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A crise pandémica vista e contada por quem vive noutras latitudes

Um país que ao longo da sua história se habituou a ver os seus filhos dispersar-se por vários pontos do mundo, depara-se na actualidade com muitos milhões, nascidos cá mas que emigraram ou descendentes de várias gerações, confrontados com um vírus que pôs à prova a resiliência dos serviços nacionais de saúde (onde os há) e provocou nova crise económica mundial.

O C@2000 tem vindo a publicar depoimentos das experiências de caminhenses, naturais ou aqui residentes em determinados períodos das suas vidas, a viverem em diferentes países e continentes, como sucede na edição desta semana.

Inês Lima e Lemos Guedes Lousa (Macau)

Marco Leitão Silva (Inglaterra)

Inês Lima e Lemos Guedes Lousa (Macau)

Uma jovem psicóloga clínica apanhou o princípio da pandemia lá bem longe, no continente asiático, onde esta peste começou e se propagou a todo o planeta, com maior ou menor virulência, para o que também contribuiu a forma como os povos e os seus governantes a encararam e enfrentaram.

Inês Lima e Lemos Guedes Lousa, 35 anos, nasceu em Viana do Castelo, e tirou o curso de psicologia clínica no ISPA. Estudou em Caminha do 9º ao 12º ano, no Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, e viveu em Vilarelho durante cinco anos, freguesia a que regressou em princípios de Março de 2020, proveniente de Macau (antigo território português durante séculos, agora região administrativa autónoma da China), onde viveu e trabalhou nos últimos quatro anos.

Esta psicóloga já tinha permanecido em Macau com seus pais, enquanto criança durante cinco anos, voltaram a Portugal mas sempre teve esperança em regressar. Quando terminou o curso e já trabalhava em Monção, surgiu a oportunidade de ir para o Oriente, o que não desperdiçou.

"Tudo muito rápido em Macau"

Em Janeiro começaram logo a ser tomadas medidas em Macau, perante o surto viral registado a algumas centenas de quilómetros, na cidade chinesa de Wuhan. Relatou-nos que toda a gente começou a usar máscaras, inclusivamente na rua, porque é grande a circulação de pessoas e o distanciamento é praticamente impossível. Revelou ter sido "fácil e rápida" esta adaptação, atendendo inclusivamente ao hábito existente neste território, em que quando se tem uma constipação ou gripe, as pessoas utilizam imediatamente máscaras para protegerem os demais.

Recordou que em Janeiro (dia 22) celebra-se o Ano Novo Chinês, "a festividade mais esperada da China e altura em que os chineses viajam para todo o lado", razão da expansão da pandemia e "obrigando a proibir tudo" de uma forma quase imediata, "assim que foram detectados os dois primeiros casos" em Macau, depois de já haver informações de que "a coisa estava a ficar complicada em Wuhan".

"Foi uma medida a sério"

Como forma de evidenciar a gravidade da situação, as próprias autoridades macaenses "fecharam os casinos", coisa nunca vista durante os períodos em que viveu neste enclave, inclusivamente quando foram fustigados "por tufões de categoria máxima", equivalendo a dizer que "Macau fechou completamente".

Departamentos do Estado, escolas, lojas, incluindo todas as fronteiras, foram de imediato encerradas.

No último avião

Perante este cenário, Inês Lousa decidiu regressar a Portugal, tendo conseguido passagem de autocarro desde Macau até Hong-Kong no último transporte, a fim de apanhar aquele que seria também o derradeiro voo para Lisboa, mesmo no último dia em que as fronteiras ainda estavam abertas. Como pormenor desta viagem apressada até à Europa, contou que já tinha adquirido o bilhete de barco até Hong-Kong (em Macau não há aeroporto), mas quando chegou ao cais a fronteira tinha acabado de ser fechada, tendo-lhe sido devolvido o dinheiro do bilhete e apanhando de seguida o último autocarro para a antiga colónia inglesa.

"Chineses muito regrados"

Comentando a forma como os chineses encararam as medidas de contenção decretadas pelas autoridades, Inês Lousa referiu-nos que eles são "muito regrados em tudo", chegando "a causar-me alguma confusão" a forma como acatam as orientações de uma forma uniforme, sem atender às especificidades de cada caso ou pessoa. "Se o Governo diz que é preciso usar máscaras, todos as usam". Explicou que embora Macau tenha um governo autónomo, "a China está por detrás" e se determina uma medida, os governantes da pequena região acabam por aceder a fim de não criar atritos, e tentam adaptá-la às características do povo macaense.

