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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor

"E porque as crianças continuam a sorrir"

Hoje, ao fim de tantas semanas, finalmente consegui pegar na bicicleta e fazer um treino como gosto! É certo que todo este tempo parado fez mossa! Quem me conhece bem, sabe como sou competitivo em cima das duas rodas, e sei que voltar à forma inicial vai doer! Vai doer muito!

Mas não é sobre a minha paixão pelo ciclismo que me fez estar aqui, a escrever estas linhas! Foi outra coisa.

Hoje passei por algumas escolas (1.º ciclo, 2.º, secundário…) e o que verdadeiramente me doeu foi ver um mundo sem crianças! Um mundo cinzento, sem os seus risos, brincadeiras, traquinices… Um mundo sem cor! Um mundo estranho e bizarro em que de um momento para o outro, tudo que tínhamos dado como adquirido, desapareceu! Senti-me estranhamente triste e só, no meio das ruas… No meio do isolamento que civicamente cumprimos.

Mil e uma imagens foram surgindo na minha cabeça: os meus amigos, os meus colegas, os meus conterrâneos e sobretudo os meus (nossos) alunos! Aqueles que já me criaram alguns cabelos brancos e dos quais sinto tanta falta! Aqueles que, num dia me fazem repensar tudo o que fiz nas aulas e no outro me fazem carregar um sorriso enorme de dever cumprido!

E no meio desta minha melancolia, enquanto pedalava, curiosamente foi uma criança, numa varanda dum prédio, que me viu e gritou "Olha um ciclista!" enquanto sorria para mim! E esse pequeno gesto dissipou todo o cinzento que transportava até ali! E porque as crianças continuam a sorrir, continuam a trabalhar em casa, a dar esse sinal de esperança, eu sei que tudo irá ficar bem…

Paulo Machado
Professor no Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha


12 DE MAIO - DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO

A 12 de Maio, comemora-se o "Dia Internacional do Enfermeiro". Este ano com um "sentido e sentir" emocional diferente e muito presente, porque estão na linha da frente no combate ao SARS-CoV-2 COVID-19 e porque também a OMS decretou o ano 2020, como o "Ano Internacional do Enfermeiro". Por ironia do destino, veio esta "Pandemia" para mais uma vez por à prova o trabalho, o valor dos Enfermeiros e demonstrar que são insubstituíveis em qualquer sistema e Equipa de Saúde. Como se fosse necessário provar mais alguma coisa…

Rosto marcado por horas e horas de uso de máscara e outras protecções, contra o SARS-CoV-2 COVID-19. Olhar cansado! Desgaste físico e emocional, tremendo. Muito mal remunerados. Distantes e separados da Família. Distantes do lar. Mas presentes, permanentemente, na Equipa Multidisciplinar, a cuidar/tratar o doente. Horas a fio, desperto, para que ao primeiro sinal de desequilíbrio, actue junto do doente. Sempre presente a todas as horas e minutos, nas unidades de cuidados intensivos, nos internamentos, nos hospitais de retaguarda, nos hospitais de campanha, nos domicílios, Enfermeiros sempre presentes em todas as linhas e momentos de socorrer, actuar e do cuidar/tratar, reabilitar e na prevenção. Estão e são, mesmo, a primeira linha!

Lembrar neste dia que, apesar de tudo o que ao longo dos tempos os Enfermeiros fizeram e deram, houve políticos, Ministros e Governos, que só maltratam e insultam a Classe de Enfermagem. Alguns deles, esquecendo-se do que já disseram e fizeram, defendem agora, porque já não têm influência política ou estão fora do poder, que os Enfermeiros devem ser valorizados na sua carreira profissional e remunerações. E quando estiveram nos lugares decisórios, o que fizeram? NADA, ou pioraram até a situação!

Os mesmos que abusivamente nos insultaram, apelidando-nos de "imorais, infractores e criminosos" quando lutávamos pelo respeito, dignidade da profissão e remuneração equivalente ao trabalho e responsabilidade que temos, são os mesmos que, hipocritamente, nos bajulam, afirmando a excelência do nosso trabalho, dedicação e qualificações académicas e científicas. Mas este reconhecimento é de circunstância, oportunista, cínico e não sentido. Porque no virar da esquina, quando a Pandemia "passar" (e não vai passar facilmente), voltarão a esquecer os Enfermeiros, não corrigindo a Carreira de Enfermagem nem as grelhas salariais. Triste classe política que este País tem! Mas a Sociedade continua a não se indignar! E tolerou todas estas agressões aos seus concidadãos Enfermeiros!

