JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000 JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000

Caminha

Rebelinho deu nome a praceta

Músico caminhense famoso do século XVII reconhecido na toponímia local

"O mais insigne compositor de solfa que no seu século teve a Europa", Paulo Bento

Desde o passado Sábado que a toponímia caminhense passou a incluir mais um nome de um dos seus filhos mais prestigiados.

Trata-se de João (Soares) Lourenço Rebelo, conhecido pelo Rebelinho, músico da corte de D. João IV, um rei melómano - e que também compôs - que o chamou para junto de si, por reconhecer a sua qualidade como compositor barroco, competência assumida pelos próprios meios culturais europeus dessa época (Rebelinho nasceu em princípios de 1600, em data não determinada - entre 1609 e 1610 -, e faleceu em 1661 ou 1662), que o consideravam um dos músicos mais consagrados de todo o continente.

Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho, aproveitou o momento do descerramento da placa toponímica nessa manhã, para agradecer à Camara Municipal ter aprovado a atribuição desse nome a um espaço que não possuía qualquer designação, tendo sido integrada esta cerimónia que "honra a nossa cultura e memória histórica", na comemoração dos 30 Anos da criação do Museu e Biblioteca municipais que decorreu durante o passado mês, sob a égide do pelouro da cultura da autarquia caminhense.

Lacuna preenchida

Parafraseando o historiador Paulo Torres Bento - que procedeu à apresentação bibliográfica do músico caminhense -, Miguel Gonçalves insistiu igualmente na existência de uma "lacuna" na toponímia da vila por não conter o nome desse "ilustre músico", a qual acaba de ser colmatada, após várias insistências nesse sentido, do historiador radicado em Caminha há mais de 30 anos

Foi assim encontrado um "espaço adequado", nesta praceta pequena, mas "grande na nossa memória e na nossa cultura", ao estar incluída no Museu e Biblioteca municipais e no miolo histórico da vila.

O presidente da Junta assinalou a sorte que teve por pertencer a uma geração que desfrutou deste conjunto de equipamentos, e que no passado albergavam a cadeia, o tribunal, e no seu logradouro os estaleiros camarários, quando não existia um espaço próprio para a leitura, restringida à carrinha itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tornar o Coto da Pena "visitável"

Após elogiar a aposta na Biblioteca e Museu, e o trabalho dos seus funcionários, o autarca aproveitou para avançar com um pedido ao presidente da Câmara presente no acto, no sentido de serem retomadas as escavações arqueológicas no castro do Coto da Pena, a exemplo do sucedido no início dos anos 80 do século passado, sob orientação dos arqueólogos Armando Coelho da Silva e António Baptista, cujo espólio se encontra depositado no Museu, e no imediato, proceder-se a uma limpeza das estruturas postas a descoberto e dos seus acessos, para que se torne num espaço "visitável", nomeadamente para a comunidade escolar.

"Hoje fazemos aqui história"

Este desafio ao Executivo foi aceite por Rui Lages, assinalando ainda que este não tinha sido "o único que me lança", prometendo "o devido enquadramento",.

Ao usar da palavra, Rui Lages destacou as celebrações dos 30 Anos destes dois equipamentos culturais, bem como a atribuição do nome de Rebelinho a esta praceta, assim como enalteceu o labor cultural do professor Paulo Bento que "estuda, pensa e lança desafios à Câmara Municipal e instituições públicas, tendo em atenção aquilo que foi o nosso legado, dos nossos antepassados, porque do passado se constrói o futuro".

Este autarca, em alusão ao nome atribuído à praceta, vincou que dessa forma "se fazia história, reavivando a do nosso país e do nosso concelho", porque, "a toponímia, além da função cultural, representa um meio de referência geográfica que se tem mostrado eficiente e que importa gerir de uma forma sustentável".

Aproveitou para salientar a "insistência e persistência" do presidente da Junta para que fosse atribuído um nome "digo" a esta praceta, sentindo-se orgulhoso pela decisão tomada, recuperando um escrito de um autor da descrição da vila de Caminha, quando referiu que "nela nasceu o mais insigne compositor de solfa que no seu século teve a Europa".

Por último, Rui Lages acentuou que desta forma "homenageamos um ilustre caminhense que honrou o nome da sua terra e que nela deve ficar perpetuado por direito próprio", e que "nos séculos perdure", assim o espera.

"Foi um passo muito importante para a cultura"

A celebração dos 30 anos destes dois equipamentos culturais, precisamente no dia em que foram inaugurados, mereceu algumas palavras do vereador responsável por esta área.

João Pinto destacou a liberdade de fruição destes equipamentos por parte da população, enumerando as inúmeras actividades desenvolvidas durante estas três décadas "com muita importância para o concelho de Caminha", justificando seguidamente a atribuição de um nome de um caminhense ilustre a uma praceta que não tinha designação.

E para que esta personagem da nossa história passasse a ser mais conhecida pelos presentes, o vereador da cultura passou a palavra ao professor de História da EBS de Caminha, Paulo Bento, a quem o concelho muito deve ao permitir-lhe conhecer muitos episódios e personalidades caminhenses até agora desconhecidos, vincou, pese embora algumas mentes doentias continuem a afirmar que já não há nada a investigar, porque estaria tudo escrito até finais dos anos 80 do século passado, registe-se.

Paulo Bento centrou a sua intervenção nesta 55ª rua de Caminha que passou a ter uma designação, referindo que a Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho o tinha contactado para que estudasse um nome a conceder a esta praceta.

A propósito da toponímia caminhense, recordou ao Município que a rua paralela à Av. Dantas Carneiro, a quem foi atribuído há 30 anos o nome de Damião José Lourenço Júnior, continua sem uma placa indicativa passados também 30 anos, tal como a efeméride do Museu e Biblioteca, sobre essa deliberação camarária.

Prosseguindo a sua análise à toponímia da vila, assinalou que o Largo Pero Vaz de Caminha já não existe, após as modificações introduzidas com a construção do cais do ferry-boat, embora não fosse importante tal desaparecimento, porque o cronista de Pedro Álvares Cabral não era natural de Caminha, como erradamente se pensou durante muito tempo.

E com a "mão na massa", como soe dizer-se, este historiador apontou outro lapso na toponímia caminhense, em referência Largo da Matriz, a quem no anterior regime foi dado o nome de António Mendes, Bispo de Elvas, do século XVI, e que erradamente se acreditou ter nascido cá, fazendo votos para que o lapso seja rectificado brevemente.

Justificação da escolha de uma praceta para o nome de Rebelinho

Prosseguindo a sua interpretação sobre a toponímia da sede do concelho, Paulo Bento enquadrou a sua opinião relativa ao nome a dar a esta praceta do Museu e Biblioteca, tendo aproveitado para desmistificar a ideia de alguns, quando escreveram e disseram, que a praceta era um espaço menor para uma personagem grande da história caminhense, tendo sugerido, portanto, que fosse escolhido outro espaço maior.

A fim de desmontar tal ideia, deu conta que tinha procedido a uma pesquisa e encontrou várias pracetas em diversas localidades, como nomes como os de Lusíadas, Fernão Lopes, Fernando Pessoa, Minho, cidade do Porto, Egas Moniz, 25 de Abril, Mota Pinto ou Francisco Sá Carneiro, concluindo assim que ao conceder-se o nome do músico e compositor à praceta de Caminha, tal "não iria diminuir o nosso Rebelinho".

"Antes pelo contrário", contra-argumentou, porque "Rebelinho também é um diminutivo", o que estaria em consonância com esta "praça pequena".

"Na transição do renascimento para o barroco"

O resto da sua intervenção centrou-se na biografia e enquadramento histórico do Rebelinho - há dúvidas sobre a inclusão ou não do apelido Soares no seu nome -, embora "fizesse mais sentido" que ficasse João Lourenço Rebelo, atendendo a que a generalidade dos melhores agrupamentos de música antiga do mundo refere o nome de João Lourenço Rebelo nas suas edições discográficas.

O Rebelinho, ainda bem novo, passou a viver nos Paços dos Duques de Bragança, uma deslocação ainda não totalmente esclarecida, atendendo a que não se compreenderia muito bem como é que o futuro rei de Portugal teve conhecimento da existência deste jovem talento caminhense. Na interpretação de Paulo Bento, teriam sido os Duques de Caminha a informar a Casa Real da relevância de João Lourenço Rebelo, atendendo às boas relações existentes entre eles - o que deixou de suceder após a Restauração da Independência, uma vez que os Duques de Caminha tomaram partido pela causa "errada", o que levou à demolição do palácio renascentista propriedade dos duques, situado junto ao Largo dos Combatentes, uma contrariedade arquitectónica que privou Caminha de um edifício necessariamente relevante do seu centro histórico, acentuou o palestrante junto à placa a descerrar após a sua explanação.