Contra teorias da conspiração

Em Hong-Kong a atitude dos seus habitantes é diferente por ser um centro financeiro, e não aceitam imposições. Eram permanentes as manifestações contra as leis que a China pretendia impor e ainda recentemente recrudesceram as contestações. Esta psicóloga não acredita que o aparecimento do vírus estivesse relacionado com uma tentativa de acabar com a situação de revolta em Hong-Kong, ao conseguirem dessa forma reter as pessoas em casa. Atribui estas teorias a mera "especulação", porque se pretendessem acabar com estes movimentos "tinham posto o exército na rua".

Precaução e quarentena para quem regressou a Macau

Crê que "o vírus apareceu porque tinha que aparecer, como apareceram outros", admitindo que "é mau e é preciso aprender a lidar com isso, tal como o fez Macau". Reforçando a sua ideia, disse-nos que "quando me vim embora havia 10 casos, nós circulávamos nas ruas com todas as precauções e durante alguns meses deixaram de haver casos", o que somente voltou a suceder quando "disseram que quem era residente - e queria regressar - tinha que voltar a fazer uma quarentena". A partir de então, de entre os filhos de macaenses regressados que residiam em Inglaterra e em Portugal, alguns vinham infectados e voltaram a surgir casos, explicou, embora não se tenha registado qualquer falecimento. Dos 45 casos verificados, todos foram recuperados, completou.

"Nunca faltou nada em Macau"

Ao contrário do sucedido noutros países, "nunca faltou nada em Macau", sendo-lhe permitido ir "tranquilamente" a um supermercado, onde "estavam a repor constantemente as prateleiras com produtos de vária índole". Quando regressou a Portugal onde residem seus pais, este panorama alterou-se bastante, porque "não havia papel higiénico, nem máscaras, levando-me a interrogar sobre o que é que estava a acontecer aqui". Respeitante às máscaras, asseverou que apenas estes equipamentos de protecção individual estiveram racionados: "Íamos às farmácias de 10 em 10 dias, apresentávamos o BI e vendiam-nos o equivalente a uma por dia", atribuindo esta forma de controlar este produto, ao facto de "ter visto pessoas a levarem 5 ou 6 caixas de cada vez".

"Uso de máscaras obrigatório"

Outro facto que estranhou ao regressar a Portugal, foi ver que as pessoas andavam na rua sem máscara, o que não sucedia em Macau, porque quer ao ar livre, quer em espaços fechados, o seu uso era obrigatório. Compreendeu esta medida do Governo macaense pelo facto de existir uma forte densidade demográfica, o que torna impossível algum distanciamento entre pessoas "como sucede em Caminha".

Por paradoxal que pareça, "o Governo de Macau", logo no início, "comprou máscaras à Europa e Portugal", porque em Janeiro, cá ainda não se pensava a sério no que iria suceder, nem havia casos confirmados.

Esta atitude de acatamento do uso de máscaras não causou estranheza aos macaenses, porque "quando um colega meu de trabalho estava constipado, imediatamente utilizava máscara", insistiu, "o que não sucedia comigo e depois ficavam a olhar para mim de lado".

Abordando outras formas de comportamento no Oriente nesse período de início de pandemia e quando já se preparava para viajar até à Europa, referiu que foi almoçar várias vezes com amigos chineses. Escolhiam espaços abertos, "onde não estivessem pessoas, umas por cimas das outras - o que é muito complicado de arranjar, admitiu - ou provenientes da China", mas, ao contrário, os portugueses "não levavam isto tão a sério".

"A vida começou a voltar à normalidade"

Presentemente, reconfirmou, a situação em Macau está calma, "começaram a abrir fronteiras e todas as pessoas que entram são obrigadas a manter uma quarentena de 14 dias, sendo-lhes garantidos hotéis para a cumprirem, o mesmo sucedendo àqueles que estiveram hospitalizados. Escolas e serviços públicos e privados já funcionam.

Deu-nos conta de uma situação vivida com uma pessoa próxima que começou a sentir febre, obrigando-a a levá-la para o hospital público, o que sucedeu dois minutos depois de pedir uma ambulância, "recebendo um tratamento impecável, mas graças a Deus não havia nada".

"Se a coisa era mais grave mandavam os doentes para o público"

Explicando os serviços de saúde existentes nesta península, Inês Lousa referiu a existência de dois hospitais. Um público (S. Januário) e outro privado (Kiang Wu) que "aceitava casos, mas se a coisa era mais grave mandavam os doentes para o público".

