Afastados da sua terra, quer por opção de vida ou porque em Portugal não conseguiam o sustento imprescindível para si ou suas famílias, os emigrantes, naturais ou residentes no concelho de Caminha durante um período assinalável da sua vida, vivem esta crise de saúde pública e consequente recessão económica com natural apreensão, sem deixarem de se manter informados do que se vai passando no seu país, nas suas comunidades e com os seus familiares e amigos.
Publicamos nesta semana declarações de dois caminhenses a residir respectivamente na Espanha e Arábia Saudita.
José António Rocha Garrido (Arábia Saudita)
José António Rocha Garrido tem peregrinado por vários pontos do mundo, na sua vida errante de treinador de futebol. Fomos encontra-lo agora à frente de um clube da Arábia Saudita - o Al Batin Sports Club, da Segunda Liga deste país.
Com o campeonato suspenso (poderá reiniciar-se em Agosto) e quando lideravam a classificação, António Garrido veio para Portugal e aqui permanecerá até que os treinos sejam retomados nessa cidade saudita (Hafar Al Batin), situada a seis horas de viagem de carro da capital Riad e a uma hora e meia do Koweit e com fronteira com o Iraque.
Agora com 61 anos, este antigo atleta do Clube Amadores de Caminha, aqui jogou duas épocas nos juvenis, nasceu em Luanda e veio para Portugal aos 14, dando desde logo nas vistas as suas qualidades futebolísticas.
Do Amadores de Caminha passou para os juniores do Braga, cumpriu a tropa e ingressou no Monção, clube da III Divisão que representou durante quatro épocas, seguindo-se o Gil Vicente da II Liga por igual período de tempo, após o que ingressou no Chaves nas duas temporadas seguintes, até que dá um salto relevante na sua carreira, ao assinar contrato com o Benfica, e após um ano neste clube, transfere-se para o Boavista e aqui joga quatro anos, seguindo-se o Famalicão (um ano), Aves (dois), após o que iniciou a sua carreira de treinador aos 36 anos, ao assumir a função de adjunto neste clube treinado por Luís Campos (actual técnico do Lille).
Após esta experiência passou a treinador principal no Freamunde, Penafiel, Lousada, Vizela, altura em que conseguiu um contrato na Malásia, iniciando assim o seu périplo internacional, seguindo-se quatro anos no Koweit e outros tantos no Bahrein, um ano no Uruguai, mais quatro anos como director técnico da Federação de Futebol do Gabão (na altura com Jorge Costa como treinador), um país em que "o presidente da República gosta muito de futebol e a ele se deve a criação de uma liga profissional", destacou, de onde saltou para o actual clube saudita, voltando à Ásia, para um país com uma população de cerca de 30 milhões.
Referiu-nos que chegou ao Golfo Pérsico "através de ofertas de emprego", para o que contribuiu a sua experiência "de 10 anos naquela zona", tendo estabelecido "muitos contactos o que facilitou a minha colocação" na Arábia Saudita, um meio "difícil de entrar porque a qualidade do futebol é muito melhor" do que nos países limítrofes, sendo, por isso, "um mercado muito mais apetecível para toda a gente".
Vincou que "as coisas estão a correr bem" no novo clube que se encontra no primeiro ligar e que pretende regressar à I Liga de onde tinha descido na época anterior.
António Garrido tem 34 jogadores ao seu dispor no plantel, sendo que apenas quatro não são sauditas, mas dos quatro estrangeiros nenhum é português.
Explicou que treinam num campo normal, sem necessidade de ser fechado, e "quando está muito calor, podemos treinar a uma hora mais resguardada", por volta das sete e meia da noite.
A língua é uma dificuldade nestes países árabes, admite este técnico caminhense, embora "eu já esteja lá há muitos anos e, como eu costumo dizer, já não me engano", referiu, rindo-se, embora este ano, pela primeira vez, dispõe de um tradutor egípcio que fala português e que é formado em virologia (tirou o mestrado no Brasil), mas como estava com dificuldades de emprego no seu país, aproveitou a oportunidade, o que agradou ao técnico português, porque "também é muito boa pessoa".
António Garrido abordou seguidamente a consequência da interrupção do campeonato quando faltavam 10 jornadas para a sua conclusão, numa altura em que não havia qualquer notícia de contágio entre os jogadores das diversas equipas.
Contudo, ultimamente, os casos de contágio aumentaram muito na Arábia Saudita, à volta de mais de mil casos diários, atingindo 20.000 casos, embora as mortes estivessem na ordem das 170. Assinalou que "eles anteciparam-se à Europa nas medidas tomadas, tendo fechado tudo, incluindo as fronteiras aéreas e terrestres".
Precisou que o principal problema surgido na Arábia Saudita se centrou em Medina e Meca, "o centro da religião deles e para onde se dirigiram muitas pessoas do exterior a fim de celebrar o Ramadão". Isto sucedeu quando o Al Batin tinha um jogo marcado para lá, "numa altura em que ainda não se falava de vírus", recordou, e "foi aí que tudo começou", levando as autoridades de Riade a "fechar tudo", tendo sido decretada "a quarentena com recolher obrigatório todo o dia. Entretanto, em Hafar Al Batin, cidade deste clube, "nós já estávamos com tudo fechado desde as três da tarde às seis da manhã", mantendo-se apenas em funcionamento os estabelecimentos da parte da manhã, para "fazer compras".
Explicando a forma como esse país encarou a pandemia, este técnico de futebol disse que "no princípio, como não tinham casos, pensaram que as coisas iriam ser mais fáceis e menos graves do que na Europa". Contudo, perante o aumento dos números, foram tomadas medidas e "creio que não terão uma escalada de mortes como na Espanha e Itália", devido à forma como actuaram, supondo-se ainda que o calor possa ter influência na contenção do vírus.
António Garrido salientou a existência de um serviço de saúde eficaz, tanto para os residentes como para os estrangeiros, e um abastecimento total de equipamentos de protecção, remédios e de géneros e "os próprios supermercados dão máscaras e luvas logo à entrada".
Abertura
O facto de as mulheres andarem com a cara tapada, poderia permitir uma adaptação mais fácil às máscaras de protecção, mas este português acentuou que "isto está a mudar um bocadinho", devido às medidas que o príncipe sucessor está a tomar e a que deu o nome de "Visão 2030". "As mulheres já conduzem, não têm que andar tapadas e vão ao futebol em Riad e noutras cidades", mas, "na cidade onde estou, uma povoação mais pequena", precisou, existem ainda "algumas obrigações".
"Descuido"
A reacção da população a esta pandemia acaba por ser idêntica à de outros países, existindo "medo", dando como exemplo a da sua cidade, "onde não existiam casos, mas quando vim foram detectados cerca de 30 casos, devido à irresponsabilidade de uma pessoa que trabalhava num hospital e que se deslocou ao funeral de duas pessoas da sua família em Medina. "Veio infectada e contaminou umas 30 pessoas". Atribuiu a um "descuido" o sucedido, porque "ali não havia nada", acentuou.
Arábia provocou crise no petróleo
António Garrido abordou, a pedido nosso, o crise do petróleo a nível mundial, atribuindo à Arábia Saudita esta situação no intuito de "agitar o mercado que os estava a sufocar na altura", parecendo-lhe tratar-se de "uma medida correcta" na perspectiva dos interesses deste país, "porque eles não têm falta de petróleo", só que a pandemia "veio atrapalhar um bocado as coisas", sublinhou.
Num país em que o petróleo é fonte de abastecimento energético primordial, o aparecimento de alguns carros híbridos "admirou-me", admitiu, o que demonstra o sinal de "abertura" que se regista neste país do Golfo Pérsico.
Viagem aérea difícil
Entretanto espera pela decisão dos responsáveis desportivos e políticos da Arábia em relação à retoma do campeonato - "tudo dependendo da evolução da pandemia", acentuou. Cumpriu um período de confinamento de 15 dias após a chegada a Portugal, de avião. Foi uma viagem difícil de organizar, "devido à logística a que obrigou". Explicou que no princípio "tivemos (ele e sua esposa) de esperar bastante tempo pela viagem da TAP, inicialmente marcada até Paris e com destino a Lisboa. Mas como Paris não autorizou o voo "tivemos de apanhar no dia seguinte um voo da Arabian Airlines para Londres, e desde esta cidade, com a TAP, até Lisboa".
A disponibilidade e atenção da embaixada portuguesa em Riad "foram muito boas", sublinhou. Existem cerca de 300 portugueses a trabalhar nesse país asiático, dos quais um terço está ligado ao futebol.
Portugal no caminho certo
Enquanto permaneceu em solo saudita, António Garrido ia acompanhando a situação em Portugal e verificou que "no início as pessoas não aceitaram muito bem o confinamento". Entende que terá havido algum atraso no encerramento das fronteiras terrestres e aéreas, o que "terá precipitado um pouco" a expansão da pandemia, acredita. Contudo, assinala que "conseguimos impor as medidas e, agora, aliviadas um pouco, creio que estamos no caminho certo", assegura.
Opinião sobre o desfecho dos campeonatos
Estando Portugal numa fase de decidir se o Campeonato Nacional de Futebol se reinicia ou não, como homem ligado a esta modalidade, António Garrido comentou esta situação, dizendo-nos que "tenho muitas dúvidas" sobre a possibilidade de voltar a haver competição nesta época. Contudo, "após a reunião que houve ontem (Terça-feira) de continuar o campeonato, espero que o Campeonato acabe, assim como eu espero que o meu também termine e possamos alcançar o objectivo", mas, insiste, "neste momento, vejo a coisas muito difíceis".
António Garrido chamou a atenção para o perigo de os jogadores se contaminarem a praticar este desporto, dando como exemplo a opinião de alguns "espertos" que dizem que "um jogador, ao cabecear uma bola está sujeito a contaminação", porque, justificou, "ao fazê-lo, essa bola já veio de alguém, além de haver sempre espirros" e outras situações decorrentes de um jogo de futebol.
Desafiado a dar a sua opinião sobre as decisões a tomar, no caso de o Campeonato português não ser concluído, António Garrido entende que "deveria haver um campeão, e quem está em primeiro está em primeiro, e quem está em segundo está em segundo". