A Corema proporcionou a apresentação do livro "Parque Nacional da Peneda-Gerês: Fronteira Selvagem", da autoria de Miguel Dantas da Gama, um activista ambiental que tem dedicado grande parte da sua vida a calcorrear e estudar as belezas de um território único entre o norte de Portugal (Minho e Trás-os-Montes) e a parte sul da Galiza (Ourense), pugnando para que este património seja preservado e divulgado.
"Estou pessimista"
Daqui resultou a publicação de uma obra que demorou oito anos a ser concretizada, contendo 1.200 fotografias, 50 desenhos e mapas, mas infelizmente, sublinhou o autor, "há imagens do livro que já se perderam" pela acção depradadora do homem, numa época em que "é moda dizer-se ecologista", mas inúmeros ecossistemas são destruídos e degradados pelo ser humano, lamentou, o que o levou a considerar estar "pessimista" pelo rumo que o planeta está a seguir, dando como exemplo as inconsequentes e "sucessivas conferências (como a recente realizada no Egipto) que resultam sempre no mesmo: - em nada!", lamentou.
"Continuo a deslumbrar-me com o Parque Nacional da Peneda-Gerês", reconheceu, ao referir-se a este espaço natural com 70.000 hectares, criado há 51 anos, razão da elaboração desta obra surgida com o intuito de "conservar a natureza e a vida selvagem".
São quase 400 páginas de um percurso entrecortado por belas fotografias da fauna, flora, florestas, ribeiros, escarpas, montanhas, que se deve percorrer a pé, aconselhou àqueles que pretendam conhecer o PNPGerês, porque, advertiu, "quem circular de automóvel não vê nada".
"É pena que as pessoas não sintam a natureza"
Apesar de continuar a realizar caminhadas pelos lugares mais recônditos deste maciço rochoso, "continuo sempre a deslumbrar-me com o PNPG", embora, lamentou, "faço-o com um sentimento misto de satisfação e angústia", perante a eliminação de habitats pelos incêndios e infestantes, e "a falta de massa crítica" daqueles que detêm o poder e obrigação de os recuperar.
Representante de uma ONG no Conselho Consultivo deste Parque Natural, criticou a forma como pretendem investir nele 70 milhões de euros nos próximos anos, mas apenas 1,5 milhões se destinam a preservar a natureza e, "destes, só 300.000€ são realistas", porque apostam antes na realização de eventos, exposições e painéis, ao invés de actuarem no terreno ("falta acção no terreno", insistiu).
Exigiu mais investimento nas zonas atingidas pelos fogos (expressos de forma dramática na visualização de um vídeo intitulado "Canhões de Pedra" a abrir esta apresentação), aos responsáveis pela gestão destas verbas, os quais deveriam actuar mais directamente nas zonas de maior valia patrimonial dizimadas pelos fogos, muitas das vezes com origem em mãos criminosas e negacionistas, refira-se.
"Este livro é uma espécie de lamento que nos atravessa a alma"
"Esta obra magnificamente ilustrada", foi considerada no entanto "numa espécie de lamento que nos atravessa a alma", conforme a definiu o Professor Luís Guerreiro, presidente da Assembleia Geral da Corema, encarregue de realizar a introdução deste acto que se tornou no final num debate sobre questões ambientais.
Este professor catedrático lanhelense aposentado vincou a necessidade de "salvaguardar os ecossistemas - um património que urge defender", vincou, após ter realizado uma resenha daquilo que vem sendo a evolução humana desde a era industrial, e que conduziu ao estado actual em que "50 estádios de futebol (de florestas e de bio-diversidade) são dizimados por minuto em todo o mundo". Aproveitou para apelar a uma "nova forma de fazer política anti-autoritária" que conduz a desastres tremendos como aos que assistimos nos dias de hoje, e contra os quais a própria Corema tem combatido, dando como exemplo mais próximo a luta pela defesa da Serra d'Arga, em que esta associação ambientalista "tomou a dianteira", acentuou.
"Miguel Torga teria gostado de visitar a Peneda-Gerês"
É perante esta catástrofe que esta obra "mobiliza todos os sentidos e convida-nos para uma caminhada" por este espaço singular e único do Parque Nacional da Peneda Gerês/Xuréz, realçou Luís Guerreiro vindo expressamente de Lisboa para não faltar ao convite endereçado, e apresentando uma introdução bem fundamentada à problemática ambiental.
Este Professor de História, não hesitou em citar Miguel Torga, afiançando que este vulto da literatura portuguesa "teria gostado muito de visitar a Peneda-Gerés na companhia de Miguel Dantas", a despeito de ele ter sido um apaixonado pela caça, acentuou com algum humor.
Registe-se que o regresso da cabra-montês e a águia-real (esta, por iniciativa do país vizinho da Galiza) a esta zona montanhosa, mereceram um registo no filme exibido a abrir a sessão.
(*)A propósito da preservação e classificação do património natural, a imprensa galega registou que o Partido Popular rejeitou no Parlamento Galego uma proposta do Bloco Nacionalista Galego para que as pesqueiras do Rio Minho fossem candidatas a património imaterial da Humanidade, conforme se vem pugnando em Portugal desde 2020 e que largos sectores da sociedade galega também comungam.