"Isto cansa", desabafou Carlos Sampaio, membro da direcção da Associação de Pescadores Profissionais e Desportivos de Vila Praia de Âncora, perante os dois deputados do Bloco de Esquerda que visitaram o Portinho desta vila na passada Terça-feira, face à "inércia total" da Docapesca Portos e Lotas SA, evidenciada no adiamento do desassoreamento deste porto de abrigo e na elaboração de um novo projecto de regularização dos molhes a cargo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
Os pescadores ancorenses aguardam ainda por um regulamento do porto desde 2008 e temem que se pretenda acabar com a pesca artesanal, a favor dos grandes arrastões que comportam 100.000 cobos para a captura do polvo, em contraste com os 3.000€ que transportam ao barcos de pesca local, cujos resultados comparativos em termos de preservação dos ecossistema são evidentes.
Os pescadores ancorenses manifestaram perante os dois deputados do BE (Maria Manuel Rola e José Maria Cardoso, presidente da Comissão parlamentar do Ambiente na Assembleia da República), a sua insatisfação pela forma como funciona a Docapesca, (muito pior do que no tempo em que o IPTM geria os portos, referiram).
Deram como exemplo a ordem recebida para que os pescadores (mais concretamente a sua associação) removessem as suas redes e cobos do cais, alegando poluição ambiental, mas não procedem à recolha regular dos óleos depositados no oleão exitente no Portinho, esses sim possíveis causadores de forte poluição nas águas interiores do porto de abrigo, se estes escorrerem para lá, acusou Carlos Sampaio.
Quatro horas sem poder navegar na maré baixa
Os pescadores profissionais querem uma solução que regularize os defeitos de construção do molhe norte, que os impede de trabalhar com regularidade ao longo do ano, desabafando Vasco Presa, presidente desta associação, que "há um ano que só conseguimos pescar em 1/3 das marés", devido ao assoreamento da barra do porto, bem como da bacia interior, ou porque atravessá-la é perigoso com o mar alteroso, o que sucede com frequência no período invernal. Contudo, os compromissos perante o Estado são iguais aos dos demais profissionais que podem sair para o mar em praticamente todo o ano, criticam.
"Desassoreamento é uma máquina de gastar dinheiro"
"A Docapesca tem de levar estas dores do pescadores até junto do Governo, mas nada faz", acusam, porque "já gastaram cinco milhões de euros em operações de desassoreamento até 2015", ano em que foi feita a última operação de dragagem, em que cada uma só resolve o problema do assoreamento "para ano e meio", salientaram, em vez de contratarem o Laboratório Nacional de Engenharia Civil a fim de realizar um estudo sério de melhoria da configuração dos molhes, o qual importaria apenas em 300.000€, em contraste com os milhões desperdiçados com as limpezas de areia.
Os pescadores asseguram que a obra não corresponde ao projecto previsto, e nem sequer foi concluída, porque quando tombou uma grua por efeito de um temporal, "deram a obra como concluída", quando ainda faltavam fazer 30%.
"No primeiro ano (2004) parecia que estávamos no paraíso", admitiu Vasco Presa, mas rapidamente se aperceberam dos erros do projecto, obrigando a operações de dragagem que apenas resolvem o problema temporariamente (e importam em 1,5 milhões de euros ao Estado por cada uma), mas ultimamente nem isso, porque ainda estava previsto uma extracção de inertes na primavera passada, e nada se concretizou.
Os homens do mar de Vila Praia de Âncora estão "fartos" de reuniões que "não dão em nada", e começam a abandonar a arte, como acontece actualmente "em que já há três barcos à venda", revelou Vasco Presa, presidente de uma associação com cerca de 170 sócios, dos quais 60 barcos pertencem a pescadores desportivos.
Neste encontro com os bloquistas, foi referida ainda a perigosidade da travessia da barra com mar adverso ou de noite, requerendo muita experiência e argúcia para a cruzar sem problemas, requisitos que faltam aos pescadores desportivos, menos conhecedores da realidade do mar neste ponto, o que poderá ocasionar acidentes, temem.
Por fim, foi ainda apontada aos dois deputados do BE a vergonha de um buraco em crescendo no interior do molhe norte, e a permanência de pedras na rampa, fruto da degradação deste espaço, sem que a Docapesca decida repor o interior desse molhe e removê-las.
"Acho que não há vontade" em apostar neste porto de abrigo, desabafou Carlos Sampaio, "porque eles sabem o que é preciso fazer".
Os deputados do BE prometeram levar estes problemas até junto do Governo e interpelar a tutela sobre medidas eventualmente a tomar.