Um país que ao longo da sua história se habituou a ver os seus filhos dispersar-se por vários pontos do mundo, depara-se na actualidade com muitos milhões, nascidos cá mas que emigraram ou descendentes de várias gerações, confrontados com um vírus que pôs à prova a resiliência dos serviços nacionais de saúde (onde os há) e provocou nova crise económica mundial.
O C@2000 tem vindo a publicar depoimentos das experiências de caminhenses, naturais ou aqui residentes em determinados períodos das suas vidas, a viverem em diferentes países e continentes, como sucede na edição desta semana.
Inês Lima e Lemos Guedes Lousa (Macau)
Marco Leitão Silva (Inglaterra)
Marco Leitão Silva (Inglaterra)
Da Inglaterra surgiu um depoimento sobre o momento actual nesse país e que se integra num contexto diferente de todos os outros que recolhemos até hoje.
Marco Leitão Silva tem 32 anos, nasceu no concelho de Viana do Castelo, é jornalista, e como tal, há regras deontológicas que pretende preservar.
Mesmo assim, acedeu a responder por escrito a uma série de questões que lhe colocamos, confirmando ainda através do curriculum que elencou, todas as qualidades que já revelava enquanto estudante na C+S de Caminha, e quando já apostava na área da comunicação social.
P: Podes fornecer alguns dados sobre a tua ligação ao concelho de Caminha, percurso escolar e profissional?
R: A minha ligação ao concelho de Caminha é profunda. Sempre tive família a residir aqui e boa parte da minha educação foi feita no concelho.
A minha passagem pela EB 2,3/S de Caminha deixou-me cheio de boas memórias e, graças ao acompanhamento de alguns professores que me marcaram, preparou-me para tudo o que veio a seguir na minha vida.
Estudei Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (IPL) em Lisboa. Escolhi o curso de Jornalismo porque sempre vi a profissão como uma oportunidade de conhecer o mundo: uma profissão extremamente criativa que me permitiria explorar outros países, ideias, e culturas.
Quando terminei o curso, comecei a minha carreira como jornalista ainda em Portugal, primeiro ao serviço do Rádio Clube Português e mais tarde do SAPO.PT. Foram experiências que me permitiram começar a explorar a profissão e que me abriram o apetite para outros voos.
Sempre quis fazer jornalismo internacional e, por isso, senti nessa altura que explorar outro país me pudesse talvez abrir portas. Decidi então mudar-me para Londres onde fiz um mestrado nessa mesma área (City University of London).
Quando terminei o mestrado, comecei a trabalhar para a BBC como produtor de rádio.
Desde então, viajei por todo o mundo (desde os Jogos Olímpicos do Rio, aos campos de refugiados no Líbano, passando por escolas no Uganda) a cobrir alguns dos principais acontecimentos que marcaram a última década (a eleição de Donald Trump, o ataque ao Charlie Hebdo, o referendo da Brexit).
Actualmente, sou repórter de investigação na equipa "BBC Trending": essencialmente, somos a parte da BBC que faz jornalismo de investigação sobre histórias ligadas às redes sociais, à internet, e à tecnologia de forma geral.
A minha equipa - BBC Trending - produz um programa de radio semanal. As nossas maiores investigações são também transformadas em peças de televisão, peças de texto, e outros conteúdos digitais. É o que acontece regularmente com as minhas histórias.
P: Quais os assuntos que investigaste recentemente e como te sentes nesta área tão exigente?
R: Nos últimos meses, investiguei: a alegada interferência da Rússia nas últimas eleições britânicas; a resposta inadequada da rede social TikTok; a proliferação de predadores sexuais na plataforma e a forma como o YouTube foi instrumental na proliferação de teorias da conspiração.
Adoro o trabalho que faço: tendo em consideração que vivemos numa era digital, acredito vivamente que o jornalismo que faço - que coloca questões sobre estas mudanças, que investiga esta nova realidade, que desafia estes novos consensos - é fundamental para a nossa sociedade e democracia.