Ainda no passado sábado, a Srª. Ministra da Saúde, Doutora Marta Temido, numa entrevista na televisão SIC, quando confrontada com a pergunta sobre o hipotético aumento das remunerações dos Profissionais de Saúde, veio logo a resposta vazia, insensível e de desvalorização, para com estes Profissionais. E o mau deste socialismo, é que a comparação ou o nivelamento é sempre por baixo. Nunca pela excelência, pela competência ou pelo mérito. Depois há este contrassenso, mesmo chamando os Enfermeiros de "heróis", contratam-nos a 6,42€/hora.

Dizer a este governo e à Srª. Ministra da Saúde, que os Enfermeiros prescindem dos aumentos de 0,3%, que se resumem a nem sequer meia dúzia de euros. O que querem é que lhes seja contado o tempo de anos de serviço que lhes foi roubado, que paguem as progressões de acordo com os escalões, que num passe de mágica lhes apagaram, que sejam colocados nos escalões e categorias que efectivamente merecem e deveriam estar. Que os Enfermeiros, tal como outros funcionários da Administração Pública, também são licenciados e deveriam ser remunerados como tal. Isso sim, era reconhecer e tratar bem, sem demagogia e com justiça, os "heróis" Enfermeiros.

Não faltará muito tempo que, perante a passividade do Sr. Presidente da República e do Governo, Portugal perderá muitos dos seus Enfermeiros e do seu saber, e os cuidados de saúde prestados aos cidadãos pelos Enfermeiros de hoje, ficará entregue sabe-se lá a quem, com toda a certeza com piores prestações.

E não só no dia 12 de Maio, mas todos os dias, Os Enfermeiros Portugueses estiveram sempre no lugar certo, a socorrer, a cuidar, a tratar e ao lado de quem mais precisa, os Cidadãos doentes e suas Famílias.

Humberto Domingues
Enf. Espec, Saúde Comunitária



DE UM OSSO E DE UM SOPRO SE FEZ SER

De um osso e de um sopro se fez Ser
Tomou forma de ânfora e de viola
Amou o companheiro e gerou vida
No seu ventre quente de MULHER
Vergou-se sob o peso do trabalho
Na fábrica, no lar, na oficina
Em casa foi amante, amiga, mãe,
Mulher adulta em sonhos de Menina

Outras vezes, não chegou a ser Criança,
Não soube de bonecas ou de escola,
Vendeu pensos na rua, roubou fruta,
Dormiu em vãos de escada, por esmola.
Às vezes, um senhor lá a levava
Dava-lhe banho, roupa, de jantar
E ela mexia em pele balofa e pêlos,
Carne esquisita, difícil de beijar

Mais tarde, foi p'rá estrada,
Entrou na vida, ou foi na morte?
Um dia o saberá…
Fogueira aos pés para espantar o gelo,
A perna ao léu aquece e agradece
A carne já anima, tenta o freguês, sorri;
O coração não ri, nada o aquece

Há outras que têm melhor sorte:
Têm grinaldas, festa, a bênção do Senhor.
Zelam o lar, os filhos, o trabalho,
Abrem-se à noite, ao homem, por amor
Não sabem da irmã, da tal da estrada,
Ou da outra dos bares, da perdida,
Não sabem que ali mesmo, mesmo ao lado
Há vidas de mulher sem serem Vida.

E aquelas que, de noite, pela calada
Viam o seu sossego violado?
E a casa remexida, o filho aos gritos,
O seu homem levado, amordaçado?
Tanta heroína de luta já esquecida,
Estórias que Portugal teima em esquecer,
Companheiras da luta clandestina,
Também Abril nasceu de ti, Mulher!

