A defesa da Serra d'Arga poderá ficar mais garantida após a aprovação do maciço serrano - que se distribui por quatro municípios do Alto Minho (Viana do Castelo, Caminha, Ponte de Lima e Vila Nova de Cerveira) -, como "Área de Paisagem Protegida" de interesse regional, juntando-se assim à classificação de Sítio de Importância Comunitária da Rede Natura 2000 "Serra d'Arga".
Aproveitando o Dia Internacional da Biodiversidade (22/Maio), as câmaras municipais de Caminha, Ponte de Lima e Viana do Castelo, integrantes de uma proposta de classificação da Montanha Sagrada, levaram a cabo no Mosteiro de S. João d'Arga uma sessão pública destinada a conservar, proteger e promover o Património Natural e Cultural da Serra d'Arga.
Diversos técnicos que durante os últimos anos formaram uma equipa destinada a estudar aspectos paisagísticos, culturais, biodiversidade, geodiversidade e serviços de ecossistemas, explanaram as suas conclusões baseadas em trabalhos de campo apoiados pelos três municípios (investindo 350.000€) e pelo Norte 2020.
"É agora ou nunca"
Guilherme Lagido, vereador caminhense que coordenou este projecto, recordou que após assumir funções na Câmara Municipal de Caminha, o presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, Víctor Mendes, lhe dissera que "era agora ou nunca", a oportunidade para a criação de uma área de paisagem protegida na Serra d'Arga. Sublinhou que este comentário do autarca limiano se tinha baseado no facto de Guilherme Lagido ter sido durante alguns anos director do Parque Nacional da Peneda-Gerês, o que elevaria o seu interesse na defesa e promoção da Serra d'Arga.
Guilherme Lagido, resumindo o objectivo desta aposta, aludiu ao trabalho desenvolvido por esta equipa multidisciplinar, de identificação do terreno, estudo em diversas áreas, divulgação e promoção, concluindo que "temos actualmente um conhecimento muito maior do que há dois anos", encontrando-se agora em melhores condições para promover esta região.
O autarca caminhense considerou que este documento agora em análise para futura aprovação, tornar-se-á numa "fortaleza para defender a Serra d'Arga".
Farpas à oposição
Esta sessão de defesa e promoção da Serra d'Arga acabou por ter subjacente a polémica instalada na região alto-minhota e no norte do país relativamente a projectos de extracção de lítio que já acolheram benevolência do Terreiro do Paço.
Miguel Alves, presidente do Município caminhense, ainda espicaçado pela discussão havida na última sessão camarária, não deixou de deitar farpas aos políticos que "apareceram agora" interessados na defesa da Serra d'Arga, mas que "infelizmente", prosseguiu, "nunca o fizeram antes de nós".
O autarca caminhense referiu que o PDM revisto no último mandato "protege a floresta, a serra e os leitos dos rios", como será o caso do Estuário do Rio Minho, o qual conta com uma "protecção especial", razão que o levou a admitir que projectos como uma ponte e um túnel poderiam afectá-lo.
Disse que estavam perante num ponto de partida para fazer um discurso sério e não hipócrita.
Referindo-se mais directamente ao caso do lítio (embora sem nunca o citar), prometeu que avaliariam os "pedidos" que venham a surgir, tal como já o tinham feito em 2017 em relação ao pedido de prospecção (negativo), embora as campanhas de detecção desse mineral tenham prosseguido, como se comprova agora.
Voltando ao tema desta acção desenvolvida nessa tarde (maravilhosa) no Mosteiro de S. João d'Arga, - considerada "um dos momentos mais importantes da Serra d'Arga nos últimos tempos" -, o edil caminhense recordou o investimento feito na recuperação deste conjunto monumental pela Câmara de Caminha e louvou este projecto "conjunto" de defesa da Serra d'Arga "daqueles que a querem atacar".
Prometeu ainda um investimento de 120.000€ na sinalética destinada aos romeiros para S. João d'Arga, acentuando na necessidade de "preservar" e, simultaneamente, defender, promover e investir (um milhão de euros, no total) na Serra d'Arga.
"Qualidade de vida para as pessoas"
Ricardo Carvalhido, vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, representando o município que possui mais área nesta serra, alertou que o projecto não terá sucesso se não tiver a participação das pessoas, cuja "qualidade de vida" deverá ser assegurada com ele.
Assinalou que a "componente cénica da paisagem é muito importante", a par do "grande valor económico" que este território poderá aportar aos três municípios.
"Serra d'Arga não tem grande potencial mineiro"
"Hoje é um dia histórico porque é o início de um grande projecto que queremos nacional", avançou Víctor Mendes, presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, representando uma autarquia para quem esta aposta deve ter "uma efectiva participação da sociedade civil e não só dos municípios".
"Manter, preservar e valorizar um património que é de todos nós", acrescentou, exemplificando com a classificação das Lagoas de Bertiandos, em Ponte de Lima que o seu Município conseguiu há anos.
