Os dirigentes dos dois clubes tentaram que o jogo inaugural da época da 1ª Divisão Distrital fosse mudado para uma jornada posterior, na eventualidade de já poder haver espectadores nos campos de jogos, o que permitiria alguma receita ao clube local, atendendo a que estes dérbis concelhios sempre proporcionam um bom pecúlio para as agora cada vez mais depauperadas finanças devido às restrições impostas pela pandemia.
Não tendo conseguido o adiamento, as equipas apresentaram-se no campo do Ancorense no passado Domingo, dispostas a reatar mais um confronto desportivo de sã rivalidade.
Foi um ambiente estranho, o que se viveu nessa tarde, em que se ouviam perfeitamente as orientações dos técnicos, as palavras (algumas em português vernáculo) proferidas pelos jogadores durante a peleja rija em que cada equipa pugnava pelos três pontos.
Empoleirados nos muros do estádio pela parte de fora, em cima de prédios vizinhos, por detrás de grades que permitiam alguma visibilidade para o interior do sintético, os adeptos não queriam perder a oportunidade de seguir as peripécias do jogo, apesar de transmitido pela Rádio Popular Afifense, que dessa forma, levava o seu relato até aos apoiantes dos dois clubes.
O jogo foi disputado renhidamente
Ambas as formações apresentaram-se em campo para se estrearem neste distrital com uma vitória, mas o resultado ficou definido perto do fim a primeira parte, quando o brasqileiro Eric transformou uma grande penalidade, e um minuto depois o Ancorense teve oportunidade para empatar a partida, o que não conseguiu. Assim como aos 20', um alívio deficiente de um defesa do Âncora-Praia tinha feito a bola embater num dos postes da própria baliza, e seguir para canto.
Iniciada a 2ª parte, o Ancorense dispôs de uma boa oportunidade aos 6', correspondendo o guarda-redes adversário com uma excelente defesa.
Como resultado de um sururu junto à linha lateral, cada uma das equipas ficou reduzida a 10 unidades. O Ancorense tentou o golo da igualdade, mas sem o conseguir, apesar de algumas oportunidades, respondendo o Âncora-Praia com determinação e quase conseguia ampliar a vantagem a cinco minutos do final, após Eric ter feito um passe-remate cruzado e rasteiro, fazendo a bola passar rente ao poste, perante o desespero de um colega que correu a tentar introduzir a bola nas malhas adversárias, mas sem êxito.
No final, ambos os presidentes dos clubes deram a sua opinião sobre o resultado, mas quem marca é que ganha.
Apreciação do resultado
Paulino Gomes, presidente do CCDAncorense, referiu ao C@2000 que "não vou dizer que o resultado foi justo, porque, perante um jogo muito tático, o resultado seria o empate, tendo apenas o pormenor do penalti que nos afectou, caso contrário teríamos uma igualdade".
Por seu lado, André Cunha, presidente do Âncora-Praia FC, acentuou que "não há resultados justos ou injustos, tratando-se ainda por cima de um derby e apesar de não haver público - o dá aquele frenesim do jogo -, mas eu acho que o resultado foi justo, apesar de ter havido oportunidades de lado a lado num jogo bem disputado", tendo aproveitado a ocasião para desejar as maiores felicidades ao Ancorense nos seus objectivos, "tal como nós vamos obter também os nossos".
"Estamos condicionados"
Após esta paragem de alguns meses e embora condicionados pelas medidas restritivas de prevenção da doença que atingiu o mundo do desporto de uma forma atroz, pedimos uma apreciação a esta realidade implacável que condiciona e já eliminou alguns clubes da sua prática desportiva ate então normal.
Basta dizer que na 2ª Divisão Distrital, o Lanhelas, Anais, Bertiandos e Raianos suspenderam as equipas seniores.
O clube lanhelense, sem as receitas de bilheteira, bar e rifas não conseguia fazer frente às despesas. Registe-se que cada jogo em casa ascendia quase a 300 euros, com pagamentos à GNR e arbitragem.