Chamado para os Paços do Duque de Bragança

Através das palavras de Paulo Bento, ficaram os presentes a saber que o Duque de Bragança era um melómano e chegou a compor alguma peças, razão de ter chamado aquele jovem caminhense para a sua corte o que acabou por o beneficiar sobremaneira, atendendo a que permitiu desenvolver os seus dotes musicais, tanto nos Paços do Duque de Bragança, em Vila Viçosa, como posteriormente (após o 1º de Dezembro) em Lisboa.

Após citar palavras do Rei de Portugal a propósito do Rebelinho, referiu que pouco antes de morrer, D. João IV determinou que toda as obras do caminhense fossem publicadas em Roma, o que "salvou grande parte da obra dele", porque a Casa Real e o seu arquivo real foram igualmente devastados pelo terramoto de 1755, tendo-se perdido as suas partituras, valendo, por conseguinte, as publicações do Vaticano.

"O mais insigne compositor de solfa que no seu século teve a Europa"

A fim de reconfirmar a importância deste músico e compositor caminhense ("possuidor de um génio musical próprio"), Paulo Bento citou algumas das referências feitas à sua pessoa no panorama musical da época por alguns musicólogos: "introdutor da estética barroca e da música polifónica em Portugal"; "músico português a adoptar um estilo policoral veneziano".

Centrando a parte final da sua intervenção na relevância do Rebelinho na vila de Caminha, Paulo Torres Bento citou vários cronistas que se referiram a ele, como foi o caso de Gonçalo da Rocha de Morais, tendo escrito que tinha sido "o mais insigne compositor de sofa que no seu século teve a Europa". Referiu-se ainda a um artigo do historiador caminhense Manuel Serra de Carvalho, publicado na Revista Caminiana em 1982, em que o dedicou exclusivamente ao Rebelinho. E, ele próprio, aproveitando os 400 anos do nascimento deste vulto da cultura musical portuguesa, publicou um artigo no Jornal Caminh@2000 a 4 de Dezembro de 2010.

Outros críticos musicais contemporâneos têm vindo a valorizar a obra deste compositor, levando o palestrante naquela manhã de 26 de Novembro, na sua alocução, de pé, na Praceta que dali a minutos viria a ser confirmada com o nome de Rebelinho, a revelá-los, dando como exemplo uma conferência realizada na Gulbenkian em Maio este ano, em que João Paulo Janeiro disse o seguinte: "João Lourenço Rebelo é, sem dúvida, o mais genial e excêntrico compositor de música religiosa do Portugal seiscentista".

"A música do Rebelinho voltou a fazer-se ouvir na Igreja Matriz"

E o próprio António Victorino d'Almeida, já depois dessa conferência, disse numa entrevista dada em Valença, que o Rebelinho era "um dos maiores compositores da história", além de lamentar que "Caminha não se tivesse associado a João Lourenço Rebelo" em 2010, embora a 28 de Fevereiro de 2015 "a música do Rebelinho se tenha voltado a ouvir na Igreja Matriz".

"Falta uma gravação"

Avançando com mais propostas, Paulo Bento alertou a Câmara e Junta para a necessidade de realizar uma gravação de um concerto de música de João Lourenço Rebelo na Igreja Matriz onde ele aprendeu música com um tio, porque tal registo já teve lugar noutras localidades, recordou.

Sempre dentro de um rigor histórico, este professor referiu que a Câmara de Caminha, em 1838, ainda pagava a um "mestre da capela (na Matriz) para ser útil a muitos caminhenses, fazendo instruir nos princípios e execução de música vocal e instrumental", tudo levando a crer que esta escola seria a continuação da mesma em que o Rebelinho aprendeu enquanto jovem.

A terminar, assinalou as filarmónicas existentes no concelho de Caminha: Vilar de Mouros, Lanhelas, a família Fernandes Fão (Vila Praia de Âncora) e a partir de 1989 surgiu a Academia der Música Fernandes Fão, representada neste acto com a interpretação de duas peças do Rebelinho, e que "honra e continua esta tradição do ensino da música no concelho de Caminha".



Edições C@2000

Cemitérios de Caminha - Fragmentos de memória
Autor: Lurdes Carreira
Edição: C@2000


Há estórias de casas e casas com história
Externato de Santa Rita de Caminha
Autor: Rita Bouça
Edição: C@2000


República em Tumulto
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000

História Nossa
Crónicas de Tempos Passados
por Terras de Caminha e Âncora
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000

Do Coura se fez luz
Hidroeletricidade, iluminação pública
e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP

Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos
do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

Autor: Joaquim Vasconcelos
Edição: C@2000


Memórias da Serra d'Arga
Autor: Domingos Cerejeira
Edição: C@2000

Outras Edições Regionais