Conforme tínhamos vindo a anunciar, o C@2000 apresentou há uma semana, no Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Caminha, a sua nova edição livreira, integrada nas comemorações dos 20 Anos da fundação deste jornal digital.
Foi a 28 de Outubro de 2000 que publicamos a primeira edição virtual do C@2000, objecto de recordação e debate neste Sábado (31 de Outubro), através de uma "Tertúlia Virtual" iniciada pelas 21 horas (hora portuguesa).
Na apresentação dessa obra com cerca de 400 páginas, a autora, a arquitecta Lurdes Carreira, sintetizou este seu trabalho de anos de pesquisa, no seguimento da entrevista que já nos tinha concedido na edição de 17/23/Out/2020.
Através das suas palavras alicerçadas em documentação compilada de diversos arquivos locais, regionais e mesmo nacionais, convidou os presentes (e os que assistiram através do facebook) a "reflexionar sobre estes tempos" da criação dos cemitérios, porque, frisou "todos eles tiveram a sua história".
1º sepultamento em Caminha teve lugar há 165 anos
Desde o primeiro a ser construído no concelho, precisamente em Caminha, em Outubro de 1855 - data em que foi realizado o primeiro sepultamento, precisamente há 165 anos -, na cerca do Convento de Santo António -, até aos mais tardios, como foi o caso de Gondar e Orbacém, devido à pneumónica de 1917/18, culminando com o de Dem, após se ter tornado freguesia em 1968.
Lurdes Carreira recordou que desde 1835, decorrente de um surto de peste proveniente da Flandres, aquando do cerco da cidade do Porto pelas forças miguelistas, surgiu a necessidade de terminar com os sepultamentos no interior das igrejas e dos adros.
Em 1836, a Câmara de Caminha optou pela cerca do Convento de Stº António e durante 12 anos foi sendo construído mas sem grande entusiasmo da população, até que novo surto de cólera nos anos 50 obrigou a acelerar este processo, culminando com o referido sepultamento nesse mês de 1855, conforme já anotamos.
A construção dos jazigos com mais destaque arquitectónico mereceram atenção neste acto por parte da autora do livro, a qual chamou a atenção que um novo surto de cólera entre 1871-76 obrigou à tomada de medidas rígidas, como o fecho de fronteiras, criação de lagaretos e à intervenção do exército na luta contra o contágio.
Esta obra revela que muitos dos cemitérios construídos no concelho de Caminha estiveram na base da beneficência de "homens bons" das freguesias e que os entregaram às juntas de freguesia, apontando como um dos exemplos o sucedido em Riba d'Âncora, através do empenhamento do Comendador José Bento Ramos Pereira e do professor Jonas Pinheiro.
As peripécias da criação dos cemitérios de Venade, Seixas e Moledo (sublinhada a qualidade dos canteiros da freguesia), a importância do de Gontinhães (mais tarde, Vila Praia de Âncora), as construções dos primeiros jazigos, como sucedeu em Vilar de Mouros, Vile e, em 1891, Flipe Alves, presidente da Junta de Freguesia de Argela procedeu à aquisição de "uma porção de terreno" junto ao cemitério (criado dois anos) antes para construção de um jazigo. Os nomes das primeiras pessoas sepultadas nos cemitérios das três Argas e as suas sepulturas "bordadas" e o enterramento de 10 galegos mortos "nas costas da Capela-Mor" de Lanhelas, aquando da tentativa de invasão desta freguesia em Abril de 1644, foram muitos dos pormenores descritos pela autora.
Todas os cemitérios das 20 paróquias do concelho de Caminha têm a história da sua criação aqui descritas, com as suas particularidades, dificuldades, localização (em locais arejados) e monumentalidade representada através da objectiva do arquitecto João Brás, colaboração salientada nesta apresentação, contribuindo para que com as suas imagens, fosse melhor compreendida esta obra, nomeadamente, a "linguagem do jazigo". A concepção gráfica a cargo do designer Carlos da Torre, mereceu igualmente palavras de apreço da parte da autora.
Lurdes Carreira, embora não sendo natural deste concelho, embora aqui trabalhe, admitiu a encerrar a apresentação, que "todo este percurso, aproximou-me muito de Caminha".
