"Cemitérios de Caminha. Fragmentos da memória.", da autoria da arquitecta Lurdes Carreira, é a 9ª obra editada pelo C@2000 desde a sua fundação a 28 de Outubro de 2000, privilegiando sempre temas locais e regionais, nas suas vertentes histórica, patrimonial, etnográfica e etnológica.
A apresentação deste livro que transmite a história da criação dos 20 cemitérios do concelho de Caminha nas respectivas paróquias, em finais do século XIX, permite evocar a "memória e identidade destes espaços", bem como destacar a sua monumentalidade, conforme a autora destacou na pequena entrevista que nos concedeu, sintetizando esta sua aposta, cuja edição coincidiu com o período pandémico que atravessamos presentemente, pandemias que, aliás, estiveram na génese da construção dos cemitérios, conforme nos é retratado neste aturado trabalho de pesquisa e compilação da "nossa memória colectiva".
Lurdes Carreira licenciou-se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1983 e obteve o grau de Mestre em História da Arte em Portugal pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2005.
Tem exercido a sua atividade quer como profissional liberal, quer como quadro da Administração Central e Local do Estado, tendo exercido funções de direção como Chefe da Divisão Técnica de Obras e Urbanismo da Câmara Municipal de Caminha (1998-2002), Chefe da Divisão de Estudos Urbanísticos da Câmara Municipal do Porto (2002-2003) e Diretora do Departamento de Planeamento Urbanístico da Câmara Municipal do Porto (2003-2010).
Presentemente é técnica superior na Câmara Municipal de Caminha ligada sobretudo às questões do Ordenamento do Território e Urbanismo. Paralelamente, tem vindo a desenvolver a sua atividade de investigação nas áreas da História e Geografia Local e Regional, Processos de Humanização/Urbanização, Identidade e Património.
Neste âmbito salientam-se os seguintes trabalhos: "Evidências de Retorno?" (2003, Revista de Ciências e Técnicas do Património, FLUP), "Miguel Nogueira: Arquitecto de Transição" (2005, dissertação de mestrado, FLUP) e contribuição em "Santa Luzia — Olhares Plurais" (2015, Confraria de Santa Luzia, Viana do Castelo).
C@2000- Como e quando despertou o seu interesse particular pelos cemitérios?
LC- Nenhum de nós fica indiferente a uma visita ao cemitério, lugar capaz de nos despertar a todos para uma série de importantes reflexões de índole existencial.
Contudo, talvez até por comodismo ou fuga, o meu olhar procurou focar-se noutras leituras que estes espaços também convocam, sobretudo nas que respeitam à vivência coletiva, às comunidades que aí se manifestam. Foi sobretudo a partir do início do meu mestrado em História da Arte em Portugal que comecei a dar mais oportunidade e consistência a esse olhar. Por outro lado, a minha prática como urbanista, a problemática associada à eficiência e sustentabilidade destes equipamentos obrigava-me simultaneamente a uma reflexão sobre o futuro papel a atribuir a estes espaços de encontro e representação coletiva e sobre a necessidade de dignificação que em quase todos se impõe.
Que aspetos específicos quis tratar nesta obra?
Interessava-me salientar as questões da memória e identidade que estes espaços convocam. Gostaria, sobretudo, que o trabalho contribuísse para despertar o reconhecimento destes espaços como fragmentos da memória e, como tal, merecedores da atenção capaz de lhes conferir a merecida dignidade.
Por outro lado, tal como na época do estabelecimento dos cemitérios foram sobretudo os surtos pandémicos que obrigaram a um novo modelo de gestão da morte e dos locais de enterramento (lembremos que os sepultamentos eram até então feitos no interior das igrejas, quando muito nos adros) também hoje a conjuntura atual impõe uma reflexão sobre a possibilidade de um novo paradigma e, inevitavelmente, sobre o papel a atribuir a estes importantes repositórios de identidade.
A que público-alvo pensou dirigir o seu trabalho? Que preocupações teve relativamente à forma de apresentação e, sobretudo, à escrita?
LC— A partir de determinada altura o trabalho começou a atingir uma expressiva dimensão e revelou-se incontornável a quantidade e a qualidade da informação recolhida e o seu interesse para a história local. Por outro lado, a consciência relativa ao imprescindível envolvimento de todos, nomeadamente das populações locais, para a efetiva preservação da memória/património obrigou-nos a determinar o público-alvo a quem interessaria fazer chegar a mensagem. Assim, o trabalho prosseguiu ajustando a sua forma e linguagem de modo a — sem fragilizar o rigor exigível à credibilidade junto de uma comunidade académica — conseguir interessar também um público não erudito.
Que metodologia orientou o trabalho? Que dificuldades sentiu?
A recolha de informação iniciou-se ainda antes de pensar sequer em trabalhar o tema. Ao passar pelos Arquivos (sobretudo o do Governo Civil, Arquivo Distrital e Arquivo Municipal de Caminha) consultados no âmbito do meu trabalho de Mestrado — que abordou a figura de Miguel Nogueira, um arquiteto nascido no concelho de Caminha, em Seixas — logo me fui interessando pelas questões de saúde pública que evolviam o Concelho pelas quais fui passando. De entre estas, destaque se revelava no que respeita ao processo de estabelecimento dos cemitérios. Para além destes Arquivos que referi, houve ainda a necessidade de outras consultas, nomeadamente os Arquivos paroquiais e os das freguesias. Estes últimos deixaram-me bastante preocupada porque a maior parte das freguesias não possuem condições físicas e humanas para o adequado tratamento dos seus arquivos históricos o que faz perigar importante documentação cuja destruição constitui um enorme prejuízo para a história local.
E assim se passaram vários anos (desde 2003) durante os quais foi feita a recolha e sistematização da informação que respeitava aos cemitérios de Caminha e seu estabelecimento, para além de ser simultaneamente lida muita bibliografia temática e de enquadramento histórico da época.
Impunha-se também uma avaliação dos valores arquitetónicos presentes, o que obrigou a um levantamento exaustivo onde a fotografia teve um papel preponderante. No início serviram fotografias de estudo, feitas por mim sem grande qualidade mas quando se começou a pensar na publicação logo o meu amigo João Brás (especialista de fotografia de arquitetura) se ofereceu para tomar a seu cargo o levantamento fotográfico. Fez um brilhante trabalho pelo qual lhe estou muito grata.
Entretanto, tendo em atenção a missão e o trabalho já realizado pelo jornal Caminh@2000, partilhei o meu projeto com o seu diretor que desde logo se mostrou recetivo à publicação e a quem estou muito grata por essa mobilização. E assim, progressivamente, a ajuda e o incentivo de muitos outros amigos conseguiram minimizar as dificuldades encontradas.
De entre os vinte cemitérios de Caminha que estudou salienta-se algum que mais a tenha surpreendido? Porquê?
Não me é possível eleger um cemitério em detrimento de outros. A realidade que envolve cada um deles é única e igualmente interessante e rica. Se um deles se destaca pelo envolvimento exemplar da população no processo do seu estabelecimento, outros se destacam pela rejeição, outros ainda pela sua feição e qualidade dos seus exemplares arquitetónicos e outros pela personalidade invulgar dos seus protagonistas e atores. Só o todo ajudará a caracterizar uma época, uma mentalidade e um estar capazes de traduzir a identidade de Caminha.
Na Conclusão aponta uma mensagem de continuidade…
Para além do que já antes referi como objetivos deste trabalho — salientando-se, sobretudo, a vontade que resultasse como um convite ao questionamento e à reflexão sobre o que se quer para o futuro — gostaria que ele fosse capaz de desencadear um debate alargado a outras perspetivas e áreas do conhecimento, favorecendo uma reflexão sobre a urgência de educar para a morte hoje em dia cada vez mais silenciosa e invisível.
SÍNTESE:
"O universo dos cemitérios de Caminha apresenta-se-nos como uma realidade complexa e rica, documentando uma importante parte do património tangível e intangível do Concelho, assim traduzindo a história local e a memória coletiva, revelando-se essencial para a compreensão da identidade e sentido de pertença da sua comunidade."