P: Quantos trabalhadores possui a BBC?
R: No edifício da BBC onde trabalho, há (em condições normais) 6 mil trabalhadores e em todo o mundo existem 22 mil.
P: Como tem sido o teu trabalho nestes tempos de pandemia?
R: Desde que a crise do coronavírus começou, tenho trabalhado a partir de casa. Felizmente, o trabalho que faço não me obriga a ir ao escritório. Tenho continuado a explorar histórias, mas é claro que (com grande pena minha) não posso encontrar-me fisicamente com potenciais entrevistados ou fazer qualquer tipo de viagem. Fora isso, continuo a produzir programas de rádio e peças de texto para a BBC.
P: Consegues conciliar a actividade jornalística com a vida familiar?
R: Equilibrar emprego e vida familiar quando se está fechado em casa nem sempre é fácil. Mas, é claro que tenho muita sorte em poder manter o meu emprego apesar das consequências económicas que esta crise já está a ter. Não me posso queixar da minha situação, tendo em consideração as pressões extremas que milhares de famílias estão neste momento a enfrentar (tanto em Portugal como aqui no Reino Unido).
P: Tens ideia do primeiro caso do coronavírus no Reino Unido? E quais os números actuais?
Não me recordo exactamente do primeiro caso de coronavirus aquí no Reino Unido, mas creio que - de início - não me preocupou demasiado. Pensei (erradamente, como optimista que sou) que seria fácil conter algo deste género. Acho que se tornou óbvio que o pior estava ainda para vir quando comecei a ler histórias e reportagens sobre a situação em Itália.
De momento, há 267 mil casos confirmados de coronavirus e 37460 mortes. Isto são dados oficiais do governo britânico: https://coronavirus.data.gov.uk/
P: Como comentas o elogio do primeiro-ministro britânico ao enfermeiro português que o tratou? Achas que isso aportará algo de positivo no relacionamento (económico) entre os dois países?
R: Recordo-me do discurso do PM britânico quando saiu dos cuidados intensivos e da referência que fez ao enfermeiro português. Tendo em consideração a contribuição que os emigrantes portugueses deram e têm dado ao serviço nacional de saúde britânico (o famoso NHS), como português, fiquei naturalmente orgulhoso ao ouvir esse reconhecimento por parte de Boris Johnson.
Duvido que tenha maiores repercussões económicas na relação entre os dois países, mas mal nunca pode fazer.
P: Quais as medidas actuais do Governo britânico?
R: De momento, o governo britânico está a relaxar as medidas de isolamento. No início de Junho, parte das escolas primárias vão reabrir. Comércios não essenciais vão voltar a abrir em meados de Junho.
Quem pode trabalhar a partir de casa, tem sido encorajado a fazê-lo. Quem não pode já começou a regressar ao trabalho. Ainda assim, as regras são claras: contacto social tem de ser limitado (sobretudo em transportes públicos) e continua a ser necessário manter uma distância de dois metros entre pessoas.
P:Como reagiu o povo inglês no início da crise?
R: No início desta crise, houve algum pânico entre consumidores: famílias que fazem as compras online começaram a ter dificuldade em marcar entregas; nos supermercados, vários produtos desapareceram das prateleiras (papel higiénico, gel desinfectante, farinha); viram-se longas filas à porta dos supermercados. De momento, embora os stocks ainda estejam a ser repostos, acho que os supermercados conseguiram lidar com toda a pressão adicional (e súbita) a que foram sujeitos. Pessoalmente, não sinto que essa escassez me tenha afectado muito.
P: Como tem evoluído o uso das máscaras na Inglaterra, face às hesitações verificadas noutros países?
R: O uso de máscaras não é obrigatório. Mas o governo aconselha o seu uso a todos aqueles que tenham de usar transportes públicos e que têm de partilhar espaços onde o distanciamento social (2m) é difícil de manter. Eu comprei uma, mas como só tenho saído de casa para dar caminhadas (para esticar as pernas e apanhar ar fresco), ainda não tive necessidade de a usar.
