No limiar da verdadeira crise que nos aguarda às portas de 2011 e se estenderá por tempo indeterminado e difícil de prever, os mesmos que nos trouxeram a esta situação e pediram sacrifícios ao povo em 2002, depois em 2005, pedem-nos para 2011 o impossível, sobretudo para as camadas sociais mais débeis e expostas às incertezas da oferta de emprego. Quem não deveria pagar, porque não foi responsável pelo descalabro nacional, é quem mais vai sentir na pele as inclemências da situação criada. Há muito que se perspectivava no país uma crise profunda de valores que, na esfera política, resultou numa má governação conjugada com situações crescentes de corrupção e incompetência a vários níveis seguidas de impunidade, que no despoletar da crise económica internacional mostrou as evidências da nossa fragilidade com o avolumar de uma crise económica, social e política sem precedentes.
Nesta perspectiva, procuram-se novos rumos para a nossa economia e soberania nacional. Depois de termos voltado as costas ao mar, apela-se de novo ao mar para inaugurar um novo ciclo de sucesso tal como no séc. XV. Começa a falar-se com insistência de economia do mar e de clusters marítimos - expressões revestidas de novidade - como desafios para o futuro de Portugal, reavivando-se, qual Fénix, a chama adormecida da nossa original vocação marítima.
E, acena-se com o deslumbramento de Portugal ter 18 vezes mais território marítimo ( Zona Económica Exclusiva ) do que terrestre, como se fosse a árvore das patacas do Brasil que basta abanar para caírem dos fecundos ramos e abunda só o trabalho de as recolher.
Porém, a economia do mar, neste momento, não passa de uma ideia, quiçá de um sonho. É que, para concretizar tão vasto projecto económico, é necessário investir em grande escala para obter sucesso. E, não estou a ver, no meio desta complexa crise, sem substrato para fazer cantar um cego, de onde virá o dinheiro para o financiar. Se o país está endividado até às orelhas e a perspectiva de ter-mos de pagar juros de dívida daqui até três gerações - vai sobrar para os nossos netos - quem nos vai apoiar financeiramente nesta aventura? Pensamento positivo, muito difícil mas consolador saber não ser de todo impossível. Aguardemos.
Uma das mais elementares infraestruturas para o êxito da economia do mar são os portos. Mas, tomando como exemplo o que aconteceu com as obras do Portinho de Vila Praia de Âncora, teremos à partida o insucesso garantido. Com efeito, esta obra representa tudo o que não pode acontecer: ela é o cúmulo da incompetência dos técnicos e institutos nela envolvidos, da sua irresponsabilidade, do desperdício dos dinheiros públicos e da impunidade dos seus autores. Uma desgraça gritante que clama por reparação e justiça. Mas, tanto a governação central como, particularmente, os deputados eleitos pelo círculo de Viana do Castelo, permanecem num silêncio assustador, de comprometimento com a situação que salta à vista de todos. Fingem ignorar, apesar da incontornável evidência à espera que, por exaustão e rendição ao facto consumado, ninguém mais se lembre de trazer a público tão espectacular desgraça.
Os erros de execução das obras tiveram origem nos estudos que fundamentaram o projecto, não tendo sido avaliados convenientemente e com rigor factores tais como:
a) Influência das correntes na enseada;
b) Morfologia dos fundos e batimétricas do lugar ( foram desperdiçados os melhores fundos como o Sabugo quase integralmente ocupado pelo molhe norte );
c) Direcção e volumes da deriva sedimentar com influência na erosão costeira;
d) Orientação ideal aconselhável dos molhes ( as chamadas de atenção dos pescadores na altura dos trabalhos foram ignoradas e, até ridicularizadas , diziam os técnicos que disso percebiam eles. Já se vê!)
e) Linha de enfiamento natural do porto ignorada. ( Foi a esmo).
Assim, o Portinho que foi projectado para servir a pesca e o turismo com duas marinas náuticas, não serve uma coisa nem outra.
O discurso do Secretário de Estado das Obras Públicas que em Agosto passado veio anunciar a adjudicação das obras de requalificação do Campo do Castelo iniciadas no início de Novembro teve, relativamente ao porto, uma referência mais poética do que concreta. Os responsáveis pela desgraça do portinho estavam lá, mas não se ouviu a crítica esperada, nem uma decisão a tomar sobre os erros grosseiros do projecto que em toda a linha constituem um completo desaire. Os erros estão à vista, ninguém duvida, mas ninguém faz nada para corrigir tão depressa como a situação exige.
Ninguém quer afectar ninguém e parece haver um pacto para que tudo seja ignorado e fique assim mesmo.
E, o Portinho continuará assoreado depois de quatro operações de desassoreamento já realizadas até à data e cada vez mais caras e continuarão até se lhe perder a conta, ou então o abandono total. Talvez arranjem mais um cais flutuante para embarracar e reduzir o espaço de manobra na bacia já de si bastante exígua, porque melhores ideias não há. O que existe, já está empenado pelo assoreamento. São correcções de fundo que se exigem e não paliativos que nada resolvem e só desmotivam.
É verdade que Portugal foi uma potência marítima e se desenvolveu quando se voltou para o mar, também num momento de crise nacional e Europeia: foi a gloriosa época dos Descobrimentos que nos projectou para a história universal. E, então, fomos realmente grandes. O fim da epopeia da pesca do bacalhau e a liquidação da nossa marinha mercante foi o canto do cisne da nossa presença no mar complementada com o notável abandono da pesca artesanal, um resíduo da pujança doutos tempos que, de longe, não satisfaz minimamente as nossas necessidades de consumo de peixe.
Com efeito, a ideia de Portugal como país de marinheiros não passa de um engano. É uma memória do passado. Assim reflectia com certa nostalgia e realismo o terranovense Whayne Ralfh, - oficial da força aérea Canadiana, quando visitou Portugal em Agosto de 2009: " Não encontrei em Portugal o mundo que conhecia através da Frota Branca. Há uma coisa que achei estranha: não vejo sinais do mar na vossa cultura, como se o mar tivesse deixado de interessar-vos. E não estou a falar das praias , que vi apinhadas de gente".
Está tudo dito sobre o país de marinheiros que somos actualmente: uma memória do passado que nos persegue, todavia.
Moralidade na administração pública, competência técnica, responsabilidade social são alguns factores a ter em conta para inverter o caos colectivo que ensombra o nosso presente e devir histórico.