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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

O C@2000 continua a recolher opiniões e depoimentos de caminhenses espalhados pelos quatro cantos do mundo, neste período traumático da Humanidade, permitindo aos seus leitores ter uma ideia da forma como encaram esta pandemia e vivem a situação nos países de acolhida.

Este semana, ouvimos dois caminhenses, um deles a residir no Canadá , Sérgio Mina, e João Pinto no Brasil.

João de Deus Rodrigues Pinto (Brasil)

"Para mim não me vai afectar muito, porque, infelizmente, eu não vou conseguir estar aí - como sucedeu no ano passado -, com todos os voos cancelados e sem previsão de voltar" no caso de estar em Portugal, na altura da realização da Romaria de S. João d'Arga, a festa mais castiça de Portugal, confessou-nos João de Deus Rodrigues Pinto, natural de Arga de S. João.

Quando vem a Portugal fica em casa de sua mãe, no lugar do Rio, nesta freguesia da Serra d'Arga, "um local isolado com tudo muito tranquilo", um factor importante neste período conturbado da Humanidade.

Este caminhense, que completa 53 anos na próxima semana, foi para o Brasil há 30 anos. Vive e tem os seus negócios de panificação e confeitaria em Campinas, uma cidade de interior com cerca de um milhão e meio de habitantes, a cerca de 100 quilómetros de S. Paulo, mas a região à sua volta já atinge os quatro milhões.

"Fábrica parada"

João Pinto é casado e não tem filhos ("fábrica parada, porque agora não dá para fazer muitas aventuras", justificou, rindo-se), ao revelar a sua opção nestes tempos complicados.

Considerou uma "aventura" a sua ida para o estado de S. Paulo em finais de 89. Depois de ter terminado a tropa, esperou por um contrato que acabou por não surgir, e quando pretendia ainda fazer uma "faculdade". Enquanto aguardava por essa oportunidade no exército, um tio que vivia no Brasil veio a Portugal porque "o meu avô tinha ficado doente" e desafiou-o a ir até lá ("para conhecer aquilo e de repente você gosta e fica", disse-lhe em em tom premonitório), para que não ficasse parado nesse período. "Só vai pagar a viagem e não terá que pagar nada lá, porque ficará em minha casa", disse-lhe. Esta deslocação coincidiu com o Carnaval, e "pegou mesmo", reconheceu, seguindo-se nova e sonora gargalhada.

Sempre bem disposto, revelou que o seu maior amigo em Caminha é o Alexandre, do Café Central (para quem manda um abraço e com quem esteve em Outubro passado quando veio cá). Uma amizade iniciada quando ele estudava em Caminha e trabalhava na Pensão Rio Coura e o Alexandre na Confeitaria Colmeia.

Este caminhense já nos apareceu com máscara, coisa obrigatória no Brasil desde o dia 15 de Abril "em todo o lugar", situação que poderia ser complicada de suportar num país quente, mas que ele considerou ser possível de adaptar, embora, presentemente, estejam na época mais fria (15-20 graus)

Referiu que há poucos caminhenses em Campinas. Apenas conhece um senhor de nome Meira que viveu na vila de Caminha em pequeno. Por tal motivo e desse tempo, esse senhor apenas recorda o Dino (já falecido), "seu amigo", dono da loja de utensílios de pesca, no Largo Bento Coelho.

Aproveitou este momento para recordar com mágoa o falecimento do "meu amigo, o senhor Secundino", natural de Arga de Cima e que faleceu em S. Paulo em finais de Abril. Era sócio de uma padaria juntamente com "o sr. José, de S. Lourenço a Montaria, e o negócio deles até ia bem, depois de ter passado uma fase difícil, mas a vida é assim mesmo: a única certeza que temos na vida é que se morre".

"Tocando barco"

Sempre bem-humorado e no seu sotaque bem brasileiro, assegura que "vou tocando barco", expressão acompanhada com mais uma gargalhada, quando lhe perguntamos como ia decorrendo a sua vida em terras do sudeste deste país.

S. Paulo é uma da cidades em que o Coronavírus mais se tem feito sentir com consequências trágicas. Respondendo sobre a situação em Campinas, face à proximidade com a grande metrópole sul-americana, assinalou que na sua cidade "era diferente", tendo em conta a própria proporção de habitantes. S. Paulo tem doze milhões de pessoas e a existência de muitas favelas à sua volta "facilita a propagação do vírus".

"Coronavírus virou coisa política"

Contudo, João Pinto não tem certeza de que os números de vítimas e infectados adiantados por diversos meios sejam reais, porque "aqui, infelizmente, o Coronavírus virou uma coisa política. Talvez mais política do que real". Recorda que nesta época do ano, há habitualmente maior número de falecimentos devido à gripe normal.

