capacidades multidisciplinares, disponibilidade de serviço público, envolvimento pessoal e aplicação de conhecimentos e experiências adquiridas?

A sensibilidade filosófica para discutir as questões mais prementes da sociedade constitui para o cidadão uma mais-valia que não se pode recusar porque: sem um pensamento estruturado, sem discussão e busca de soluções democráticas, não é possível caminhar para um mundo mais equitativo.

Filosofia e Ciência estão no homem como que as vias do conhecimento, para a construção de uma vida verdadeiramente humana e que o cidadão não pode ignorar, sob pena de não concretizar objectivos essenciais à vida em sociedade. Estas perspectivas do conhecimento que, convém ter em conta uma outra dimensão ou nível, desde há muito denominado de senso comum ou sabedoria popular, são as linhas delimitadoras da melhor ou pior intervenção humana, na medida em que: se a primeira reflecte, modera, opina, aconselha e influencia; a segunda, inova, cria, desenvolve, aplica e verifica os resultados objectivos das leis universais que vai formulando e colocando em prática, nestes dois níveis do conhecimento - Filosofia e Ciência (Ciências da Educação) - certamente que podem e devem ser moderados pela prática que resulta do senso comum e que ao longo dos séculos, desde as comunidades mais primitivas às economicamente mais desenvolvidas, tem-se revelado de grande importância na construção de certos inventos. No fundo, sempre que é possível imperar o bom-senso, as situações, eventualmente previsíveis pela Filosofia e pela Ciência, tornam-se mais controláveis e produzem efeitos mais consentâneos com a vida humana.

Filosofia e Ciência, constituem, assim, os dois grandes níveis do conhecimento humano, que em vez de se digladiarem se devem complementar, utilizando como fio condutor um outro nível clássico e milenar que é o senso-comum. O homem que é produtor e consumidor de cultura e de conhecimento, não pode isolar-se dos mundos: natural e sobrenatural mas, pelo contrário, deve alicerçar o seu desenvolvimento, a todos os níveis, na filosofia, na ciência e no senso-comum que, na verdade, conduzem, seguramente, a uma maior estabilidade da sociedade, nos seus vários aspectos, porque:

"Todos precisam de conhecer o mundo, tanto físico como moral, de que fazem parte, isto é, as leis gerais dos corpos, que compõem o Sistema do Mundo; e os deveres que cada um de nós, considerado como homem e como cidadão, tem para consigo mesmo, para com a sociedade, e para com o Ente Supremo, de quem havemos recebido a existência. Além disso, necessita cada um de conhecer, não somente a teórica e a prática, mas também a filosofia da ciência, que constitui a sua particular profissão. E muitos há que necessitam de saber comunicar com elegância, com graça e energia, e talvez com sublime estilo, verdades de que lhes cumpre persuadir aqueles, que os escutam." (FERREIRA, in PAIM, 1970: 32-33)

Este novo cidadão luso-brasileiro, cuja formação integral se está defendendo, porque se acredita na pertinência do tema, manter-se-á motivado para, ao longo da sua vida, e da intervenção que diariamente sentirá necessidade de efectuar na sociedade, aprofundar os seus conhecimentos gerais e específicos, num dado domínio, porque ao utilizar estas armas sentir-se-á mais seguro, mais credível e eficaz. Este cidadão não pode distanciar-se das pessoas quando pretende transmitir as suas ideias, posições e projectos. O que importa é aproximar-se pelas ideias semelhantes e convergentes, numa primeira fase para, posteriormente, expor e levar os seus concidadãos à adesão a projectos que são do interesse comum. Também aqui a ajuda que podem dar a filosofia e a ciência é fundamental para o bom êxito da intervenção social e comunitária.

"Mas a desprezada filosofia encontra-se, na verdade, nos pressupostos da ciência, já que a própria ciência não é capaz de investigar seus fundamentos. Cabe portanto à filosofia discutir a respeito dos conceitos que são usados, da validade dos métodos, do valor das conclusões, bem como da concepção de homem subjacente a cada ciência." (ARANHA & MARTINS, 1993:133)

O relacionamento interpessoal, assente numa linguagem correcta, compreensível e estimulante contribuirá para o avanço de projectos colectivos que visem a melhoria das condições de vida das populações. Neste sentido, a filosofia e a ciência da linguagem são disciplinas que o novo cidadão terá todo o interesse em cultivar, porque: "Quando nós falámos com alguém, somos mais ou menos entendidos, segundo as nossas expressões despertam na pessoa, a quem nos dirigimos, um número mais ou menos considerável de ideias semelhantes àquelas que queremos designar." (FERREIRA, 1839: 5)

A vinculação das ciências, em geral e das ciências sociais, em particular, à formação deste novo cidadão, constitui um imperativo universal, na medida em que o homem não se pode desligar do seu desígnio societário. O homem do século XXI tem a obrigação de comportar-se socialmente com os seus semelhantes, de forma a não só construir um novo mundo, compatível com a dignidade que é devida a toda a pessoa humana, como também a melhorar as condições de relacionamento entre cidadãos.

