Jornal Digital Regional
Nº 549: 23/29 Jul 11
(Semanal - Sábados)






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CIDADANIA

O comportamento cívico exigível ao indivíduo humano, numa sociedade em acelerada transformação, na qual a tentativa de nela se estabelecerem regras definitivas torna-se uma tarefa praticamente impossível e onde os diferentes padrões comportamentais não se conseguem estabilizar, deve passar por uma readaptação em função de múltiplas mentalidades para diversificadas situações, e os novos valores que emergem duma sociedade consumista por um lado e individualista por outro.

Uma educação para Saber-estar, em equilíbrio próprio e com os imensos interesses instalados, impõe-se que seja desenvolvida, o mais rapidamente possível, em todos os escalões etários. Saber-estar nos diversos contextos que se apresentam na vida quotidiana, seja no âmbito familiar, profissional, social, político, religioso ou qualquer outro, é um desafio à inteligência e capacidade de adaptação, de hábitos, de pensamento e de uma atitude correspondente a estas novas exigências.

Formar o cidadão de hoje para ele próprio Saber-estar, pressupõe uma pedagogia direccionada para a constante adaptação a situações, a valores, a técnicas, a novos conhecimentos, a uma vida quotidiana que se diferencia dia após dia, isto é, torna-se necessário um esforço sempre renovado na conceptualização da própria escola moderna, uma escola à medida das novas e complexas situações sociais.

Uma pedagogia da adaptação poderá ser a chave para este problema contemporâneo e, poucas dúvidas restam, quem não se adaptar aos tempos modernos, rapidamente será ultrapassado, ignorado e excluído. A importância do Saber-estar é crucial nesta fase da vida da humanidade, por isso, a sociedade em todos os seus elementos constituintes, com especial destaque para a Escola, tem de se adaptar ao novo mundo que está aí.

Apostar na escola, na educação e na formação, é a atitude correcta a estas novas realidades, que são irreversíveis, porque: "É mister realizar, segundo uma expressão corrente na linguagem dos modernos pedagogos, uma escola por medida, conciliando as necessidades sociais e as exigências individuais (…) só um conhecimento pormenorizado e preciso dos indivíduos, (…) poderá contribuir para os adaptar de forma conveniente ao meio em que terão de viver." (PLANCHARD, 1974:336)

Existe a concepção segundo a qual a escola tem por objectivos, não só transmitir conhecimentos, reproduzir a sociedade e preparar para a vida, mas também educar para a cidadania, formar e consolidar a personalidade para uma ética relacional entre pessoas humanas e instruir os cidadãos para a vida prática e compatível com valores e normas de conduta social. É nesse sentido que: "a escola deve estar adaptada à sociedade e visar a integração na sociedade. (…) Num mundo em incessante transformação como é o nosso, a escola tem de ser, não apenas o reflexo, mas também e sobretudo o projecto da sociedade." (GOMES, 1982: 9)

É fundamental Saber-estar na vida, não só na vida interior própria de cada um em particular, mas igualmente Saber-estar na vida pública social, esta compreendendo todas as variantes possíveis: política, religiosa, profissional, económica, entre outras. Tudo aponta para que a evolução da orientação escolar só possa ser encarada tendo em conta constantemente, e de maneira mais concreta, a inserção da Escola na sociedade, para assim melhor preparar o cidadão para a vida, no sentido de: por um lado, contribuir para a melhoria das condições físicas e materiais da população; por outro lado, saber enquadrar-se nos diversos contextos, sem dificuldades, retirando daí os melhores resultados sócio-morais, de plena satisfação e da mais elevada auto-estima.

Importa, nos actuais tempos difíceis que muito atormentam, estimular todos e cada um para uma atitude de auto-confiança, manifestando-se esta convicção, por comportamentos, actos, trabalho e estudo, no exercício das inúmeras tarefas que diariamente são realizadas. Elaborar e aplicar a receita certa para atingir tal objectivo não é desígnio do presente trabalho, mas é desejo inelutável contribuir para que cada um saiba-estar nos diversos papéis que ao longo da vida vai realizando.

Se cada um contribuir com a sua quota-parte e à medida das suas possibilidades e capacidades, seguramente que o futuro será bem melhor. A educação tem aqui uma função insubstituível que é a de preparar para o Saber-estar, pelo menos em alguns domínios cruciais da permanente intervenção na comunidade, porque: "A educação, dever da Família e do Estado, inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." (CARNEIRO, 1998: 30)

E ainda: " A educação promove o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista respeitador dos outros e das suas ideias (…) formando cidadãos capazes de julgarem com o espírito crítico e criativo no meio social em que se integram…" (LEI 46/86, Artº 12º nº 5., da ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA).

As exigências que a sociedade actual coloca ficam bem patentes nos objectivos propostos nos sistemas educativos do Brasil e de Portugal e, certamente, em todos os países democráticos e livres do mundo contemporâneo. Por isso, tão importante como saber-fazer, no sentido da produção de bens materiais, está o Saber-estar e o Saber-ser, conforme se tem vindo a analisar.

O Saber-estar, na perspectiva e valor da cidadania, é uma preocupação que todos os responsáveis devem ter bem presente, e jamais alguém poderá recear que o seu semelhante saiba mais do que ele próprio, e que se interroga a este respeito, porque na realidade: primeiro, a posse do conhecimento total é cada de vez mais inacessível; segundo, cada indivíduo tem o seu próprio conhecimento, a sua verdade, a sua razão e terceiro, todos os conhecimentos serão insuficientes se não houver capacidade e humildade para se reconhecer no concidadão iguais ou maiores méritos.

