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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

O C@2000 continua a recolher opiniões e depoimentos de caminhenses espalhados pelos quatro cantos do mundo, neste período traumático da Humanidade, permitindo aos seus leitores ter uma ideia da forma como encaram esta pandemia e vivem a situação nos países de acolhida.

Este semana, ouvimos dois caminhenses, um deles a residir no Canadá, Sérgio Mina, e João Pinto no Brasil.

António Sérgio Góios Mina (Canadá)

Sérgio Mina, 57 anos, um lanhelense que com sua esposa Paula, rumou em direcção ao Canadá, regressando há 8 anos à cidade de Mississauga (nome índio), na província de Ontário, perto do aeroporto desta cidade, mantém a expectativa quanto ao futuro deste surto pandémico, nunca tendo imaginado que esta situação fosse possível nos dias de hoje.

Sua esposa, encontra-se em casa há dois meses ("vou entretendo-me com as minhas bugigangas", explicou-nos o que estava a fazer quando seu marido falava connosco) depois de o restaurante onde trabalha ter fechado. Sérgio Mina trabalha uma semana em cada cinco, uma decisão da sua empresa do Estado, dedicada ao fornecimento de energia, no intuito de "não ter o pessoal todo exposto" em simultâneo. Em face da evolução da situação, esta rotação poderá tornar-se mais curta, prevendo-se que comecem a laborar de quinze em quinze dias e permanecendo em casa por idêntico período de tempo, desabafando que "é assim a nossa vida" neste período de confinamento a que quase todos estamos submetidos.

Cidadania Canadiana

Em 2008, com o avolumar da crise em Portugal, o trabalho na área da jardinagem começou a escassear e aliado à concorrência desleal foram obrigados a regressar ao Canadá em 2012, país onde já tinham estado entre 1986 e 1998 e ali nascera a sua filha (vive em Lanhelas e estuda no Porto, presentemente com aulas on-line, e "com quem contactamos todos os dias"), o que lhes tinha permitido obter a cidadania canadiana.

Este seu regresso ao país norte-americano foi facilitado pela oportunidade de voltar a laborar na mesma empresa em que esteve nesses doze anos como técnico de alta tensão e instalação de postes de alta transformação e distribuição de energia.

As novas tecnologias permitem contactos frequentes com seus familiares, perante a impossibilidade de o fazer fisicamente, agora com a contrariedade de haver dificuldades nos voos para Portugal, a que se junta a indefinição de obrigatoriedade de cumprimento de uma quarentena quando aqui chegarem, sendo esta incerteza "a parte que mais nos custa", confessa. Têm esperança de poder vir passar o Natal com a família em Lanhelas, mas nada lhes é garantido, lamentam, a par de depender ainda dos trabalhos que já estejam a exercer novamente por essa altura, atendendo a que "a minha empresa trabalha todo o ano", porque "são cidades que não dormem".

Nesta cidade satélite de Toronto, com muita indústria e comércio, a actividade de algumas empresas nunca parou, dando o exemplo da construção civil e "outros trabalhos essenciais". Todavia, lojas, pequenos comércios, restauração (excepto os que serviam para levar para casa) fecharam ou "mantêm-se a trabalhar com um número de funcionários mais reduzido".

O cumprimento de manutenção de distâncias entre pessoas é obrigatório, o que não sucede ("ainda") com o uso de máscaras, com excepção dos transportes públicos onde os passageiros devem utilizá-las. No entanto, as pessoas já se vão acostumando a este tipo de protecção, conforme constataram nos armazéns de materiais de construção civil ou nas estufas, mas sendo medida obrigatória garantir dois metros de distância entre cada cliente.

"Há quem tenha deixado o emprego por receio de contrair o vírus"

O facto de "ter parado tudo de uma forma muito rápida, uma semana a seguir a ter sido feito o mesmo em Portugal", obstou a que a doença tivesse progredido significativamente na cidade de Mississauga, reconhece este emigrante lanhelense. Quanto ao comportamento dos cidadãos canadianos perante este vírus, "há os que têm receio e outros nem tanto e parece que andam por aí normalmente como se não fosse nada com eles", ao passo que alguns mudam de passeio para que não haja contactos.

Este país não escapou à regra de muitos outros, e grande parte dos falecimentos registaram-se nos lares e com as suas funcionárias, revelou-nos, porque na generalidade da população, não houve muitos casos, acrescentou.