A formação do cidadão luso-brasileiro não pode abdicar do contributo das ciências sociais e humanas: sejam a antropologia, a história, a sociologia, a economia, a psicologia, o direito, destacando-se, porém, a filosofia da educação, enquanto motor da civilização e da cidadania democrática; como é inconcebível qualquer tipo de rejeição ou preconceito quanto às disciplinas filosóficas, sejam a ética, a axiologia, a estética, a epistemologia ou a filosofia geral, ou ainda, a conhecimentos mínimos no campo das ciências exactas.

Um cidadão com alguma polivalência por um lado, e uma especialização num determinado domínio do conhecimento científico, técnico e tecnológico por ouro lado, parece constitui uma boa base para a sua intervenção social. Um homem-cidadão culto, formado na cultura de concepção antropológica, poderá conduzir o mundo e a sociedade para um estádio superior porque:

"(…) O homem saiu das mãos do criador com o instinto da sociabilidade, e não só para viver no acanhado recinto da família onde viu primeiro a luz do dia, mas em sociedade e bom acordo com os outros homens, que nenhum é demais para que a cada um caiba a maior soma de bens de que, segundo nossas faculdade físicas e morais, podemos gozar sobre a terra. Este precioso instinto, esta viva necessidade que o dedo de Deus gravou no coração do homem, há sido a origem de um grande número de ciências sociais: umas tendentes a reprimirem os abusos das nossas paixões, e obstar a que elas perturbem a ordem pública; outras a revelarem o uso das nossas faculdades, quer úteis, quer agradáveis, para o fim de cooperarmos de comum acordo com o bem-estar do género humano em geral, e da nação a que cada um pertence em particular." (FERREIRA, in JUNQUEIRA, 1979: 101)

O cidadão para este novo século atingirá, com ajuda das instituições públicas e privadas, esta dimensão máxima que compreenderá uma estrutura filosófico-científica com a qual se posicionará neste mundo complexo, difícil, mas possível de ser melhorado, precisamente à imagem e semelhança do Deus Criador. Um novo cidadão de convicções, determinado a executar o projecto de unificação pacífica da humanidade.

É com tal desiderato que, em circunstância alguma, este cidadão luso-brasileiro pode prescindir do contributo da filosofia e das ciências, às quais deve recorrer ao longo da sua vida, pelo estudo, pela prática, pelo exemplo, qualquer que seja o seu denominado estatuto: social, político, económico, profissional, isto é, assente no único estatuto que é o da dignidade humana, sem o qual nenhum outro faz sentido.

Bibliografia
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria. Helena Pires, (1993). Filosofando: Introdução à Filosofia. 2a Ed. Revista e ampliada., São Paulo: Moderna.
BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2002). "Silvestre Pinheiro Ferreira: Paladino dos Direitos Humanos no Espaço Luso-Brasileiro" Dissertação de Mestrado, Braga: Universidade do Minho, Lisboa: Biblioteca Nacional, CDU: 1Ferreira, Silvestre Pinheiro (043), 342.7 (043). (Publicada em artigos, 2008, www.caminha2000.com in "Jornal Digital "Caminha2000 - link Tribuna");
BARTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2009). Filosofia Social e Política, Especialização: Cidadania Luso-Brasileira, Direitos Humanos e Relações Interpessoais, Tese de Doutoramento, Bahia/Brasil: FATECTA - Faculdade Teológica e Cultural da Bahia.
FERREIRA, Silvestre Pinheiro (1839) Noções Elementares de Philosophia Geral e Aplicada às Ciências Morais e Políticas: Ontologia, Psychologia, Ideologia. Paris: Rey et Gravier.
JUNQUEIRA, Celina (Dir.) (1979) Silvestre Pinheiro Ferreira, Ensaios Filosóficos, Metodologia, Ontologia, Psicologia, Ideologia. Vol. VI, Introdução Prof. António Paim. Rio de Janeiro: Editora Documentário. Pontifícia Universidade Católica: Conselho Federal de Cultura. Colecção Textos Didácticos do Pensamento Brasileiro.
PAIM, Antônio, (1970). Prelecções Filosóficas, "Silvestre Pinheiro Ferreira", Introdução. São Paulo: Editorial Grijalbo: 27ª. Prelecção.