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José António Guerreiro, o liberal de Lanhelas imortalizado na Assembleia da República

Não esquecido na sua freguesia natal de Lanhelas, onde foi homenageado por duas vezes no decorrer do século XX — em 1926, quando uma artéria local recebeu o seu nome; em 1989, na passagem do bicentenário do seu nascimento, por iniciativa da COREMA—, nem por isso os caminhenses conhecem como deveriam o nome de José António Guerreiro (1789-1834), grande figura do liberalismo português oitocentista. Não sendo propósito ou sequer possibilidade destas curtas linhas esgotar o relato de vida do notável lanhelense — ainda à espera do biógrafo que faça justiça à sua memória — importa contudo (re)lembrar aos contemporâneos os traços essenciais do seu curto mas intenso percurso político.

Nascido em Lanhelas em 5 de dezembro de 1789, filho de Bento José Dantas Guerreiro, José António Guerreiro formou-se bacharel de Leis na Universidade de Coimbra em 1816, distinguindo-se como o melhor aluno do seu curso. Iniciada a carreira na magistratura, passou pela vila de Mértola como juiz de fora mas logo em 1821, um ano após a revolução liberal, foi eleito deputado às Cortes Constituintes em representação do Minho. Teve um destacado papel nos debates dos quais resultaria a Constituição de 1822, o que lhe mereceria a eleição para as Cortes Ordinárias nesse mesmo ano e, mais tarde, a reeleição para as Cortes de 1826, onde ocupou a cadeira da
vice-presidência. Em tempos muito agitados, assumiu por duas vezes a pasta da Justiça no governo — em 1823, chamado por D.João VI; novamente em 1826, após a morte do monarca — mas a proclamação de D.Miguel como rei absoluto em 1828 atirou-o, como a muitos outros liberais, para os caminhos do exílio. Em defesa dos direitos de D.Pedro IV e de D.Maria II, passou por Inglaterra — aí escreveria com Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela, o opúsculo "Manifesto dos Direitos de Sua Magestade Fidelíssima a Senhora Dona Maria Segunda e exposição da questão portuguesa" (1831) — e depois pela Ilha Terceira (Açores), onde integraria o Conselho de Regência. Em plena guerra civil, foi agraciado em 1833 com a grã-cruz da Torre e Espada por D.Pedro IV que o incluiu no seu Conselho de Estado em 1834 mas, à semelhança deste, José António Guerreiro pouco sobreviveu ao triunfo definitivo do liberalismo. De acordo com o historiador vianense Luís Figueiredo da Guerra, a sua morte prematura, aos 45 anos de idade, resultou de ferimentos recebidos no decorrer do cerco do Porto: "embarcado na fragata Alcion, tentou esta forçar a barra do Douro, porém as baterias do Castelo de S.João da Foz afundaram o navio, ferindo gravemente o Dr.Guerreiro que retirou convalescente para Lisboa, residindo na freguesia das Mercês até falecer no 1º de Agosto de 1834 (...) Deixou a viúva com cinco filhos menores e com parcos meios, pelo que teve ela de vender os bens de Gondarém e Lanhelas" (Aurora do Lima, 11-6-1926).

Para orgulho de Lanhelas e do concelho de Caminha, José António Guerreiro está hoje imortalizado na sala de reuniões plenárias da Assembleia da República, no Palácio de S.Bento, inaugurada em 3 de janeiro de 1903 depois de um violento incêndio em 1895 ter destruído a primeira Câmara de Deputados. A sala, como o restante edifício do parlamento, foi projetada por outro nosso conterrâneo —
o arquiteto seixense Ventura Terra — mas a sua decoração artística demorou anos a completar, sendo entregue por concurso aos mais distintos escultores e pintores portugueses do início de novecentos. Domina-a uma grandiosa tela em elipse de 22 metros de largura por 5 de altura, que evoca as Cortes Constituintes de 1821-1822, reunidas na biblioteca do Palácio das Necessidades. Entre os quarenta deputados vintistas retratados a ouvirem atentamente Manuel Fernandes Tomás, surge em lugar de destaque, à direita do orador, a figura soerguida de José António Guerreiro.

Académica mas de indiscutível qualidade, a obra é da autoria do pintor José Maria Veloso Salgado (1864-1945), que contou com a colaboração dos discípulos Luís Marques da Silva Júnior e Júlio Santos Jesus. Nascido em Ourense (Galiza), Veloso Salgado veio muito jovem, com 10 anos, para Lisboa, onde frequentou a escola de Belas-Artes, acabando por se naturalizar português em 1887. Pensionista do Estado, frequentou a escola de Belas-Artes de Paris e esteve em Itália. Regressado a Portugal, seria professor nas Belas Artes da capital, distinguindo-se no retrato, na paisagem e na pintura histórica, tendo obras suas em diversos edifícios públicos e museus portugueses. Sob grande atenção da imprensa da época, a Luneta de Veloso Salgado, como ficou conhecida, foi colocada na sala das reuniões plenárias da Câmara dos Deputados do Congresso da República em janeiro de 1921, a tempo da comemoração do centenário das Cortes Constituintes (Ilustração Portuguesa, nºs 777, 778 e 780). Prestando-lhe a merecida atenção em próxima visita à Assembleia da República ou numa transmissão televisiva parlamentar, os caminhenses em geral e os lanhelenses em particular, poderão desse modo homenagear o valioso contributo de José António Guerreiro para a vitória da causa liberal e a história de Portugal.

BIBLIOGRAFIA

Zília Osório de Castro (Dir.) (1983). Dicionário do vintismo e do primeiro cartismo, Vol.I. Lisboa: AR/Edições Afrontamento;

José Augusto França (1990). A Arte em Portugal no século XIX, Vol.II. Lisboa: Bertrand Editora.

Agradecemos aos serviços da Assembleia da República e ao deputado Jorge Fão as facilidades no acesso à reprodução digital com qualidade da Luneta de Veloso Salgado, pela primeira vez apresentada no concelho no dia 24 de abril de 2010 em palestra proferida pelo cronista por ocasião do Dia de Lanhelas (23 de abril) a convite da respetiva Junta de Freguesia.

pntbento@mail.telepac.pt, 5 de outubro de 2013


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