Por feliz coincidência, cumprem-se em 2011 os 50 anos de edições do Ecos da Matriz e os 25 anos do falecimento do padre Passos Vaz. É pois a ocasião acertada para evocar brevemente a história deste boletim paroquial — apesar de criado em 1959 teve a sua publicação interrompida de 2000 a 2003 — e o importante papel desempenhado pelo seu fundador na vida caminhense ao longo das quase três décadas em que foi reitor da paróquia.
José Gonçalves de Passos Vaz nasceu em 12 de Fevereiro de 1919 em Viana do Castelo, aos doze anos de idade entrou para o Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, vindo a receber a ordenação sacerdotal em Julho de 1942. A primeira missa celebrou-a nesse mesmo mês em Monserrate, na sua cidade natal, onde permaneceu nos anos seguintes como prefeito de disciplina e professor no Seminário Menor e ainda como vigário cooperador da freguesia de Santa Maria Maior. Em 7 de Abril de 1947, substituindo o padre Manuel Fernandes de Couto Soares, o padre Passos Vaz assumiu o lugar de reitor de Caminha e Vilarelho pondo fim a uma certa instabilidade na direcção da paróquia — dez párocos entre 1911 e 1947 — a que não tinham sido alheios os sucessos da Primeira República e da Ditadura Militar. O mandato duradouro do padre Passos Vaz, que se prolongará até ao final de 1975, abrangeu pois a fase de consolidação do Estado Novo mas também o período mais difícil para a ditadura que se iniciou com a eleição presidencial de 1958, prosseguiu com a guerra colonial e culminaria com o 25 de Abril e a restauração da Liberdade e da Democracia.
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Correspondendo a esta ideia, o Ecos da Matriz teve a sua primeira edição em Maio de 1959, poucos meses passados do "furacão Delgado" que abalara as estruturas do regime a nível nacional e tinha, em Caminha, precipitado uma mudança política de todo imprevisível: a saída, em Março de 1959, de Francisco Dantas Carneiro da cadeira de Presidente da Câmara que ocupava desde 1931. No editorial de abertura do novo "Boletim da Família Paroquial da Vila de Caminha" escrevia o padre Passos Vaz : "modesto na apresentação e linhas, sem intuitos publicitários ou mercantis, traz consigo um grande sonho e vem servir um alevantado ideal. Sonha constituir o elo de união desta grande família paroquial — a freguesia da Nossa Senhora da Assunção da vila de Caminha — e levar a todos os lares a voz do altar... (...) a palavra de ordem, o anseio, a advertência amiga do seu Pastor". Satisfeito com a boa recepção que acolheu o mensário, logo na edição seguinte exultava: "Estamos contentes! Bendizemos o Senhor pela resolução final que nos levou a publicar este Boletim. Há muito com ele sonhávamos, longo tempo nele pensámos".
Tinha razões para estar contente o padre Passos Vaz. Apesar de pequeno em tamanho e da modéstia da apresentação, o Ecos da Matriz vinha preencher um imenso vazio na imprensa periódica do concelho que se mantinha desde Dezembro de 1927 quando saíra o derradeiro número de O Caminhense, o jornal de João dos Santos Gavinho (o João "da Clotilde"). Também por isso, sobretudo enquanto beneficiou da orientação do seu fundador, foi muito mais do que um simples boletim paroquial, ao alargar o seu âmbito ao noticiário profano local e ao incluir a colaboração regular de homens do jornalismo e da cultura. Foi o caso de José Martins, com a sua coluna "Feixe de Notícias", Baptista Barge, António Guerreiro Cepa — que aqui escreveu os seus primeiros textos em 1965, abrindo o caminho para a criação em 1971 de um outro O Caminhense —, José Maria Gavinho Pinto, Joaquim R. Silva e, merecendo um especial destaque, Manuel Raimundo Serra de Carvalho com a sua secção "Recordações dos Tempos Idos". Sempre muito próximo das posições do regime e da hierarquia da Igreja portuguesa — não esqueçamos que até 1974 foi sempre "visado pela comissão de censura" e que o padre Passos Vaz era o subdelegado da Mocidade Portuguesa na vila —, nem por isso o Ecos da Matriz desta época deixa de ser na actualidade uma fonte incontornável para o estudo da história local contemporânea.
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Curiosamente, quem de início fazia a distribuição porta a porta do Ecos da Matriz pelas ruas de Caminha e Vilarelho eram os alunos do Externato de Santa Rita, outra obra maior do padre Passos Vaz. Cumprindo a sua vocação de professor e preenchendo mais uma grave lacuna local, empreendeu no ano lectivo de 1951/52 a fundação deste colégio particular no edifício da Casa da Rocha, na Fonte da Vila, em Vilarelho. Até 1971, data da criação do Ciclo Preparatório público em Caminha — hoje, a EB 2,3/S de Caminha — seria o único estabelecimento de ensino secundário do município a par de uma escola particular situada na Quinta do Queiroz, em Vila Praia de Âncora, que depois daria origem ao Externato Nossa Senhora da Assunção, antecessor da actual Ancorensis. O Externato de Santa Rita, que o padre Passos Vaz dirigiu sozinho até 1965, quando deu sociedade a outros docentes, evitou que muitos jovens do concelho se vissem obrigados a rumar para Viana do Castelo ou Valença para prosseguirem os seus estudos, um contributo inestimável para a comunidade que não deve ser esquecido. Professor, jornalista, pároco antes de tudo, o padre José Gonçalves Passos Vaz permaneceu no seu posto em Caminha até 2 de Novembro de 1975 quando, por motivos de saúde, se retirou para a sua residência de Afife. Após doença prolongada, viria a falecer no dia 21 de Junho de 1986 no Hospital de Viana do Castelo.
O seu Ecos da Matriz, que tinha dirigido ao longo de dezasseis anos em que foram editados 201 números, tinha entretanto prosseguido em Abril de 1976 sob a batuta dos párocos que se foram sucedendo na reitoria de Caminha mas agora restrito ao noticiário religioso que os tempos eram outros. Os padres António de Oliveira Freire e José de Oliveira Freire repartiram a direcção até Outubro de 1982, no número 269, quando o primeiro dos irmãos ficou sozinho com a tarefa, período durante o qual o raio de acção do boletim se estendeu à freguesia de Argela (somente de 1980 a 1982). Com o número duplo 314/315, em Novembro/Dezembro de 1987, a direcção foi assumida pelo padre David Fernandes, sendo que em 1996, com o número 363, viu alargado o seu âmbito às comunidades de Cristelo, Moledo, Riba de Âncora, Vile e Vila Praia de Âncora. O público-alvo do Ecos da Matriz voltaria a ficar restrito às paróquias de Caminha e Vilarelho em Março de 2003, com o número 387, quando o padre Manuel Almeida e Sousa retomou a publicação depois de quase três anos de interregno desde Junho de 2000. Finalmente, em Outubro de 2009, com o número 708, o testemunho passou para as mãos do padre José Filipe de Sá, seu actual director, que manteria a ambiciosa periodicidade semanal iniciada pelo seu antecessor mas não deixou de inovar. Hoje, o Ecos da Matriz mantém-se no suporte tradicional em papel mas tem uma edição digital disponível na página da paróquia na Internet, marcando a entrada no mundo global da comunicação do mais antigo órgão de imprensa do concelho de Caminha em circulação.