Assunto que foi objecto de muitos comentários nestes meses de pandemia, relacionou-se com a existência de carne de animais silvestres, sem controle sanitário, à venda em mercados, juntamente com outros alimentos, atendendo aos gostos invulgares (pelo menos para os ocidentais) da população chinesa, o que poderia ter estado na origem deste surto pandémico.

"Todo o animal que tem as costas voltadas para o céu, nós comemos"

Inês Lousa recordou que quando tinha estado em Macau pela primeira vez, viu animais vivos ("um pouco de tudo", desde gatos, veados pequenos, baratas, lagartos a doninhas) no mercado. Mais tarde isso mudou e deixaram de ter animais vivos para venda, prática que se mantém na China, país onde existe um festival muito popular onde ainda se come carne de cão. Outros países da Indochina ainda conservam estes costumes, muitas das vezes de uma forma clandestina. Depois do surto do Covid, muitos desses locais encerraram, mas já voltaram a funcionar no interior da China, revelou-nos. A propósito, citou um ditado chinês que diz que "todo o animal que tem as costas voltadas para o céu, nós comemos".

Advoga utilização de máscaras

Analisando o comportamento dos portugueses e as medidas do Governo perante esta crise sanitária, esta psicóloga clínica admite que foi boa, "apesar de nos ser difícil utilizar as máscaras de uma forma generalizada e correcta", em contraste com o que presenciou em Macau. Advertiu, contudo, que Portugal poderia ter antecipado as medidas de confinamento, e quanto às máscaras, insistiu naquilo que constatou em Macau, em que é prática usual a sua utilização. A forma como exerceram o controlo no aeroporto de Lisboa deixou-a espantada, porque não verificaram a temperatura nem a remeteram para um plano de confinamento, apenas se interessando (na Alfândega) pelo que trazia nas malas.

Pedindo-lhe uma apreciação aos comportamentos de alguns dirigentes mundiais que desvalorizaram a pandemia, considerou "incrível" as poucas medidas tomadas, assim como "aquilo que dizem", evidenciando "uma falta de respeito pelo povo" que representam.

Aconselha precaução

Mantém contactos diários com amigas que se encontram na China, que lhe transmitem uma mensagem de tranquilidade e garantindo "fazer uma vida normal, indo a todo o lado", resultado das medidas tomadas, nem prevendo, por conseguinte, uma segunda vaga, situação que Inês Lousa receia que se venha a produzir em Portugal, face a alguma displicência das pessoas ao pensarem que já passou tudo. Assim, aconselha que haja precaução e sejam seguidas as orientações da Direcção-Geral de Saúde, devendo transportar-se sempre uma máscara para ser utilizada em caso de necessidade.

Pegando no caso da Rua Direita, em Caminha, acredita que será a mesma de anos anteriores apesar da situação actual, porque as pessoas terão um "comportamento relaxado", pensando que já passou tudo, a não ser que não permitam que os bares reabram.

Regressando a Macau, revelou que esta região autónoma da China tem muito dinheiro dos 13 casinos (esta entrevista decorreu no data do falecimento de Stanley Ho, pai dos casinos em Macau e noutros pontos do mundo, razão pela qual estiveram encerrados nesse dia) e reparte-o pelos próprios cidadãos, enviando ainda uma quota-parte para China o que permite uma certa contemporização dos governantes de Pequim. Todos os dias, milhares de chineses - e de muitas outras nacionalidades - atravessam a fronteira para irem jogar nos casinos, razão do seu fecho imediato logo que a pandemia se expandiu desde o continente, para reabrirem algumas semanas depois.

"Atestado médico"

Perguntando-lhe o que sucedeu com a reabertura dos casinos, em que os chineses são dos principais clientes, nomeadamente os provenientes de Wuhan ou desse região, Inês Lousa referiu que não necessitarão de manter uma quarentena, "bastando apresentar um atestado médico de um serviço público a confirmar que não têm Coronavírus, embora obrigados a usar máscaras". Conforme a proveniência de cada turista, as normas de controlo são diferentes, advertiu, contudo, relativamente aos portugueses, mesmo que residentes em Macau, no regresso, têm de cumprir 15 dias de confinamento.

"Voltar sem hesitação"

"Se puder, volto, sem pensar duas vezes", garantiu Inês Lousa, atraída que está pela vida no Oriente, sem conseguir apresentar "uma razão específica" para tal, embora admita que o facto de ter ido para Macau aos 10 anos - e voltar a Portugal cinco depois - "numa fase em que estamos a a desenvolver a nossa personalidade" tenha contribuído para este fascínio.


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