O Atlético Clube de Caminha mantém a suas equipas infantis.
Apenas os clubes do Vale do Âncora se mantêm praticamente com todos os escalões, mas obrigados a grande ginástica financeira para sobreviver.
"Uma praga que nos afecta a todos"
Paulino Gomes encara esta realidade com preocupação, sendo obrigados "a cumprir uma série de regras devido a um vírus que nos condiciona a todos".
Deu como exemplo a própria gestão do campo, com a limpeza assídua dos balneários, higienização e os cuidados com os equipamentos. Presentemente, utilizam uma equipa para dois balneários, fazendo o mesmo para a equipa adversária. E, prosseguiu, "associado a isto, há mais despesas e aquilo que nós não ganhamos", em referência à bilheteira - o que também torna mais complicada a angariação de mais sócios, publicidade e patrocinadores.
Por efeito desta pandemia, "as empresas também não estão de boa saúde financeira, acabando por ser uma praga que nos afecta a todos", desbafa.
Sem alternativas, tentam cumprir com as regras impostas e "fazer um esforço muito grande para levar isto avante".
Recorda que no início da época, o Ancorense conseguia angariar fundos com as actividades desenvolvidas, dando como exemplo a participação na Feira Medieval "que nos pagava as inscrições" na Associação de Futebol de Viana do Castelo de todos os jogadores, o que não aconteceu este ano, a par de terem tido o azar de que o sorteio tivesse ditado um derby na primeira jornada que "nos permitiria oxigénio para mais dois meses", o que não sucedeu por ausência de público.
"Não há liquidez, oxigénio"
Perante esta hecatombe financeira, o presidente do Ancorense vai manter a equipa sénior e apenas pôr a treinar os demais escalões em Janeiro ou Fevereiro, mas sem entrar na competição, "embora já tivéssemos todos os escalões preparados, incluindo os treinadores" em referência a juniores, juvenis e iniciados. Contudo, "com toda esta indefinição", completa, "torna-se tudo muito mais difícil".
Equipas jovens condicionadas
Recorda que há cerca de sete anos tiveram dificuldades financeiras, conseguiram ultrapassá-las e ter "um balanço positivo", mas temem que se mantiverem toda a actividade inicialmente prevista, os problemas de tesouraria poderão repetir-se, o que leva os responsáveis deste clube de Âncora a "ponderar tudo", conciliando a actividade dos miúdos com a capacidade financeira possível.
Em termos de medidas de prevenção da doença, os clubes amadores não são obrigados a fazer testes de despistagem da doença, mas têm de medir a temperatura de todos os atletas "à entrada dos treinos e dos jogos" e, no caso de aparecer algum infectado "já não vem ao treino", caso contrário, "teremos de fazer uma quarentena de 10 dias" a fim de comprovar se não há contágios.
Para esta época, o Ancorense incluiu no seu plantel alguns juniores e manteve praticamente todos os jogadores da época passada e inscreveu novos elementos, a par de um treinador novo, o Tiano.
"Uma época de resistência"
Como objectivo para esta época, "é fazer um bom campeonato, tranquilo, com um trabalho de pré-época muito bom", o que os leva a acreditar neste projecto.
Perante um estádio praticamente vazio, Paulino Gomes, sente que "estamos como que condicionados, faltando-nos aquela alegria", o que os leva "a trabalhar esta situação" que se poderá agravar com o Inverno, com o frio e chuva, obrigando a competir "sem gente a assistir", tentando ultrapassar "o sentimento de vazio" que se irá apoderar de todos.
Acredita que será "uma época de resistência, para os fortes, e queremos estar nesse grupo, porque é esse o nosso compromisso e vamos até ao fim com ele, com todos os que estamos aqui", assegura.
"Estamos em dias difíceis"
André Cunha, presidente da direcção do Âncora-Praia, em declarações ao C@2000, admitiu que "estamos em dias difíceis", com uma das associações mais pobres do país.
