Seguem-se mais dois depoimentos de naturais deste concelho que vivem e trabalham em continentes distintos, confrontando-nos com a realidade da sua região e a visão que possuem desta pandemia que afecta de forma diferenciada os diversos interlocutores com quem temos conversado ao longo destes últimos dois meses.
Bárbara Eli Gomes Barroso (Itália)
Carlos Manuel Fernandes da Cunha (Argélia)
Bárbara Eli Gomes Barroso
Bárbara Eli Gomes Barroso, natural de Riba d'Âncora, é empresária na área do turismo e habita no Vale de Aosta, no noroeste de Itália, nos Alpes Ocidentais, Monte Branco, perto da fronteira com a França e Suíça.
Casou com um italiano ligado a projectos de arte e veio viver para a Itália há quase 10 anos, dedicando-se a alugar as suas casas de montanha a turistas estrangeiros, no que é acompanhada pelo seu marido.
Ao falar-se dos Alpes italianos, como que um arrepio percorre a nossa espinha, associando-se imediatamente ao forte surto pandémico que se terá iniciado nesse ponto de Itália, nomeadamente na região da Lombardia. Contudo, apesar de alguma proximidade (distando cerca de 200 quilómetros de Milão e Bérgamo), a situação na zona onde Barbara Barroso vive e trabalha foi diferente.
"Aqui não houve praticamente casos, ao contrário do sucedido na Lombardia onde houve o principal foco", atribuindo a diferença registada entre uma região e outra, ao facto de na zona de Milão habitarem 10 milhões de pessoas, "o que não se pode comparar com a zona onde eu vivo", com os 128.000 habitantes da região autónoma do Vale de Aosta.
72% de casos letais de pessoas idosas nos lares
Uma população muito envelhecida na Lombardia, com uma grande percentagem de idosos a viver em lares, concitou condições propícias para a tragédia que se verificou, em que 72% dos falecidos registados em Itália residiam em casas de repouso, confidenciou-nos. E muitos iodos morreram sozinhos.
Ao contrário, na sua região, houve duas ou três mortes de pessoas mas associadas a outras patologias, porque "como causa única do Covid, não houve nenhuma".
Trânsito completamente cortado
Questionada sobre medidas eventualmente tomadas pelas autoridades italianas para que a pandemia não se propagasse a outras zonas, frisou que este país transalpino foi dos primeiros a aplicá-las. Deu como primeiro exemplo o do seu filho, que a partir do dia 5 de Março "veio para casa e não voltou mais à escola". Foram fechadas as fronteiras dos dois lados, com a França, pelo lado do "Mont Blanc", em Chamonix, e com a Suíça, com particular ênfase para a designada "zona vermelha", em referência à Lombardia e onde estão igualmente os aeroportos.
Acrescentou que apenas se podia deslocar para ambos os lados das fronteiras quem possuísse uma "certificação por motivos de doença ou trabalho".
"População de Vale de Aosta tranquila"
A despeito do que estava a suceder a escassos duzentos quilómetros do Vale de Aosta, "a população estava bastante tranquila, porque sabíamos que o maior foco era ali". Atribuiu vários factores "adicionais" para esta situação, como a "poluição atmosférica, a contaminação microbiana" ao que se associou "o colapso dos mais idosos nos lares" e o abandono a que foram deixados muitos deles.
"Histeria colectiva" agravou
Referiu que o presidente da sua região impediu que se registasse "a disseminação do pânico", ao evitar que os telejornais locais "difundissem notícias muito alarmantes sobre o que se passava ao lado", porque, prosseguiu, "como se veio depois a saber, o medo matou muito mais do que o vírus", atendendo a que "houve muitas pessoas a deixarem de ir aos hospitais ou comprar remédios". Considerou mesmo um "flagêlo" esta situação, ao abdicarem de fazer ou seguir os seus tratamentos normais nos hospitais.
Mas, a "histeria colectiva" gerada pela onda de pânico foi de tal maneira intensa que "na Itália", neste período, consumiram-se "mais de cinco milhões de ansiolíticos e antidepressivos".
