Com Júlia Paula no Brasil, interrogado pela rádio local, Flamiano Martins garantiu que a Câmara de Caminha cumpriria a tradição e iria conceder este ano aos funcionários municipais a habitual tolerância de ponto, dispensando-os de serviço no dia de Carnaval. Regressada de Terras de Vera Cruz, Júlia Paula ignorou as declarações - publicadas na imprensa - do seu "vice" e mandou fazer um despacho, colocando a Câmara a meio "gás" na segunda e terça-feira. A atitude caiu mal, senão ao desautorizado, pelo menos entre os funcionários, que, de repente, perderam metade da tolerância de ponto e já não sabem em quem confiar.
A (in)tolerância de ponto por causa do Carnaval ainda dá que falar entre Governo e autarcas, mas em Caminha também se discute o dito por não dito e a desautorização de Flamiano Martins.
A nível nacional, a esmagadora maioria das câmaras ignorou as indicações de Passos Coelho. No entanto, o ministro Miguel Relvas já deixou claro que não gostou da atitude dos autarcas, sobretudo os do PSD, que desrespeitaram a decisão do Governo e deixaram os funcionários brincar ao Carnaval.
Esta semana mesmo, o ministro adjunto de Passos Coelho fez saber que no próximo ano também não haverá Carnaval para os funcionários públicos e pôs em risco a tolerância habitual na Páscoa. Também disse que isso é coerência e que não se deve andar a "saltitar" nesta matéria.
Caminha a "saltitar"
"Saltitar" parece precisamente a palavra adequada para qualificar a situação da Câmara de Caminha. Embora conste que, nas suas deslocações para o Brasil e outros destinos, Júlia Paula não dispensa informações sobre o que por cá se vai passando, parece que os assuntos de gestão corrente, ou pelo menos alguns deles, escapam aos telefonemas.
Isso foi o que se passou agora, precisamente com o Carnaval. A decisão de Passos Coelho apanhou Júlia Paula na América do Sul e a autarca não quis contrariar por inteiro o chefe do Governo. Preferiu desautorizar o seu vice-presidente e desfazer o já anunciado, deixando a imagem de Flamiano Martins, o putativo sucessor, um tanto descredibilizada, com um corte de 50 por cento que desapontou os funcionários.
É caso para dizer que, talvez por ser Carnaval, Flamiano Martins não tenha levado a mal.
Ministro não perdoa aos autarcas
Ao contrário do vice de Júlia Paula, o ministro não esconde que está mesmo zangado e não perdoa aos autarcas. Mostrando que não se conforma com a irreverência caranavalesca, o ministro Relvas deixou uma crítica muito directa aos autarcas, acusando-os de má gestão. "Há câmaras que devem milhões de euros a quem lhes fornece serviços e muitas dela deram tolerância de ponto", disse o ministro em entrevista na TVI24.
Acrescentou uma espécie de sentença: "O tempo é, nesta matéria, sempre um bom conselheiro e demonstrará quem sabe gerir a coisa pública e quem merece a confiança dos portugueses para gerir o interesse público."
A resposta já surgiu por parte de vários autarcas, inclusive de Fernando Ruas, o presidente da ANMP. Em declarações ao "Expresso", o "dinossauro" social-democrata disse que as citadas considerações do ministro sobre a tolerância de ponto são um provável e "pequeno lapso". Mas contra-atacou, dizendo que "quem levou o país ao caos foi a gestão da administração central".