Este autarca, a exemplo dos seus colegas, elogiou a equipa técnica que "fez um trabalho notável", mas "não muito barato", atalhou - perante os risos da assistência -, bem como teve palavras de apreço em relação a Guilherme Lagido, pela sua "sensibilidade técnica" na condução deste processo.
"Eu vivo na unidade de paisagem 2", completou o autarca, vincando ainda que a Serra d'Arga "não tem grande potencial mineiro", após o que incentivou todos a "fazer algo por esta zona e sua população".
"Todos os debates são importantes"
Concluindo as intervenções, Miguel Alves voltou a valorizar a "coragem" dos três municípios, mostrando-se seguro de que "vamos conseguir dar um salto maior" e assinalou que "todos os debates são importantes - incluindo os mineiros".
Pontão do Lobo será recuperado
O estudo da área do SIC (Sítio de Importância Comunitária) já existente na Serra d'Arga centrou a intervenção dos diversos técnicos que alargaram a sua actuação até ao limite da área protegida pretendida, referiu Vilma Silva, uma das técnicas desta equipa.
Vera Silva, ao abordar o inventário do património arquitectónico e imaterial desta zona serrana, citou o Pontão do Lobo (destruído há anos durante uma enxurrada), surgindo de imediato uma assistente a perguntar "onde é que ele está?", respondendo a oradora que "está previsto reconstrui-lo".
"Números impressionantes"
"A Serra d´Arga estava mal estudada", admitiu Paulo Alves, especialista em flora, revelando que os números de espécies encontradas são "impressionantes". Existe uma planta que se julgava extinta há 40 anos, revelou este estudioso da flora, a par de inúmeras outras, raras ou em risco de extinção.
Fauna riquíssima
A fauna riquíssima deste conjunto granítico mereceu igualmente uma abordagem nesta conferência, revelando Duarte Mendes a existência de 186 vertebrados, 126 aves, 33 mamíferos e 5 peixes.
Lítio ignorado
Causou alguma estranheza que durante a explanação do geólogo Eduardo Gonçalves, não tivesse sido feita qualquer alusão à existência do agora tão cobiçado lítio. Referiu 60 elementos com interesse geológico, apontando alguns minerais como o ouro, prata, estanho, volfrâmio ou tântalo, e elencou entre algumas formações rochosas as pias graníticas e os megablocos graníticos arredondados, definindo a região como "muito rica".
Benefícios a retirar
Coube a Vilma Silva enfatizar o aproveitamento destes ecossistemas a favor das populações e do Alto Minho, centrando-se em quatro serviços de ecossistemas: aprovisionamento, regulação, culturais e de suporte.
Previu a recuperação de 15% dos ecossistemas mais degradados.
"Já houve 10.000 ruminantes"
O público teve oportunidade de se pronunciar neste encontro, tendo sido um dos pontos mais controvertidos definir se o garrano era uma espécie selvagem ou não.
Mas, os habitantes locais centraram-se na realidade actual destas aldeias, porque "dizem que isto é rico mas continuamos a viver pobremente", atirou Octávio Pires.
Esclareceu a audiência e os técnicos que elaboraram este projecto, que o Ribeiro de S. João é "erradamente" apelidada com esta designação, quando na verdade se chama desde tempos imemoriais de Ribeiro de Azebode. E em matéria de correcções, assinalou que os portelos serviam para a passagem dos animais e não para os homens.
Garranos - selvagens ou não?
Referiu acerca da polémica da origem dos garranos, que tinha sido ele e outro morador das Argas a introduzir este cavalo na Serra d'Arga, o qual se encontra em risco de extinção devido à acção dos lobos, advogando, por isso, a recuperação de rebanhos de ruminantes (chegou a haver 10.000, frisou) para que servissem de igual modo de "principal fonte de alimentação dos lobos".
Háqueas são inimigas do projecto
A forma de exterminar as háqueas e acácias interessou bastante os assistentes e técnicos, devido aos efeitos perniciosos que ocasionam na fauna e flora. A técnica do fogo parece ser agora a melhor forma de a combater.
Associações querem participar
Uma representante da Corema interpelou a Câmara de Caminha sobre a forma como as associações locais poderão colaborar com as câmaras municipais, levando Guilherme Lagido a salientar a necessidade de criar um "estatuto de protecção" do qual resultará um acesso aos recursos e aos respectivos trabalhos com as populações, designadamente no combate à háquea.
"Património mineralógico"
Outro assistente concordou com a biodiversidade (este encontro coincidiu com o Dia Mundial da Biodiversidade) mas interrogou a equipa técnica sobre a importância da geologia (património mineralógico), levando Octávio Pires a questioná-lo se "não estará a pensar no lítio?!".
Rio Coura de fora
O facto de o Rio Coura não incluir a designação deste projecto ("Da Serra d'Arga à Foz do Rio Âncora"), motivou um reparo de outra participante neste debate, observação extensiva à Arga de S. João, perguntando se este rio não fazia parte deste estudo.
Lagido respondeu que "logo se vê" e que "já sei onde quer chegar", assegurando a existência de outras formas de defesa.