P: O problemas dos lares não foi excepção no Reino Unido. Com tem sido enfrentado o assunto?
R: Combater o coronavirus nos lares continua a ser um dos maiores desafios que o governo tem de enfrentar (cerca de um quarto de todas as mortes ligadas ao coronavírus no Reino Unido aconteceram em lares).
P: E os restaurantes? Já se encontram abertos?
R: Os restaurantes estão a abrir lentamente, mas apenas em regime de take away e entrega a casa.
P: Depois de todas as contradições das autoridades britânicas no combate à pandemia, como é que a população aprecia a sua actuação?
R: De acordo com algumas sondagens de opinião, o governo britânico teve durante boa parte desta crise o apoio dos eleitores - mas, atendendo ao que os jornais dos dois últimos dias têm escrito, essa popularidade tem sofrido uma baixa por causa da controvérsia que envolveu Dominic Cummings, o principal conselheiro do PM.
P: Que consequências para a economia britânica?
Tal como na maioria das economias europeias, espera-se que as consequências económicas desta pandemia sejam fortíssimas também aqui no Reino Unido. A despesa pública disparou com todas as medidas que foram tomadas para minimizar o impacto imediato da pandemia - mas é claro que todas estas medidas vão ter de ser pagas de alguma forma. Se isto significa ou não mais austeridade dentro em breve, ninguém sabe ao certo...
P: Tens uma ideia formada sobre a origem do vírus?
R: A Organização Mundial de Saúde sugere uma origem clara do coronavírus: o vírus terá sido transportado por animais existentes num mercado em Wuhan, na China.
P: As sociedades vão mudar depois desta pandemia passar?
R: Sim, acredito que esta pandemia vai ter efeitos nas nossas sociedades e que vão ser sentidos durante décadas. De um ponto de vista económico, a recessão e o desemprego são praticamente inevitáveis na maioria dos países ocidentais. De um ponto de vista cultural, acho que a forma como trabalhamos vai mudar para sempre (afinal de contas, muitas pessoas compreenderam finalmente que trabalhar a partir de casa é possível e até melhor para a sua saúde). De um ponto de vista ambiental, acho que ficou claro que um mundo menos poluído, com menores emissões de carbono é possível.
P: Acompanhas com regularidade a situação em Portugal?
R:Tendo família em Portugal, continuo obviamente a acompanhar com grande atenção a forma como o meu país tem lidado com o coronavírus. Leio as notícias e falo com família/amigos. Em comparação com o Reino Unido - e de um ponto de vista estritamente estatístico -, Portugal parece ter lidado bem com estes primeiros meses de coronavírus, mas creio que ainda é cedo para se baixar a guarda. Essa é a mensagem que vou passando para a minha família, sempre que falo com eles.
P:Como jornalista, deve inquietar-te a quantidade de informações contraditórias ou mesmo falsas sobre este vírus. É assim?
Uma das áreas que tenho seguido como repórter, tem que ver com a desinformação ligada ao coronavírus (e há tanta a circular pelas redes sociais!). Por isso, acho que o único conselho que me sinto suficientemente qualificado para deixar será mesmo: a melhor informação sobre esta pandemia vem de entidades de saúde pública e de órgãos de comunicação social com reputações respeitáveis. Não confiem cegamente naquilo que vos enviam pelo WhatsApp, naquilo que lêem no Facebook, naquele vídeo estranho que viram no YouTube. Na situação em que nos encontramos, informações de má qualidade (ou distorcidas) podem custar as vidas daqueles que nos rodeiam. Por isso, estejam alerta e questionem aquilo que lêem.
P: Quando poderás regressar a Portugal? E qual a primeira coisa que farás?
R: Não sei bem quando poderei voltar a Portugal, dadas as restrições atuais no que diz respeito a viagens ao estrangeiro. Mas sei que mal posso esperar por voltar a tomar um café em frente à praia em Moledo ou ver um pôr-do-sol junto à Foz.