Desde há mais de cento e setenta anos que se entende que: "Felizmente os diversos ramos dos conhecimentos humanos são necessariamente ligados entre si, e o seu encruzamento maravilhosamente combinado permite às autoridades prescrever um plano de estudos primários tal que, sem ofensa da autoridade paterna, se apliquem os alunos àqueles estudos para que mostrarem capacidade." (FERREIRA, 1834b: 453)

E se no passado se defendia a complementaridade dos conhecimentos, hoje, mais do que nunca, se justifica uma despreconceituosa conjugação de esforços para todos se enriquecerem com as descobertas que cada um vai fazendo, com os contributos que cada um vai dando, para que ninguém seja ridicularizado, marginalizado e impedido de dar a sua participação no processo de formação dos novos cidadãos.

Comportamento de total abertura ao outro, de respeito pelos conhecimentos e experiências alheios, que constituem as formas inequívocas do Saber-estar nesta sociedade das tecnologias da informação e do conhecimento, considerando que este "... se faz pela formação de conceitos, que são verdadeiros enquanto adequados à realidade existente." ARANHA & MARTINS, 1993: 26)

Rejeitando-se qualquer posição de cepticismo radical e defendendo-se, na precariedade e incerteza, o conhecimento como suporte do desenvolvimento, do progresso em todos os seus aspectos, favoráveis à dignidade humana, pode-se aceitar que todas as iniciativas que visem a perfeição do Saber-estar do homem são tão desejáveis como necessárias à formação de uma sociedade mais tolerante e fraterna, sem utopias, mas com o sonho a comandá-la.

A alegada e tantas vezes auto-competência, de um ou outro técnico, cientista ou especialista de uma determinada parcela do conhecimento, integrado numa realidade mais vasta, não é suficiente para resolver os grandes e profundos conflitos sociais, raciais, culturais, políticos, religiosos e económicos que perturbam a humanidade deste novo século.

É indispensável que cada um saiba-estar nesta sociedade complexa, difícil, mas ainda com imensas possibilidades de realizar grandes feitos altruístas e humanitários, para seu próprio conforto e bem-estar. O maior optimismo funda-se nas mesmas e quase inesgotáveis capacidades da pessoa humana e é nesta que se deve acreditar e apostar. "Cidadania é um estado de espírito e uma postura permanente que levam pessoa a agirem, individualmente ou em grupo, com objetivos de defesa de direitos e de cumprimento de deveres civis, sociais e profissionais. (…) As ideologias que precisam ser desenvolvidas são as da participação democrática, do espírito de cidadania, do sentido de união e equipe, da ética, da solidariedade." (RESENDE, 2000:201-2)

Bibliografia

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria. Helena Pires, (1993). Filosofando: Introdução à Filosofia. 2a Ed. Revista e ampliada., São Paulo: Moderna.
BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2002). "Silvestre Pinheiro Ferreira: Paladino dos Direitos Humanos no Espaço Luso-Brasileiro" Dissertação de Mestrado, Braga: Universidade do Minho, Lisboa: Biblioteca Nacional, CDU: 1Ferreira, Silvestre Pinheiro (043), 342.7 (043). (Publicada em artigos, 2008, www.caminha2000.com in "Jornal Digital "Caminha2000 - link Tribuna"); (Exemplares nas: Universidade do Minho, ISPGaya; Bibliotecas Municipal do Porto e de Caminha; Brasil - Campinas SP: UNICAMP, PUC, METROCAM, UNIP; PUC, Municipal Prefeitura de Campinas)
BARTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2009). Filosofia Social e Política- Especialização: Cidadania Luso-Brasileira, Direitos Humanos e Relações Interpessoais, Tese de Doutoramento, Bahia/Brasil: FATECTA - Faculdade Teológica e Cultural da Bahia: (1. Curso Amparado pelo Decreto-lei 1051 de 21/10/1969. Exemplares em Portugal na Biblioteca Municipal de Caminha; Brasil: Bibliotecas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas-SP, Metrocamp - Universidade Metropolitana de Campinas-SP)
CARNEIRO, Moaci Alves, (1998) LDB Fácil, Leitura Critico-Compreensiva, artigo a artigo, 3ª Ed. Petrópolis: Vozes.
FERREIRA, Silvestre Pinheiro (1834b) Manual do Cidadão em um Governo Representativo. Vol I, Tomo II, Introdução António Paim (1998b) Brasília: Senado Federal.
GOMES, Joaquim Ferreira, (1982). História da Educação, Coimbra: Serviços Dactilográficos e Impressos de Hilário Teixeira.
LEI 46/86 14/10, (1986) Lei de Bases do Sistema Educativo Português, Lisboa: Assembleia da República Portuguesa/Imprensa Nacional Casa da Moeda, DR I série. Nº 237 de 14/10/86.
PLANCHARD, Emile, (1974). A Investigação em Pedagogia. Objecto-Métodos-Resultados, 4ª Ed., Coimbra: Arménio Amado, Editor, Suc.
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Venade - Caminha - email
http://diamantinobartolo.blogspot.com