Já hoje, em nossos dias, bem lá longe,
Aconteceu de novo a Criação
Os Deuses, não sabemos a razão, enlouqueceram
E despejaram em terra, rios de raiva e de rancor
A água cobriu tudo, matou a Vida.
Mas, no cimo de uma árvore
Ficou uma ânfora esquecida
Bem bojuda, por sinal
Nem parecia uma ânfora, de tão larga
Não foi preciso um osso
Não foi preciso um sopro divino
No cimo de uma árvore verde
Tingida de sangue
De um grito branco de mulher negra
Nasceu um novo Deus
Nasceu a Vida

Zita Leal



Escola da Vida: Caminho para o Sucesso

A formação académica, em todos os níveis de ensino: do básico ao superior, é um requisito fundamental para que possa haver desenvolvimento, progresso, sustentabilidade, sociedades evoluídas: ética, deontológica, científica, tecnológica, cultural, política e empresarialmente, entre outras vertentes, igualmente importantes, num mundo civilizado e, humanamente, tolerante, livre e responsável.

A preparação escolar, naturalmente que é essencial para uma vida esclarecida e equilibrada de quaisquer pessoas, sociedades, empresas, famílias e os próprios indivíduos, supostamente, tanto mais responsáveis, quanto mais elevadas forem as suas habilitações escolares, porque elas preparam, em primeiro lugar, para a inserção na comunidade, para o Saber-ser e o Saber-estar, a que, em diversas situações, se pode juntar o Saber-fazer.

Claro está, que a preparação para a vida responsável, deve começar e prolongar-se na família: os bons hábitos; a educação, esta no sentido do respeito e consideração pelos outros; os valores que orientam para ideais e objetivos compatíveis com a legalidade, as tradições, os costumes e a cultura; a assunção de condutas harmonizáveis com os deveres, direitos, liberdades e garantias, comuns a toda a sociedade envolvente. Tal como refere o provérbio popular: "Quem não é na família; também não o será na sociedade"

Evidentemente que, também fora da família, designadamente, através e com as companhias, colegas, amigos e conhecidos que, com maior ou menor frequência, connosco convivem e nos acompanham, existe uma grande influência na formação das pessoas, no relacionamento entre elas, e até na melhor ou pior reputação e bom nome e, uma vez mais, recorrendo ao axioma do povo: "Diz-me com quem andas; dir-te-ei quem és", talvez se possam retirar algumas ilações comportamentais.

Na preparação da pessoa, um outro agente socializador entra na sua vida, atualmente, com menos frequência devido às altas taxas de desemprego. Com efeito, as empresas e outras entidades empregadoras são umas das grandes, e talvez das mais eficazes "Universidades da Vida". As exigências que são colocadas ao trabalhador, de facto, preparam-no, relativamente bem, para enfrentar uma sociedade cada vez mais "contestatária", com a reclamação sempre pronta a "derrubar" os argumentos de quem produz algo.

Atualmente, a sociedade é extremamente complexa na medida em que, talvez se possa aceitar, em parte: "Este não é um mundo fácil onde se viver. Este não é um mundo fácil onde se possa ter uma vida razoável. Este não é um mundo fácil para se compreender alguém nem gostar de alguém. Mas é um mundo onde precisamos viver e, vivendo nele, existe uma pessoa que não podemos em absoluto dispensar." (Jo Coudert, in: MANDINO, 1982:21). Seguramente que tal pessoa é cada um de nós.

A vida, globalmente considerada, tanto pode ser: a nossa melhor aliada, se a soubermos compreender, aceitar as lições que nos proporciona, as oportunidades que nos oferece, os ensinamentos que nos faculta; como também pode ser a nossa maior inimiga, quando desprezamos tudo o que ela nos faculta, inclusivamente, quando nos mostra caminhos errados, posições e pessoas inconvenientes, situações perigosas, projetos inexequíveis.

Ao longo da vida necessitamos saber quem somos, de onde vimos e para onde vamos, assim como o que queremos. Quando se pergunta a alguém, o que mais deseja da vida, as respostas são quase sempre as mesmas: saúde, trabalho, amor, felicidade, Paz e a Graça de Deus. Pois bem, dir-se-ia que: "Uma pessoa é feliz como resultado de seus próprios esforços, uma vez que conheça os ingredientes necessários para a felicidade - gostos simples, certo grau de coragem, espírito de sacrifício por um objetivo, amor ao trabalho e, acima de tudo, uma consciência limpa." (Howard Whitman, in: MANDINO, 1982:30).

