Seguem-se mais dois depoimentos de naturais deste concelho que vivem ou trabalham num continente longínquo, confrontando-nos com a realidade da sua região e a visão que possuem desta pandemia que afecta de forma diferenciada os diversos interlocutores com quem temos conversado ao longo destes últimos dois meses.
Inês Manuel Gavinho Ramos de Matos e Maria Cândida Gavinho Ramos de Matos (Austrália)
A Austrália era um país que nos faltava nesta ronda pelos continentes deste planeta flagelado por uma pandemia silenciosa ou invisível ao qual o homem ainda não conseguiu pôr termo.
Os caminhenses, não fugindo à regra da generalidade das gerações de portugueses, encontram-se disseminados por inúmeros países, apenas nos faltando apurar se haverá algum na Antártida - caso se considere esta parte do globo um continente.
No Oceania, fomos encontrar duas irmãs de Caminha, residindo com seus pais em Sidney, Austrália, com nove horas de diferença horária em relação a Portugal. Ambas fizeram questão de falar para o Caminh@2000.
Inês Manuel Gavinho Ramos de Matos, 20 anos, e Maria Cândida Gavinho Ramos de Matos, 29 anos, ambas de Caminha, encontram-se neste momento na Austrália por razões diferentes.
Maria Cândida nasceu na Austrália mas veio para Portugal aos dois anos. Aqui fez os seus estudos até ao 9º ano, trabalhou em Caminha, e regressou há três anos com seus pais ao país de origem, embora toda a sua família tenha raízes neste concelho. Faz limpezas, depois de ter trabalhado num restaurante português chamado "Frangos", mas "decidi ir trabalhar com minha mãe nas limpezas".
Retida pela pandemia
A Inês considerou que "sou um caso à parte" neste processo australiano, "porque tenho o meu namorado em Portugal". Passados três meses de chegar à Austrália "regressei a Portugal" onde permaneceu cerca de dois anos a trabalhar numa unidade hoteleira de Caminha, até que veio visitar a família a Sidney no final ano passado, com a intenção de permanecer entre três a seis meses, "só que com isto da pandemia acabei por ficar aqui presa e estou a aguardar por uma viagem e não sei quando regressarei a Portugal". Acrescentou que a viagem para Portugal "depende de outros países porque não há voos internacionais desde Lisboa".
Assim que começou a circular na comunicação social australiana de que uma pandemia poderia assolar o país (Abril/Maio), "começaram a fechar os supermercados e lojas, e os próprios transportes públicos, muito utilizados aqui", sublinhou Maria Cândida, "passaram a andar vazios, o mesmo sucedendo com os centros comerciais, sem que fosse necessário decretar um estado de emergência e ordenar que não fossem trabalhar".
Referiu ainda que se vê bastante a utilização de máscaras de protecção e luvas e "nos próprios centros comerciais existem recipientes para desinfecção das mãos". Comboios e outros transportes públicos possuem indicações precisas onde os passageiros se podem sentar, apenas se verificando algum esquecimento na manutenção das distâncias sociais.
"Receio" durou cerca de um mês
Este fase inicial de "receio" perante o que pudesse suceder durou cerca de um mês, referiram estas duas caminhenses, período em que muita gente e empresas deixaram de trabalhar e algumas escolas encerraram.
O trânsito aéreo de passageiros parou totalmente, impedindo a propagação do vírus com proveniência do exterior, com excepção das mercadorias. Os cruzeiros apenas funcionaram nos mares australianos, completaram.
Pedindo-lhes uma apreciação ao comportamento do povo australiano perante esta pandemia, Inês admitiu que "aqui há de tudo", apesar de a televisão incutir bastante a tónica do "medo" para que as pessoas tivessem cuidado. Esta atitude teve bastante efeito nas pessoas com mais de 60 anos e na comunidade chinesa, mas as crianças, adolescentes e jovens não usam muito as máscaras, as quais não são obrigatórias, mas apenas recomendadas.
Exercício físico e passeio
Um facto curioso registado na Austrália, foi a presença de muita gente em pleno período mais crítico da pandemia "fazendo exercício físico nos parques e passeando com os filhos", seguindo os próprios conselhos do Governo, a fim de "evitar depressões se ficassem em casa".
Contudo, de há uma semana para cá, "é tudo ao molho e fé em Deus quando fomos ao shopping ", o que espantou Inês e sua irmã quando lá foram, "sem se preocuparem com o distanciamento social, nem com o uso de máscaras, incluindo as mesas dos restaurantes, totalmente cheias, quando elas tinham sido retiradas no início da pandemia", acrescentaram. Insistindo ainda no manuseamento total da fruta e hortaliças por toda a gente, "o que dá medo". Somente as funcionárias das caixas estão protegidas por acrílicos.
Poucos casos mortais
Segundo circulou nos últimos dias aqui pela Europa, teria havido um recrudescimento de casos na Austrália - um país onde nunca foram muito significativos, registe-se, e em que as mortes oficiais rondaram as 100 -, mas estas duas irmãs não confirmaram estes dados na zona de Sidney (South Wales), mas sim em Melbourne, estado de Vitória, devido a um surto num matadouro que se propagou à comunidade e obrigou à intervenção do exército para controlar o movimento das pessoas, segundo apuramos.
Esta família acompanha com particular atenção o que se passa em Portugal, onde "houve muitos mais casos do que aqui", referiram, atribuindo este sucesso australiano a terem encerrado todo o tráfico aéreo de passageiros, sem necessidade de imporem quarentenas, recolheres obrigatórios e utilização de máscaras, insistindo que as autoridades australianas optaram por "alertar as pessoas para fazerem o que achassem melhor".
Máscaras detestadas
Perante a opção dada à população, perguntamos-lhes o que fizeram: A Maria Cândida usou máscara durante um dia para verificar se se habituava "mas é horrível, não consigo respirar", desabafou, levando-a a interrogar-se "como é que os profissionais de saúde conseguem aguentar aquilo todo o dia, bem como muitas mais pessoas". A Inês teve de sair no dia anterior à rua, mas "como tinha uma amigdalite e não queria apanhar ar, coloquei uma máscara mas quando cheguei ao comboio tive de a deitar fora porque estava quase esganada". Apenas o desinfectante as acompanha sempre que saem, completou.
Sua mãe e irmã tiveram de ir trabalhar para casa de uma senhora que as obrigou a levar máscaras, mas foi a única vez que o fizeram.
A prática do botellon e a venda de álcool na rua estão proibidos há muito, pelo que os ajuntamentos públicos de jovens durante a noite estão resolvidos, restando-lhes fazer festas em casa.
Contaram-nos que a presença de banhistas nas praias se mantém, embora este não seja a época do ano ideal para este tipo de turismo, por ser Inverno (os termómetros marcavam 17 graus).
"Já não estão a levar isto muito a sério"
Os contactos com familiares e amigos residentes em Portugal são regulares, confirmaram-nos estas duas irmãs, dando como exemplo uma prima que lhes disse que "isso aí estava um caos", com muitas lojas a fechar, sem ninguém na rua, situação que começou a alterar-se ultimamente, "vendo-se mais gente, embora com máscara". Mas, sublinharam, "outras pessoas no nosso país referem que já não estão a levar isto muito a sério", dando o exemplo de um homem que se pôs a gozar com a pandemia numa loja, em Caminha, começando a tossir e a dizer que toda a gente que se encontrava no local ficaria contaminada.
Não se pronunciaram sobre o sistema de saúde australiano, porque "ainda não precisei dele", referiu Maria Cândida, com excepção de uma vez em que teve de recorrer a uma clínica privada, mas sabe que há também hospitais.
"Viajar fora, mas dentro"
A Austrália é um país com forte predominância turística, embora esta actividade esteja praticamente paralisada. Segundo se apercebem, a aposta para os próximos meses é aconselhar os habitantes a "viajar fora, mas dentro", acompanhando aquilo que parece ser uma regra em muitos outros países (incluindo Portugal).
"Muitas vagas de calor"
Outra das preocupações australianas são os fogos florestais que ainda há bem pouco tempo se tornaram num cataclismo para a população, economia, meio ambiente e fauna autóctone.
Inês teme que isto volte a acontecer devido "a muitas vagas de calor" nos períodos quentes, assinalando ser habitual temperaturas de 30 graus à noite, recordando que numa ocasião, subiram a 40 graus, formando-se uma nuvem intensa de fumo e cinzas que "se pegavam nas roupas a secar" em Sidney.
"Tudo voltará ao mesmo ou pior"
A terminar, perante aquilo que a população mundial poderá pensar das razões desta pandemia e das consequências das mudanças climatéricas, estas duas irmãs caminhenses receiam que "tudo voltará ao mesmo ou pior, embora possa mudar uma coisa ou outra", porque, justifica Inês Matos, "o ser humano é uma coisa assim fora do normal e o que se vê no mundo é muito triste, em termos de racismo, poluição, bebés e extermínio de animais indefesos - e foram tantos os coalas e cangurus, que morreram queimados, por exemplo".
Completando o seu pessimismo perante a impossibilidade de mudar muita coisa, dá como exemplo esta pandemia, em que "as pessoas, na hora, dão valor, dizendo que têm que ficar em casa para cuidar dos nossos familiares, mas, depois, sentindo-se melhores, vai ser tudo novamente à balda".
"Quem está por detrás disto dá a volta ao mundo"
E acredita que novas pandemias se seguirão, porque "quem está por detrás disto dá a volta ao mundo", como sucedeu neste 2020 que "começou da pior maneira", apontando os casos do Trump, da bomba em Londres, os incêndios na Austrália, agora o vírus e o negro que mataram, "e o que se vai seguir", sem necessitar de falar da desgraça do Brasil ("Sim, sim!", exclamaram tristemente em uníssono).
A Maria Cândida Matos gosta de viver na Austrália (nomeadamente das praias), mas as saudades do(a)s amigo(a)s são muitas e "mando-lhes muitos beijinhos".
Mas a vida é assim, desabafa: "aqui trabalha-se, mas ganha-se".