Este semana, ouvimos dois caminhenses, um deles a residir nos EUA , António Luís Lages de Barros, e José Luís Carvalho em Andorra.
Em Andorra existe uma dinâmica comunidade de emigrantes portugueses em que desponta o Grupo de Folclore "Casa de Portugal", com 61 elementos portugueses e não só, cujo director artístico e fundador é um ancorense emigrado há 30 anos.
José Luís Carvalho, 53 anos, casado (com a filha do poeta popular Jorge Medeiros, agora com 77 anos, cujas quadras faziam furor no dealbar das rádios locais), com dois filhos, trabalha como agente de uma companhia de seguros em Encamp, uma das paróquias do Principado, com 9.000 moradores, dos 77.000 habitantes que este país possui, dos quais 12% são de origem portuguesa.
Pretendia vir a Portugal em Março, adiou a viagem para este mês, foi novamente forçado a cancelá-la devido ao confinamento e encerramento de fronteiras com Espanha e França, e espera agora vir em Julho saborear "o peixe fresquinho vendido no Portinho de Vila Praia de Âncora" que o viu nascer.
Partiu de Vila Praia de Âncora há 30 anos
Completar-se-ão em Setembro 30 anos que partiu para Andorra, depois de ter tido um acidente que o obrigou a mudar de ares, e como já vivia lá uma irmã "vim experimentar" e ficou. Já namorava quando partiu. Dois anos depois casou-se.
A maioria dos emigrantes portugueses a residir em Andorra é proveniente do distrito de Viana do Castelo, sendo que uma grande parte pertence ao concelho de Caminha, nomeadamente de Vila Praia de Âncora.
Crê que a presença portuguesa neste pequeno país se reforçou a partir do 25 de Abril, e, provavelmente, alguns deles que se dirigiam para a França ficaram por lá e outros se lhes seguiram. Um novo surto de emigração registou-se nos anos 80/90, devido ao desenvolvimento económico registado então em Andorra, onde já viviam também muitos galegos e andaluzes.
Antes de rumar até aos Pirineus, ainda em Vila Praia de Âncora, foi durante seis anos um dos executantes do Etnográfico, grupo do qual, aliás, aquela que se tornaria sua mulher fora uma das fundadoras antes de emigrar para este país.
Doados 1.000 euros a Fundo de Solidariedade
Neste Grupo de Folclore "Casa de Portugal" de Andorra, criado a 1 de Maio de 1996, integram-se antigos elementos do Etnográfico e do Orfeão de Vila Praia de Âncora, cujas bodas de prata esperam comemorar de forma exemplar em2021, em contraste com o sucedido este ano, em que apenas puderam cantar as janeiras no primeiro mês de 2020, mas de seguida, todo o trabalho cultural e desportivo terminou, chegando a ser fechadas as suas instalações camarárias onde funcionava a sua sede, quando estavam a preparar o aniversário. Durante este período, "temo-nos limitado a fazer reuniões telemáticas entre os membros da direcção", e, no 1º de Maio, através da Internet, "todos os elementos do grupo cantaram os parabéns ao mesmo tempo". Tinham igualmente previsto organizar uma actividade no próximo dia 17, intitulada "Diversidade Cultural", juntando todas as comunidades existentes em Andorra, mas "foi anulado", assim como o "tradicional Feirão de Julho".
Uma vez que não realizaram o Festival folclórico aprazado para o Dia do Aniversário, decidiram doar os 1.000€ previstos gastar neste evento a um Fundo de Solidariedade de Combate ao Covid criado pelo Governo.
As fronteiras com França e Espanha encontram-se encerradas, apenas circulando os transportes com bens essenciais, o que permitiu que nunca tivesse havido escassez de qualquer produto. As medidas tomadas pelo Governo andorrenho surgiram de acordo com as decisões do parlamento deste país.
"Turismo seguro"
Comércio e turismo (principalmente de inverno) encontram-se paralisados e o fecho da própria época de sky foi antecipada para inícios de Março, quando só termina habitualmente em Abril. Andorra tem ao longo do ano "11 milhões de turistas" e é desta actividade que vive essencialmente. Na tentativa de enfrentar esta contrariedade, o governo apostou naquilo que definiu como "turismo seguro" através da realização de testes de imunidade a toda a população (já fizerem 20.000) para que os turistas se sintam seguros e possam continuar a apostar em Andorra, porque, justificou, "sem o turismo não poderemos sobreviver muito tempo".