Em circunstância alguma se pretende, nesta e/ou noutras reflexões, substituir a Escola Tradicional, oficial, científica, técnica e pedagogicamente instituída, direcionada para a educação e instrução, por outros agentes socializadores, nomeadamente: família, Igreja, empresa, comunidade, enfim, a vida em todas as suas vertentes, até porque a Escola faz parte dessa mesma vida, por mais simples e monótona que ela, a vida, seja.

Parece ser relativamente consensual aceitar-se que o sucesso não "cai do céu", mas, pelo contrário, não será bem assim, porque ele, o sucesso, dá imenso trabalho na medida em que: "Se o sucesso pessoal existe, ele só pode estar no interior de cada um de nós. Não pode ser composto de manifestações exteriores ou aparências, mas apenas por valores individuais imponderáveis, provenientes de uma filosofia amadurecida." (Ibid.)

A "Escola da Vida" tanto nos proporciona o sucesso, como o fracasso, embora estes termos, na perspetiva de determinadas pessoas, possam comportar alguma subjetividade, nomeadamente, quando se referem a bens inefáveis, imateriais e, neste contexto, então pode-se aceitar que: "É difícil imaginar alguém se sentir bem-sucedido sem experimentar igualmente a sensação de estar ligado de alguma forma com os objetivos mais importantes da vida como o Autor desses objetivos. (…) Deve sentir de alguma maneira os fluxos penetrantes da existência de Deus e reconhecer sua própria existência como parte integrante desse fluxo." (Ibid.:35).

A aceitação de uma certa espiritualidade no sucesso, em nada prejudica o reconhecimento e eficácia dele, pelo contrário, para os crentes, em especial, ele reforça a convicção de que nada é por acaso e, é bom admitir-se, que concordando-se ou não, esta dimensão transcendental da pessoa, é aceite por quem tem: esperança numa outra vida; quem acredita na existência de outros "seres desencarnados" que, quem sabe, também ajudem na busca do sucesso. Trata-se de uma matéria, cuja análise e debate não está ao alcance do autor, nem esta reflexão pretende aprofundar estes "mistérios".

Mas a Escola Superior da Vida, realmente proporciona aos seus "alunos" diversos "cursos práticos" que, por sua vez, integram muitas "disciplinas" extremamente objetivas, que deveriam ser estudadas e exercitadas muito bem, rejeitando tudo o que é nocivo para uma sociedade do sucesso material e espiritual e, por outro lado, estudando e praticando, incessantemente, todas as matérias que conduzem ao bem-comum, à felicidade de todas as pessoas.

Atualmente, primeiro quarto do século XXI, numa sociedade onde, quantas vezes, não se olha a meios para atingir os fins, para se alcançarem objetivos materiais. Esta nova postura (aceita-se e defende-se que as empresas devem ter os seus lucros, o reembolso dos investimentos, porém, com observância de regras que respeitem a dignidade humana), de alguma forma, já é incentivada pela própria escola tradicional, pela comunidade e até pelos familiares, em que a palavra-chave, que por vezes acompanha o sucesso é: competitividade.

Com efeito: "Ensinam-nos a seremos competitivos, a não termos contemplações e a ignorar os sentimentos daqueles que atropelamos. Esquece a humilhação do colega que não sabe a resposta. Aproveita a oportunidade para impressionar o professor. Estas são as sementes da violência plantadas em nós quando ainda somos crianças pequenas. É possível despertar, compreender a natureza destas ervas ruins semeadas em nós e arrancá-las pela raiz. Esse processo implica uma tomada de consciência da nossa natureza mais profunda e não é um processo fácil." (WEISS, 2000:140-41).

Bibliografia.

MANDINO, Og., (1982). A Universidade do Sucesso. 2ª Edição. Tradução, Eugênia Loureiro. Rio de Janeiro, RJ: Editora Record.

WEISS, Brian L., M.D., (2000:17). "A Divina Sabedoria dos Mestres. A Descoberto do Poder do Amor. Tradução, António Reca de Sousa. Cascais: Editora Pergaminho.

Diamantino Bártolo


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Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

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Memórias da Serra d'Arga
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