Em relação a Campinas, referiu que a situação estava "aparentemente controlada", existindo apenas 700 casos confirmados e 28 óbitos. O pico da pandemia para o Brasil estava prevista inicialmente para o mês de Abril, explicou, mas, "agora já estão a prever para Junho ou Julho". Contudo, a existência de cerca de 700 casos divulgados oficialmente nos últimos dias em todo o Brasil, lança preocupação, dando como exemplos a situação em S. Paulo e Manaus - o maior estado do Brasil em termos de área e com quatro milhões de habitantes. Atribui a existência de um foco de grande epidemia neste estado, devido à falta de infra-estruturas, porque "para pegar um hospital nesta zona da Amazónia, é preciso fazer 400/500 quilómetros, sem acessos ou estradas", em que o rio funciona como via de comunicação. Aduziu ainda que devido a esta pandemia, a população concentra-se na capital, o que provoca esta multiplicação de casos a que se está a assistir.

Pedindo-lhe uma justificação para que atribua a uma caso político o que se passa no Brasil com os números da pandemia, João Pinto referiu que "o Bolsonaro foi um presidente eleito à revelia de todo o mundo, porque ninguém achava que ele ia ganhar e os que perderam não aceitaram isso bem".

"Por sua vez, ele está a ser um pouco autoritário, na sua forma de se expressar, nas suas atitudes e ideias, e isso está a levar a oposição a boicotar todo a trabalho que ele está a tentar fazer". Deu como exemplo a atitude do presidente do Brasil que considera o confinamento "uma besteira". João Pinto considera que esta posição "tem uma parte correcta, mas tem outra que não". "O meio-termo não existe" para este presidente, acentua.

Pedindo-lhe que comentasse uma das expressões de Bolsonaro, quando considerou o vírus um "resfriadozinho", João Pinto respondeu que ele diz isso porque "toda a sua assessoria é militar - e bem preparada e com bases sólidas - e desde o princípio da epidemia que se fala que é uma gripe mais forte que ataca principalmente quem tem problemas respiratórios e quem não tem pode ficar menos percebido (afectado), ou ter o vírus e nem perceber (ser assintomático). Nesta linha de pensamento, Bolsonaro "segue esta lógica e vai pelo lado que lhe interessa", acentua, o que contrasta com a posição dos governadores de S. Paulo e Rio de Janeiro, "que são os principais opositores", estando já a assistir-se a uma campanha para as eleições de 2022, "para ver quem leva mais vantagem" com esta crise.

"Está muito bem cotado"

Analisando a capacidade dos serviços de saúde brasileiros para dar resposta à emergência resultante da pandemia, João Pinto assegura que "por incrível que pareça, o Brasil está hoje, mesmo a nível mundial, perdendo apenas em relação aos Estados Unidos, Alemanha e mais um ou dois países".

Adverte, contudo, que "o problema do Brasil é a concentração de pessoas em poucos lugares e se a pandemia pega aí forte, não há salvação possível". Refere, a propósito, que "as melhores estimativas para o Brasil apontam para os 100.000 mortos e, nas piores, pode chegar a um milhão".

"Isto aqui é um continente, não é um país"

Admite a complexidade de fazer um "lock-down" num país com 240 milhões de pessoas, mas que está a reagir "muito bem, apesar das restrições" tomadas. Dá como comparação o papel "incrível" que Portugal está a ter no combate à pandemia, mas que possui uma população igual à de uma única cidade brasileira, como é o caso de S. Paulo.

A diferença de atitude tomada pelos diferentes estados e governadores nas medidas a tomar na contenção da pandemia, também dificulta uma coordenação a nível do país, alerta.

Uma situação que chocou a comunidade internacional, foi o facto de serem os traficantes de droga que comandam as medidas a tomar pela população residente nas favelas brasileiras. Ao contrário da decisão do presidente brasileiro de permitir a circulação das pessoas nesses locais, os narcotraficantes ordenaram o seu confinamento. João Pinto reconhece que "quem manda nas favelas são os traficantes e o que mandam é o que é feito". "O comércio abre se o traficante mandar e fecha se não o permitir", uma situação que acontece também em S. Paulo (nomeadamente na maior favela "em que a polícia não entra"), mas não numa proporção igual à do Rio de Janeiro.

"Sérgio Moro não dá um ponto sem nó"

A disputa política entre Bolsonaro e Sérgio Moro neste período de crise de saúde, é mais um ingrediente explosivo na actualidade brasileira.

Este português radicado em Campinas, descreve Sérgio Moro como "uma figura muito conceituada e bem centrada e que ainda não deu um passo em falso até agora. Mas isso só o tempo é que o dirá, mas acredito que se ele persistir, derruba o Bolsonaro".

