É Sábado, 5 de Setembro de 2020. Contrariando os meus hábitos televisivos, por
raramente ser transmitido um acontecimento que me cause tanta expectativa, sou
desta vez atraído pela caixa mágica horas a fio. O tema era muito importante ou não
estivesse em causa a eleição da Romaria de S. João d’Arga a uma das 7 Maravilhas da
Cultura Popular. Cá em casa, todos votamos para que fosse uma das vencedoras. Foi a
victória da religiosidade, da cultura e da tradição do povo serrano que sentirá no peito
um orgulho feliz. A vida que nos foi dada precisa de momentos como este em que
celebrando-se o dia de um acontecimento horrível, o povo o soube transformar num
acto de desafio a todas as tiranias. Quem sofreu ficou vivo para toda a eternidade. A
Romaria de S. João d’Arga atrai milhares e milhares de pessoas, sejam elas ou não
crentes. Quando estão na festa são todas irmãos e irmãs, sendo impressionante assistir,
nos muitos caminhos da Serra, aos ranchos de gente de todas as idades que
caminhando, por chão pedregoso e subidas e descidas ingremes, seguem felizes, de
cajado na mão e saca às costas. E vão cantando e vão rindo abrigando-se com os lenços
se o vento sopra mais forte, ouvindo-se pelas quebradas da serra o som mágico das
concertinas. Conforme os trilhos assim se fazem algumas paragens já tradicionais para
se retemperar o corpo. A Câmara Municipal de Caminha, representada, nesta gala final,
pela figura do Sr. Presidente Dr. Miguel Alves, justiça lhe seja feita, está de parabéns,
por todo o incentivo prestado à candidatura da Romaria de S. João d’Arga ao longo deste
concurso.
Mas, deste célebre dia 5 de Setembro de 2020, é a intervenção do Senhor Padre Paulo
Emanuel Martins Dias que eu desejo destacar. A sua figura simpática e o seu discurso
cativante, apelando a que se votasse na Romaria de S. João d’Arga, foram certamente
fundamentais na conquista de muitos votos: «uma romaria com alma», «que celebra a
alma do povo», num espaço natural marcado pelo «divino», o da bela «Montanha
Sagrada»! Palavras do Senhor Padre que oxalá se revelem apotropaicas contra as
ameaças que assombram a nossa linda Serra d’ Arga e as suas gentes. Foi muito bom
escutar as suas palavras, muito obrigado Senhor Padre.
A imagem que acompanha este texto é de uma pintura da minha autoria, feita em 2019,
a partir de rememorações longínquas da minha infância. Desde criança até já ser
rapazinho, passei por esta estrada de Baralha vezes sem conta no meu trabalho de ir
buscar o leite à Quinta do Doutor Queiroz. A Serra d’ Arga era para mim motivo de
grande mistério de tão distante que me parecia, e também pelos contos, lendas e
histórias fantasistas que escutava acerca dela. Estas caminhadas, quase sempre
solitárias, feitas ao longo das diferentes estações do ano, permitiram-me observar a
Serra d’Arga em todos os seus matizes.