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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

O C@2000 continua a recolher opiniões e depoimentos de caminhenses espalhados pelos quatro cantos do mundo, neste período traumático da Humanidade, permitindo aos seus leitores ter uma ideia da forma como encaram esta pandemia e vivem a situação nos países de acolhida.

Este semana, ouvimos dois caminhenses, um deles a residir nos EUA , António Luís Lages de Barros, e José Luís Carvalho em Andorra.

António Luís Lages de Barros (EUA)

António Luís Lages de Barros nasceu em Lanhelas há 68 anos mas, ainda "bem pequeno" foi viver com seus pais (ambos de Lanhelas) para Vilar de Mouros, onde tinham aberto uma padaria no lugar da Pereira. Foi nesta freguesia que se criou, bem como seus irmãos (oito ainda estão vivos).

Trabalhou na construção civil, aqui se casou, teve quatro filhos, até que se divorciou e decidiu ir viver para os EUA, voltando a casar-se com uma vilarmourense.

Fomos encontra-lo na sua casa de campo em South Windsor, uma pequena aldeia ("town") de 23.000 habitantes do condado de Hartford, estado de Connecticut, "mesmo encostada a Massachusetts", na costa leste, a norte de Nova York.

Já reformado pelos dois países, "raramente trabalho, e só o faço por amizade", confessou-nos, limitando-se a tratar da pequena horta que possuem e, de vez em quando, "vou dar uma volta" para verificar as casas que possuem. É que o sistema de arrendamento nesse país é diferente do de Portugal, competindo ao senhorio fazer a manutenção das habitações por dentro e por fora.

"Mesmo encostados a Nova York"

"Eu julgo que estou bem", confidenciou-nos, sorrindo, quando iniciámos a abordagem ao tema central desta entrevista, mas não deixou de expressar receio pelo facto de estar num estado contíguo ao de Nova York, razão da existência de "muitos casos de Coronavírus no seu estado por estarmos mesmo encostados a Nova York".

Por tal motivo, passa a maior do tempo em casa, "tentando não ir a nenhuma loja, apenas quando é necessário e mais nada". Recordou que "ainda ontem fui comprar uns tomates para plantar na horta que tenho aqui, e o patrão da loja andava sem máscara lá dentro", o que lhe provocou receios, confessou. Aos sábados e domingos "vamos até à casa da minha sogra ou até à de um primo dela (Manuel Ribeiro, de Coura de Seixas) que comprou uma casa e vou ajudá-lo a acabá-la".

"Agora já estão mais assustados"

Questionado sobre a forma como os norte-americanos estão a encarar a pandemia, atendendo a que no início ela foi desvalorizada, António Barros, com voz séria, respondeu-nos que "agora já estão mais assustados". Deu como exemplo o sucedido na Geórgia, em que após "terem liberalizado mais um bocado, em 24 horas tiveram mais de mil casos".

"Como é que hei-de explicar. Aqui, os trumpistas querem o mercado todo aberto e isso ("essas habilidades") é um problema". Apontou como prova destas atitudes, os comportamentos dos membros da governação norte-americana, em que "o próprio vice-presidente ainda há dias deu uma conferência de imprensa sem máscara". "Foi para dar o exemplo…", justificou, rindo-se.

António Barros confirmou-nos que a "situação em Nova York estava muito complicada, esteve mesmo muito mal, mas agora está um pouco melhor". Assinalou a existência de uma forte concentração populacional nessa cidade, "o que facilita o contágio" e se propaga aos estados vizinhos como o seu. Em Connecticut, com mais de três milhões de habitantes, "só ontem, Sábado faleceram 99 pessoas" e na sua terra (South Windsor) já tinham morrido nove pessoas. Acrescentou que há muita gente a trabalhar em Nova York e a viver em Connecticut "e isso agrava o problema".

"Basta haver um contaminado e não há hipótese"

"Em Nova York é uma loucura de gente e só quem lá andou como eu é que sabe o que é aquilo. Basta haver um contaminado e não há hipótese" para os que estão próximos, acentuou.

Em referência à população em que se encontra inserido, apesar de estar assustada, encara a situação com mais tranquilidade, porque "isto aqui é uma zona muito calma", à base de casas unifamiliares.

Este vilarmourense quase desde a nascença, adiantou ainda que em termos de abastecimento "nunca faltou nada" e em termos de assistência médica, "tenho um seguro que cobre tudo". Precisou, contudo, que, presentemente, "mesmo quem não tem seguro também é assistido, mas não é tão bem como os que estão cobertos", por ele, lamenta.

"O sistema de saúde americano é bem diferente do nosso", precisou. "Aqui pagas tudo bem pago" no caso de alguém necessitar de assistência médica, prosseguiu, e "se tiveres algum dinheiro, vão busca-lo todo".

