Jornal Digital Regional
Nº 544: 18/24 Jun 11
(Semanal - Sábados)






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O Bloco faz hoje mais falta do que nunca!

Após uma década de avanços eleitorais consecutivos o Bloco sofreu nas últimas eleições a sua primeira grande derrota. O partido que mais acrescentou ao debate político português neste início do século vinte e um, vê a sua força parlamentar reduzida para metade.

O Bloco de Esquerda nasceu há 12 anos. Nasceu da convergências entre diferentes forças de pequenos partidos, movimentos e activistas independentes. Fez um caminho claro de juntar forças à esquerda até agora sob muitos aspectos exemplar. Abriu na sociedade portuguesa um espaço de intervenção social e politica inovador. Cresceu de importância no debate político ao ponto de marcar muitas vezes esse mesmo debate de forma decisiva. Cresceu no parlamento. De dois, nas primeiras legislativas em que participou, para três deputados em 2002, depois oito em 2005, e em 2009 dezasseis. Cresceu também em ligação aos movimentos sociais, levando para aí uma cultura de participação não "aparelhística".

O crescimento e a qualidade da sua intervenção pública deram-lhe cada vez maiores responsabilidades na sociedade portuguesa. Do protesto, das causas fracturantes e da defesa das minorias excluídas, temas nunca abandonados mas mais visíveis na acção política inicial, passou a um discurso mais abrangente organizado a partir das grandes questões económicas. Começaram a clarificar-se no debate público os vectores de um projecto global para transformar a sociedade. E apresentou-se a estas últimas legislativas com um programa estruturado para discutir a governação do país. Em defesa de soluções para ultrapassar a actual crise e reconstruir a economia sem destruir ainda mais a vida da grande maioria das pessoas. Houve saber e trabalho para construir um espaço de mudança possível, capaz de convergir com outras esquerdas para a sua concretização. Em defesa de uma sociedade mais solidária e mais justa! Mas os resultados eleitorais estão aí com toda a sua eloquência! O Bloco não conseguiu mobilizar a vontade dos portugueses nesse sentido. E agora?

Agora é necessário aprender tudo quanto possa ser aprendido e prosseguir. Mais forte ainda. Em convicções e em presença no confronto democrático. Porque o Bloco de Esquerda faz hoje mais falta do que nunca. Os próximos tempos porão muita gente e muitas teorias à prova. Os próximos tempos trarão muitas oportunidades para o Bloco se afirmar como um grande espaço organizativo de participação cívica e de mobilização para um projecto de liberdade e de socialismo.

Mas esta pesada derrota eleitoral trouxe consigo muitas pressões imediatas sobre a vida do Bloco. Algumas naturais e outras induzidas por aqueles que nunca perderiam uma oportunidade como esta para tentar ajustar contas com o Bloco e os seus principais rostos e vozes. Nem sempre é fácil, principalmente em circunstância como esta, distinguir umas das outras. Há demasiadas emoções à superfície que não facilitam o discernimento necessário nas pessoas mais envolvidas. É humano que assim seja!

Não vale a pena, por isso, perder muita energia com as naturais alegrias de muitos dos adversários do Bloco. Principalmente com aqueles que salivam com a expectativa do seu fim. O futuro vai desiludi-los. O Bloco perdeu apenas uma batalha. Muitas se seguirão.

Importa agora usar toda a energia para um debate sério sobre o actual momento do Bloco de Esquerda. Sobre o seu percurso desde o início. Sobre as escolhas estratégicas e tácticas dos últimos tempos. Sobre o papel que cada um desempenhou no activismo politico, em lugares de liderança ou até em estatutos notoriamente assumidos de crítica sistemática à orientação predominante. Ninguém se deve considerar intocável nestas análises. Mas não podemos, à semelhança de outros, procurar um bode expiatório para passar à frente, sem aprender o bastante com a experiência acumulada até aqui. Não podemos imolar um Francisco Louçã ou um Daniel Oliveira para aliviar tensões e seguir em frente até à próxima imolação. Também nisto o Bloco vai marcar a diferença. Estou convencido disso!

Carlos da Torre