E mesmo a nível concelhio, acentua, as ajudas municipais escasseiam, agravado pela pandemia, levando-o a prever "uma época muito complicada", mantendo de momento a equipa sénior, "sem sabermos como vamos acabar", esperando que tanto a Câmara Municipal, como a Junta de Freguesia "nos apoiem, embora ainda "não tenhamos qualquer feed-back" das entidades públicas, o que os forçará a "gerir muito bem este ano desportivo".
Acentuou que são precisamente as duas equipas do concelho que se encontram mais afastadas do centro do poder em Caminha, "aquelas que têm actividade", considerando isso um "sinal de que se trabalha muito bem e que se deveria olhar para o Vale do Âncora de maneira diferente", em comparação com outros clubes como o Venade que parou, ou o Lanhelas sem equipa sénior - apesar de ter um campo municipal, o que diminui as despesas, recordou . Sem esquecer o Caminha que "tem umas condições do caraças mas que nos vetam treinar lá porque alegam que precisam do campo todo para três ou quatro equipas".
"Ponham a mão na consciência"
Insistindo nos apoios que faltam, André Cunha aponta o caso da Câmara de Viana do Castelo que concede um subsídio de 250€ para cada jogo em casa dos clubes desse concelho. Perante este exemplo, o presidente do Âncora-Praia pede à Câmara de Caminha que "chame os clubes e perceba quais são os nossos problemas", entendendo que tanto o Âncora-Praia como o Ancorense não dispõem das mesmas condições do doutros clubes, dando como dificuldades acrescidas a obrigatoriedade de pagarem a água, luz e manutenção, a par de "o Caminha ainda possuir um funcionário camarário, o que representa muito dinheiro ao fim do ano", desabafa.
André Cunha receia pelas dificuldades com que vão deparar nesta época, devido às exigências de controle do vírus, levando-os a medir a temperatura antes dos treinos e jogos e seguir certas regras de entrada e saída dos campos.
Este cube defendeu perante a Associação que se "deveria fazer uma avaliação em Novembro para verificar se o Campeonato deveria começar em Janeiro", caso contrário, nem sequer deveria ter começado já.
"Isto não faz sentido"
A ausência de público nos campos de jogos "não faz sentido, nem é futebol distrital", recrimina André Cunha, quando é permitida assistência nas touradas e fazem festas. Acrescenta em defesa do seu ponto de vista, que nestes campeonatos "os campos nunca estão cheios e a continuar isto, vão acabar com o futebol e com os clubes, porque o que interessa são as equipas grandes".
Faltam os eventos
Se não tivesse surgido o Covid, o Âncora-Praia preparava-se para "apostar fortemente nesta época", mas sem a realização de eventos (Festa da Sardinha, Feira Medieval e a celebração do aniversário no Castelo) e patrocínios - "os quais eram a nossa grande receita, temos que levar o barco como se pode" -, obrigando-os a explorar de uma forma mais acentuada os patrocinadores, o que não sucedia até agora, porque, justificou, "quase que nos financiávamos com os eventos". Reconhece que as empresas patrocinam mais pelo apoio a dar aos clubes ou porque conhecem os seus directores ou fazem despesa lá, do que pelo retorno da publicidade concedida.
Equipa sénior feminina suspensa
Como resultado directo da falta de financiamento, o Âncora-Praia Futebol Clube foi forçado a suspender a equipa sénior feminina nesta época, suportada num orçamento de mais de 20.000€. Contam poder contar com todos os escalões de formação se os campeonatos começarem.
Falou-nos da substituição da iluminação do Paulino Velho Gomes por lâmpadas led, a expensas do clube, advertiu, "o que é triste, estarmos a viver num concelho em que temos feito coisas bonitas no desporto no Vale do Âncora e não sermos valorizados".
"A remar sozinhos contra a maré"
André Cunha adverte que a continuar esta situação, "isto tende a acabar, porque estamos aqui de coração aberto, mas começamos a cansar-nos porque já estamos na direcção há quatro anos".
"Estamos a remar sozinhos contra a maré, quando devíamos estar todos do mesmo lado", apelando ainda a que "apareça mais gente nova na direcção".