Italianos deslocaram-se para zonas menos afectadas
Bárbara Barroso confirmou que logo que os italianos se aperceberam de que iriam ficar obrigados a permanecer em casa, muitos estudantes - nomeadamente estes - que estudavam na Lombardia, regressaram apressadamente para as suas terras de origem no sul de Itália ou na província, onde o confinamento seria muito melhor de suportar do que "no meio do caos de uma cidade com 10 milhões de habitantes", como era o caso de Milão, em apartamentos pequenos e sem luz solar. O mesmo fizeram todos aqueles que possuíam segundas casas, mesmo na Toscana, onde o vírus não estava tão activo.
O teletrabalho foi o método utlizado igualmente pelos funcionários públicos e professores na Itália. Outras empresas de grande dimensão também encerraram, colocando os trabalhadores a receber subsídios de 1.000€ e de alimentação e para apoios para material escolar (computadores).
No período actual de desconfinamento, os apoios financeiros mantêm-se para quem não se encontra ainda a trabalhar, a par desses apoios servirem para que os italianos façam férias internamente ("bónus férias") e, dessa forma, apoiar o sector turístico fortemente atingido por esta pandemia.
Turismo estrangeiro desapareceu
Conforme já nos tinha referido, o turismo estrangeiro era o ponto forte da sua actividade nesta região, classificada "como de uma zona de trânsito", dando como exemplo os franceses e suíços que se dirigem para zonas de praia. Neste percurso, "os franceses acabam sempre por passar aqui uma semana", na montanha mais alta da Europa, precisa, classificando esta região como "uma Meca do turismo internacional".
A par dos turistas europeus, Bárbara Barroso aluga as suas casas de férias a muitos visitantes da Austrália, Japão ou EUA. Para esta época de verão, já a partir deste mês, "tinham tudo reservado, mas desmarcaram tudo", dando como exemplo um casal australiano com reserva para o mês inteiro, mas que foram obrigados a desistir por falta de voos aéreos e da pandemia.
Verão atípico com turistas italianos
No entanto, nem tudo foi mau "neste verão atípico", como o classificou esta ribancorense que apostou no turismo nesta zona dos Alpes.
"Vai ser o primeiro ano em que vamos ter um turismo 100% italiano", o que "acaba por compensar", admite. Os italianos mudaram as suas rotas turísticas, optando "pelo ar puro e onde as pessoas podem sair sem medo, passeando pelas montanhas e fazendo caminhadas o que é muito mais saudável".
As zonas mais afectadas pelo vírus deverão ser penalizadas, embora os últimos dados do Instituto Nacional estejam a possibilitar um aligeirar de medidas de contenção, nomeadamente nas praias, pormenoriza esta empresária portuguesa do ramo hoteleiro. Esses indicadores revelarão que do ponto de vista clínico, "esta gripe é quase nula", contribuindo para que as pessoas saiam e ganhem mais confiança.
Apoios com juros não ajudarão à recuperação económica
Pedindo-lhe uma opinião sobre as medidas de apoio que a União Europeia poderá vir a conceder aos seus membros, nomeadamente aos países mais afectados pela doença ou com economias mais periclitantes, avança que a Itália encontra-se praticamente na bancarrota, com grandes empresas fechadas e "vendo-se já muitas pessoas a pedirem ajudas ao banco alimentar na Lombardia - o que não era habitual na Itália, com excepção das zonas mais pobres".
Frisou ainda que as restrições ao funcionamento dos pequenos comércios não permite que a retoma da sua actividade seja compensada, levando a que muitos encerrem definitivamente. Assim, duvida que a recuperação económica seja possível se os apoios a conceder aos estados contemplarem o pagamento de juros. Se isso acontecer, Bárbara Barroso teme que os impostos recaiam sobre os cidadãos e "iremos passar um mau bocado".
Igreja Católica colaborou
As decisões tomadas pela Igreja Católica, suspendendo os actos de culto colectivos, e optando por transmiti-los pela televisão e internet, foi valorizado por esta caminhense, ao "permitir o cumprimento das normas".