"É uma visão de planeamento, urbanismo e arquitectura"
Miguel Alves, presidente do Município de Caminha, marcou presença neste acto - "momento excepcional", e "um acto de grande coragem" em todas as frentes, quer da parte dos editores e autora, incluindo a equipa municipal que assegura os protocolos Covid nestas iniciativas, frisou o autarca.
O presidente da câmara considerou que o C@2000 propiciou "mais uma edição para o nosso concelho", a qual revela, neste caso, "uma visão de planeamento, urbanismo e arquitectura".
Nestes 20 Anos de vida do C@2000, Miguel Alves salientou a existência desta "imprensa livre apesar de todas as pressões", e, parafraseando as palavras do director deste jornal a abrir a sessão, definiu-a também de "cidadania", quer na divulgação de notícias, quer na cultura, da qual são exemplo os nove livros já editados ou a Feira do Livro Luso-Galaica da Ribeira Minho organizada em conjunto com os municípios de Caminha e A Guarda, e pela Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho.
"Uma das jogadoras mais virtuosas e com mais experiência"
Enalteceu seguidamente a carreira da autora que "joga na minha equipa", em referência à sua actividade profissional no Município de Caminha, considerando-a (em termos figurativos) como "umas das jogadoras mais virtuosas e com mais experiência", quer quando esteve à frente de uma divisão na Câmara do Porto, quer na elaboração do PDM de Caminha.
"É um tema vivo"
Embora ainda não tivesse lido o livro todo, admitiu, o autarca considerou-o "extraordinário porque fala da nossa comunidade", recorda as contestações surgidas à criação dos cemitérios, nomeadamente aos sepultamentos fora das igrejas e dos adros e ao facto de terem sido as pandemias - tal como a que enfrentamos nos dias de hoje - a "obrigar a comunidade a tomar decisões" e levando inclusivamente ao confronto entre os poderes.
Referiu-se em concreto ao caso da escolha do local do cemitério em Moledo, perante a contestação ao sítio escolhido - e que só se concretizou quando mudou o presidente da Câmara -, mas cuja aposta não viria a ser a mais apropriada, como se viria a confirmar mais tarde, ao ser construído um novo cemitério, precisamente no espaço defendido por aqueles que opuseram ao agora chamado cemitério antigo, cuja obras foram iniciadas em 1890, suspensas pela Administração do Concelho, e retomadas no ano seguinte.
"Um brinde à vida"
Perante todos estes dados, Miguel Alves alertou que "quem olhar para este livro com um sentido mórbido, vai ter uma decepção", considerando-o um "brinde à vida" e uma feliz aposta na capa, com o plinto do mausoléu de Moledo representando o "Mito do eterno retorno".
20 Anos assinalados com mais um "fragmento" da história de Caminha
A abrir esta sessão da apresentação do livro "Cemitérios de Caminha. Fragmentos da memória", Luís Almeida, director do C@2000, agradeceu a confiança depositada pela autora no jornal pela edição desta obra, delineada desde princípios de 2019, para que fosse lançada neste mês de Outubro, data dos 20 Anos da sua fundação, realçando, a propósito, que o primeiro sepultamento efectuado no cemitério de Caminha coincidiu com o mesmo mês.
Agradeceu aos que colaboraram na concretização do lançamento, bem como a todos quantos permitiram a edição regular do jornal e publicação de livros ao longo destas duas décadas.
O facto desta pandemia ter coincidindo com a data prevista, levou o editor e autora a tomarem uma decisão, optando por avançar com a impressão e lançamento do livro, cumprindo as regras de segurança, distanciamento e higiene, de acordo com o Plano Covid elaborado pela Câmara Municipal de Caminha.
Recordou as peças fundamentais na criação do C@2000, a primeira edição a aparecer na Net às 7H da madrugada do 28 de Outubro de 2020, mercê do empenhamento do seu director e sua esposa Isabel, do sub-director João Crespo e do informático João Verde.
O director explicou a escolha do salão nobre dos Bombeiros Voluntários de Caminha para este acto. Por três razões:
Ser um espaço amplo; ser uma forma de o C@2000 se associar aos 125 Anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Caminha que, devido à pandemia, não pôde celebrar na sua plenitude uma efeméride tão importante e, também, porque um dos familiares do seu director exerceu funções de comando no copo activo da corporação nos anos 30 e 40 do século passado.