Andorra com poucos casos
José Luís Carvalho classifica este período da sua vida como "estranho", tendo permanecido em casa - juntamente com sua esposa que coordena equipas num empresa de limpeza -, em teletrabalho desde 14 de Março, e apenas nas últimas duas semanas se têm deslocado às suas empresas, "trabalhando presencialmente", a fim de contactar com clientes, embora mantendo as normas de segurança imprescindíveis.
Este ancorense disse concordar com as medidas tomadas pelas autoridades do país pirenaico, com resultados positivos, dando como exemplo os números registados até esse dia: 751 casos confirmados, 184 activos e 46 falecimentos. A par de que Andorra apenas dispõe de um hospital, no qual se encontravam 15 pessoas internadas devido ao vírus, e "se isto começasse a fugir das mãos", completou, "não haveria maneira de conter isto".
O facto de tratar-se de um país pequeno, torna mais fácil o controle "e a reacção a qualquer situação", admitiu.
As escolas encontram-se encerradas e assim permanecerão até final do ano escolar, mantendo-se os alunos em sistema de telescola, tendo sido criada uma comissão pelo Ministério da Educação, a fim estudar a forma como irá decorrer o próximo ano lectivo. O mesmo sucedeu no campo desportivo, com todos os campeonatos definitivamente suspensos e "sem se saber como vai ser na próxima época", assinalou.
"Portugal está a surpreender-nos a todos"
José Luís Carvalho, sua família e demais comunidade portuguesa têm acompanhado com atenção a evolução da pandemia no nosso país, não hesitando em afirmar que "Portugal está a surpreender-nos a todos pelos resultados que estão a ter e que têm servido de exemplo para muitos países". As medidas adoptadas vêm permitindo uma abertura gradual, apontando o facto de a TAP já estar a retomar algumas rotas, o que lhe dá esperança de poder vir a Portugal em Julho.
"Só esperamos que este pesadelo passe a nível global"
Se já vinham contactando regularmente com familiares e amigos em Vila Praia de Ancora, após o aparecimento deste surto pandémico as comunicações intensificaram-se. Simultaneamente, mantêm-se informados pela imprensa, constatando que Portugal está a reagir bem ao surto pandémico e "só esperamos que este pesadelo passe a nível global".
Uma eventual recessão que possa fazer perigar os seus postos de trabalho não é temida por José Luís Carvalho e sua esposa, por se tratar de actividades essenciais e que "fazem sempre falta".
Este ancorense acredita que com o fim da pandemia, haverá lugar a um novo ciclo de vida da comunidade, a nível de "distanciamento e relacionamento", porque, assinalou, "por muito que se limpe haverá sempre a sensação de que alguma coisa poderá escapar".
Deu como exemplo a interrogação que se lhes apresenta no futuro a médio prazo sobre a forma como "iremos ensaiar ou realizar um lanche num espaço fechado com 50 pessoas". O modo como se relacionarão com os seus familiares quando aqui vierem é um aspecto que ainda não está bem definido, esperando que com o aparecimento de uma vacina seja possível pôr termo e este estado de coisas.
Acredita que o estabelecimento fácil de contactos no mundo actual contribuiu para a expansão do vírus no mundo. No caso de Andorra, houve pessoas que se deslocaram de férias para Itália, dando como exemplo os professores, contraíram a doença e no regresso disseminaram-na na comunidade.
"O mais importante é podermos voltar a ver-nos por aí"
José Luís Carvalho aproveitou a oportunidade para expressar os seus votos de boa saúde aos seus familiares, conterrâneos e elementos do Etnográfico de Vila Praia de Âncora, cujo aniversário também se assinalou há dias (Março), mas sem que tivesse sido inaugurada a tão ansiada sede (antiga Escola de Vilarinho) devido à fase de contenção que se verifica em toda a parte, recordou. Insistiu na sua vontade de visitar todos no próximo Verão, "com máscara, ou sem ela", porque "o mais importante é podermos voltar a ver-nos por aí".
PS: José Luís Carvalho, para além de ter patrocinado um livro de quadras de seu sogro, também publicou uma obra da sua autoria dedicada à comunidade portuguesa em Andorra.