Autoridades canadianas levaram vírus a sério

Ao contrário do sucedido no país mais a sul, presidido por Trump, "aqui as autoridades levaram o assunto muito a sério e quando deram ordem para fechar, fechou tudo e deram logo dois mil dólares a cada trabalhador para poderem pagar os seus empréstimos, rendas, chegando mesmo a suprimi-las bem como o IMI das casas - que aqui se paga todos os meses - podendo pagá-lo mais tarde".

Revelou ainda que bastava uma pessoa que estivesse em lay-off ou que tivesse ficado em casa, dirigir-se ao Centro de Emprego a pedir auxílio, e deferiam imediatamente a verba, competindo mais tarde à administração verificar a justeza da atribuição do apoio financeiro e actuar em conformidade.

Intensificação de negócios on-line

Sérgio Mina desconhece a existência de caminhenses na zona onde reside, sabendo apenas que há uma rapariga de nome Teresa, cuja mãe vive em Vilarelho, empregada numa empresa de material de construção civil e que se manteve sempre a trabalhar pelo sistema de vendas on-line, embora estivesse fechada ao público, e os clientes iam lá buscar as encomendas.

A propósito, destacou o grande incremento de vendas neste sistema, como sucedeu com vizinhos seus que trabalham para entregas em casa e que lhes asseguraram que "nunca tiveram tanto negócio".

"Catedral do consumo"

Apreciando a realidade com que se deparou no Canadá quando aqui chegou em 2012, confirmou-nos o grande grau de consumo dessa sociedade, em que "o cartão de crédito anda sempre à frente", segundo o lema "não há dinheiro, paga-se depois".

Este "consumo exagerado" é incompreensível em Portugal, reforçou, dando como exemplo da forma como a população se adapta a esta vida neste tempo em que grande parte da actividade se encontra paralisada, com a compra dos "donuts". "Estão três ou quatro horas à espera da sua vez para comprar uma caixa dessas rosquinhas, dentro do carro e dando voltas no parque de estacionamento até que sejam atendidos", porque, acrescenta, "têm tempo e dinheiro". "É incrível!", desabafa.

No seio da comunidade canadiana, prevalece a tese do aparecimento do vírus motivado pela ingestão de morcegos na China e que se propagou, embora haja quem o atribua a uma fabricação laboratorial, "o que não deixa de ter sentido, porque havia aquelas manifestações em Hong-Kong e como a China não conseguia ter mão naquilo, com o vírus isso acabou e não se voltou a falar mais" nessa contestação de rua.

A despeito de todas as teorias que têm surgido, Sérgio Mina reconhece que "ao certo, não se sabe", apenas estando seguro da existência de um grande esforço dos investigadores de muitas universidades e laboratórios "a trabalhar na busca de uma vacina", mas "ao certo, ainda nada se sabe", repisa.

"Portugal é um exemplo para o mundo"

A forma como Portugal vem gerindo esta crise tem merecido aprovação generalizada dos nossos emigrantes, conforme temos vindo a constatar através dos depoimentos recolhidos em vários pontos do globo, os quais também reflectem a opinião pública dos próprios países onde residem sobre a atitude determinada do povo português, seus representantes e, particularmente, dos profissionais de saúde.

Este lanhelense endereça os "parabéns" a todos, tendo em conta o que está a ser feito em Portugal - "pelo que vemos na televisão e pela imprensa internacional", assinala -, classificando este comportamento "como um exemplo para o mundo".

Apenas um reparo se lhe oferece deixar, relacionado com os atrasos nos apoios aos trabalhadores e empresas, tendo como referência a agilidade com que estas ajudas se processam no Canadá.

Contactam diariamente com seus familiares em Lanhelas, pais, irmãos e "com a nossa filha". E a vontade de "os abraçar" neste período de distanciamento forçado - em que os contactos pessoais se revelam mais prementes -, supera a própria saudade da ausência, agravada pela "incerteza de quando poderemos voltar a fazê-lo", disse-nos com tristeza.

A terminar, este casal lanhelense deseja a todos os conterrâneos e caminhenses "o melhor, saúde e um grande abraço de esperança, porque isto vai passar e esperemos por melhores dias". Assegura que "quando isso acontecer lá estaremos para festejar e ser acolhidos como o povo português sabe fazer tão bem e poder andar livremente", não esquecendo a tão carismática Festa das Solhas ("Ai!", desabafa com tristeza a sua esposa Paula do fundo da sala da qual seu marido nos falou) que este ano não se realizará, assim como as demais festas que "não vão poder ter lugar", complementa, pesaroso, Sérgio Mina, que faz anos a 28 de Agosto, coincidindo com a Festa de S. João d'Arga - mais uma festa suspensa este ano, lamenta.


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Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
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Edição: C@2000/Afrontamento
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