"Aldrabão"

Pedindo-lhe uma apreciação à atitude do presidente norte-americano perante esta pandemia, António Barros vincou que "ele não acreditou no que acontecia e isso atrasou tudo", a par de "ser um indivíduo que diz hoje uma coisa e amanhã já diz outra e as pessoas não acreditam muito nele".

Definiu-o como "uma pessoa complicada e mesmo algumas pessoas com quem eu falo e que eram todos pelo Trump já dizem agora que ele é um aldrabão".

Cheques e mais cheques

Acentuou que o comportamento errático do presidente dos EUA nesta crise se deve ao seu desejo de ser reeleito, encontrando-se agora aflito. A comprovar a sua teoria, António Barros apresentou como exemplo "a distribuição de 1.200 dólares em seu nome às pessoas, há cerca de três semanas". Adiantou ainda que "já estão a falar agora que ele vai distribuir mais cheques ao comércio e indústria com a fotografia dele!". "Para já ainda não saiu nada, vamos ver", completou.

Perante este panorama e com a campanha que está a ser lançada contra o Joe Biden, candidato democrata à presidência da República, por causa do seu relacionamento com mulheres, este caminhense acredita que o Trump vai conseguir ser reeleito, porque "as pessoas, aqui, ligam muito a isso", assunto que nada deveria ter a ver com a política, assinala, mas, "é o sistema daqui", lamenta, em que tanto os republicanos como os democratas "pouco diferença fazem um do outro".

António Barros segue diariamente pela televisão o que sucede em Portugal e não hesita em afirmar que "comparativamente ao que foi feito aqui, o nosso país está muito melhor", dando como exemplo o que tinha acabado de ver na Costa da Caparica, em que a polícia ordenou imediatamente aos banhistas para que abandonassem a praia, mas "aqui…nada".

"Já se distribui comida aos pobres"

Apesar da política seguida pela administração norte-americana, António Barros acredita que a situação vai melhorar em termos de diminuição de casos de infecção. Quanto à parte económica, a recessão vai chegar, teme, principalmente aos países mais pequenos, embora no próprio solo norte-americano já haja muita pobreza e "já se distribui comida aos pobres, incluindo aos que estão ilegais", nomeadamente por intermédio das igrejas.

O desemprego sobe em flecha, destacou, dando como exemplo uns inquilinos seus (um casal e um irmão) que trabalhavam num restaurante e "não têm de onde lhes venha nada porque são ilegais". "Fui lá há dias para receber a renda e não tinham dinheiro", resultando que "fui eu a dar-lhes 100 dólares para poderem comer", porque todos os restaurantes a cafés se encontram fechados". António Barros apenas vai a restaurantes portugueses buscar comida, às vezes, e só servem para fora.

Referiu que habitam no estado de Connecticut cerca de 25 000 portugueses, e existem cinco ou seis restaurantes portugueses.

"As pessoas estão muito agarradas ao sistema"

Este vilarmourense é dos que não acredita que algo vá mudar de significativo após o fim da crise, porque, justifica, "as pessoas estão muito agarradas ao sistema".

Segundo tem verificado, a maioria dos americanos acredita que os culpados de tudo isto são os chineses, mas reconhece que "se o problema - viesse de onde viesse - fosse tratado logo ao princípio, não teria estas consequências".

Em termos ambientais, António Barros diz que alguns problemas já foram resolvidos com a pandemia, "o problema é que vai voltar tudo ao mesmo".

"Contrastes"

Em termos de práticas saudáveis no domínio do ambiente, o nosso entrevistado assume que em certos pontos, os EUA já tinham implementado certas práticas que não havia em Portugal quando lá chegou, como os processos de reciclagem de plásticos e vidros, a par de existirem muitos aterros sanitários devido às grandes indústrias e comércios, mas que se encontram devidamente controlados e condicionados. Contudo, há más excepções, como "um que eu conheço aqui perto e que se encontra perto de um ribeiro". Assim, entende que "o clima tem de ser tratado na sua globalidade, porque não vale a pena fazer umas coisas bem e outras mal".

Deu outro exemplo dos "contrastes" existentes neste país, como aquele em que obrigam as pessoas a limpar os muros e os caminhos, mas, nas grandes cidades, os copos de plástico abundam por toda a parte.

Fala todos os domingos com sua mãe

Os contactos com Portugal são estabelecidos regularmente, com amigos, seus filhos "e sua mãe com quem fala todos os domingos, "apesar dos seus 96 anos e de ouvir mal". Todos os anos vem a Portugal, mas já foi obrigado a adiar para Setembro a viagem que tinha marcado para agora, devido à pandemia.

Aos seus conterrâneos, de Lanhelas, Vilar de Mouros e de todo o concelho, espera que "se portem bem, fiquem em casa e saiam o menos possível e muita coragem, porque, no fundo, isto requer muita coragem, porque é difícil".


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Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


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