Aproveitou para comentar alguns actos públicos levados a cabo em Portugal, como as comemorações do 25 de Abril e 1º de Maio, em contraste com as opções italianas, em que nem o 25 de Abril deles, representando a vitória sobre o fascismo e o fim da II Grande Guerra, foi celebrado. Apenas depois das orientações dadas pelo Governo é que as pessoas começaram a sair.
Grande comunidade chinesa na Lombardia
A discussão sobre a proveniência do vírus, também em Itália não oferece muitas dúvidas. Esta ribancorense admite como muito provável a sua origem na China, dando como exemplo a existência de uma grande comunidade chinesa na Lombardia, precisamente onde surgiram os primeiros casos de infectados.
A possibilidade de haver um novo surto o vírus, "é um assunto do qual já não se fala cá", adiantou-nos, baseada nas declarações feitas no passado dia 23 por um virulogista italiano famoso, o Professor Clementi, no telejornal da noite, ao dizer que "do ponto de vista clínico, o vírus já não existe, o que se tornou um alívio", vincou.
"Aqui foi muito duro"
De modo a não disseminar mais o medo, "já não se fala numa segunda leva", atendendo a que o país foi muito fustigado por esta crise, acrescentou.
Reconheceu que o período de confinamento a que a sua família foi submetida, não podendo exceder um quilómetro de distância da sua casa, "não no afectou praticamente nada, porque já vivíamos isolados na montanha", incluindo seu filho que podia brincar com crianças vizinhas. Nunca faltaram géneros alimentares, os supermercados funcionaram sempre.
"Em Portugal era o chamado milagre"
Como é evidente, estes portugueses acompanharam com regularidade a evolução da doença no nosso país, aquilo que os italianos consideraram "o chamado milagre", em comparação com a situação italiana, levando os italianos a falarem do "sucesso" português em comparação com os outros países da Europa do Sul.
O optimismo italiano leva-os a acreditar que "não será precisa uma vacina e que o vírus já se tenha tornado endémico, estimando-se que 80% da população já esteja infectada com assintomáticos", podendo existir já uma imunidade de grupo".
Contrastes inexplicáveis
Bárbara Barroso, comentando o número de falecimentos devido a este coronavírus, conclui que nem foram assim tantos, tendo em conta os gráficos existentes ao indicarem que "este ano, morreram menos 20.000 pessoas do que no ano passado no mesmo período, o que é uma coisa que a comunidade científica não consegue explicar, para o que contribui o facto de esta doença ser muito nova e atípica". A par de terem havido zonas "tão fortemente fustigadas e outras com zero casos a 20 km de distância".
Insistindo neste fenómeno inexplicável, reforçou que na Lombardia, a 10 km de distância não existia uma única pessoa infectada e passada essa fronteira, já havia".
Há quem aponte o facto de terem sido vacinadas cerca de 200.000 pessoas para a gripe na Lombardia no ano passado (Outono), "impediu que os sistemas imunitários dos humanos combatessem eficazmente este novo vírus" e acabando por serem mais facilmente contaminados.
"Grande confusão"
Com todas estas teorias, esta ribancorense admite existir "uma grande confusão" que baralha as pessoas, desde que começou o confinamento na Itália a 5 de Março, mas "permitiu-nos estar em estados muito mais avançados para tentar perceber o que se passou", embora prevaleça a ideia de que "este vírus veio para viver num ambiente endémico como uma gripe e o ser humano vai ter que se habituar a combatê-lo".
Os contactos com seus familiares em Portugal são frequentes, e "estão todos bem", para o que contribuiu estarem numa zona tranquila como é Riba d'Âncora e a generalidade do concelho de Caminha. Deu como exemplo a sua avó, com 99 anos, moradora perto da Capela de Stº Amaro, que "quase no início da crise, por alturas de Abril, teve de ser assistida no hospital mas não apanhou o vírus", felizmente.
Vir a Portugal em Julho
A vinda a Portugal, para esta conterrânea, além de ser uma vontade, torna-se uma necessidade porque "tenho o meu cartão de cidadão a caducar em Julho". Tentou vir em Março mas já não conseguiu voos. Tentou novamente este mês, mas sucedeu o mesmo porque "há poucas companhias a operar". Agora, acredita que lhe será possível visitar a família.