Dá como exemplo da actuação do Moro, o facto de ter conseguido inverter a decisão do Tribunal Federal que determinara a libertação do Lula da Silva, obrigando-o a "obedecer" à ordem de um juiz de primeira instância que tinha decidido prendê-lo.

Acrescentou que "estranhei esse episódio (da saída do Moro do Governo), mas ele não dá ponto sem nó", levando-o a concluir que se ele actuou dessa forma, "é porque está muito bem seguro, muito bem calçado".

Intervenção dos militares é provável

Esta conjugação de pandemia com conflitos políticos neste país, leva este caminhense a admitir como provável a intervenção dos militares: "Tudo é possível. A sensação que eu tenho neste momento é que o Bolsonaro está a provocar isso", exemplificando com as "brigas" que ele está a encetar com o Congresso e o poder judicial, "só que neste momento, os militares ainda não estão a favor" dessa opção.

João Pinto, após referir que conhece alguns militares de "alto escalão" no Brasil, precisou que eles lhe diziam que "voltariam a governar o Brasil, mas pelo voto, pela democracia e não pela força".

Analisando este turbilhão de contradições que o país vive, assolado por uma crise pandémica que o presidente sempre desvalorizou, este caminhense reconhece que "o Bolsonaro é um extremista. Ele não tem meio termo", relembrando que "ele é um capitão na reserva que foi afastado pela sua loucura".

Assim, insiste, "tudo é possível", apesar de acreditar que, neste momento, "ainda não haja clima para isso".

"Ainda não há clima para o regresso do futebol"

Neste país de paixões, o futebol concentra o interesse dos brasileiros. Com as competições suspensas, a probabilidade de se iniciar a nova época ainda é uma incógnita, adianta o nosso interlocutor, porque "ainda não há qualquer previsão de regresso", parecendo-lhe apenas que a partir de Junho poderão regressar alguns campeonatos estaduais que ainda não tinham terminado.

A contribuir para tal indefinição, há a posição de alguns jogadores que "não querem voltar a jogar", completa.

Previsão de recessão

A forte comunidade portuguesa no Brasil "está preocupada com esta crise sem precedentes, porque nem em tempo de guerra, a previsão de recessão e os prejuízos económicos foram tão altos como agora", assume.

"Eu falo por mim", esclarece," porque das três lojas da minha sociedade, estamos apenas funcionando com duas e mesmo estas estão facturando 10% do que elas facturam normalmente", concluindo pela não existência de "sustentabilidade possível" para as manter, começando pela proibição do atendimento personalizado, a par de as pessoas não estarem dispostas a comprar "porque estão mesmo a proteger-se".

Falando das medidas tomadas em S. Paulo, por exemplo, citou a redução para 50% da jornada laboral, bem como dos salários e a diminuição de passageiros nos transportes públicos. Todavia, agora, de modo a controlar o movimento de pessoas, na Terça-feira determinaram dias alternados para que os veículos circulassem: as matrículas pares num dia, e as ímpares noutro, equivalendo a que 4,5 milhões de carros estejam imobilizados por dia.

Adiantou que em Campinas também será tomada uma medida idêntica na próxima semana, mas o comércio continua encerrado, apesar de terem começado a "liberalizar" alguns nos últimos dias, com excepção dos supermercados e padarias que sempre funcionaram, mas, nestes estabelecimentos, apenas se pode comprar e levar para casa.

A situação em Portugal é acompanhada com interesse pela comunidade brasileira, e a própria comunicação social aponta o nosso país como "um dos bons exemplos". Indica o caso da Rede Globo, por sinal, uma das principais opositoras do Bolsonaro, vincou, razão dos enfados do presidente brasileiro com a comunicação social. Completando, recordou que esta rede de comunicação social foi sempre uma opositora do actual líder do Brasil, tendo apostado noutro candidato e para o qual fez campanha. E como "Bolsonaro leva as coisas ao fio da navalha, agora está tentando vingar-se e, por seu lado, a Globo dá lenha nele todo o dia".

Este português não tem acompanhando os telejornais portugueses em directo devido à diferença horária, utilizando outros meios.

"Caminha é só saudades"

Este habitante da nossa Serra d'Arga agradeceu a "oportunidade" que lhe concedemos para comunicar connosco, embora acompanhe o C@2000 há bastante tempo.

Reconhece as saudades que tem por Caminha e "espero estar em breve entre os caminhenses", nomeadamente convivendo com sua família, dando como exemplo sua mãe, o seu cunhado Carlos, taxista, residente em Venade, e demais cunhados.

"E envio um abraço especial ao meu amigo Alexandre".


Edições C@2000

Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


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Memórias da Serra d'Arga
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