Uma versão livre das obras de Federico Garcia Lorca resultou no "Pequeno Retábulo de Garcia Lorca", baseada no dramaturgo andaluz nascido em Granada, apresentada no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários, por intermédio da companhia Krisálida, residente no concelho de Caminha e apostada em trazer encenações de outros grupos de teatro até ao Alto Minho, como foi o caso desta peça baseada em dramaturgias dos anos 30 do século passado,que o Teatro das Beiras, instalado na Covilhã, teatralizou.
Preparada para representações ao ar livre - tal como Lorca o fazia e disso é exemplo um pequeno filme inícial em que se apreciava o autor e a sua companhia La Barraca em digressão e montando os seus cenários para actuações em praças de Espanha -, o grupo de teatro da Covilhã recreou o seu surrealismo inspirado no teatro de títeres e actuação de actores, em que fizeram sobressair "D. Rosita la soltera" ou o "Retábulo de Don Cristóbal", obrigando a um esforço imaginativo de identificação por parte dos assistentes, o que agradou.
No final, foi estabelecido um diálogo com o público, recolhendo as suas impressões do conjunto de obras de Lorca concentradas por Gil Nave, encenador, havendo oportunidade para avaliar a situação pela qual passa a maioria dos grupos de teatro em Portugal devido à pandemia, a começar pelas dificuldades de ensaio (com o mínimo de contacto entre actores) e impossibilidade de transportar as suas peças às diferentes geografias das Beiras, como o fazem habitualmente (bem ao estilo de La Barraca de Lorca, diga-se).
Carla Magalhães, uma das promotoras da Krisálida (contando com quatro actores fixos e contratando mais alguns qundo necessário), explicou-nos no final da representação os projectos desta companhia caminhense, interrompidos em Março por causa do confinamento, quando ensaiavam "Caldo Verde" e optaram a partir de então por apostar em trabalhos (oficinas de teatro) on-line para crianças, "lançando semanalmente um vídeo "tertulial" em que incluíam os próprios pais.
"Uma marioneta e uma técnica diferentes" absorveram os meses de Abril e Maio, a par de "algumas brincadeiras on-line para nos mantermos activos, porque, na realidade, precisamos de criar". Em colaboração com o Município, "fomos vendo o que estavam a preparar", no seguimento do próprio desafio lançado pelo Ministério da Cultura, acabando por avançar "com uma animação de rua itinerante nas ruas e praias e participando no "Drive-in" de Vilar de Mouros, já no pós-confinamento.
A 19 de Setembro trouxeram o Teatro das Beiras até Caminha - mercê do seu próprio relacionamento com este grupo, onde estagiara -, evidenciando contentamento pela presença de um grupo de espectadores razoável, uma expectativa em que "nós nem sequer sabíamos como o público iria reagir", face aos constrangimentos. Admitiu, no entanto, que as pessoas estavam mais preparadas para apreciar os espectáculos na rua, concluindo que foi um pouco "jogar no escuro" mas "correu bem".
Apesar destas tentativas, "nunca iremos recuperar o tempo perdido", esperando agora "retomar e esperar que não voltemos a ficar em casa confinados", após terem regressado aos ensaios no primeiro dia deste mês, retomando o "Caldo Verde", para que seja possível estreá-lo a 23 de Outubro neste mesmo cineteatro, repetindo-o a 24, e seguindo-se a apresentação no Valadares, em Caminha.
Logo que haja condições, "esperamos retomar as representações nas freguesias habituais e com todas as garantias de segurança", precisou.
Se possível, já em Outubro, as digressões de companhias itinerantes poderão ser reiniciadas e "terminaremos o ano com o nosso Festival de Marionetas (6ª edição)", com a particularidade de o alargar a Vila Praia de Âncora e Vila Nova de Cerveira, neste caso, mercê de um protocolo conseguido com o Município cerveirense.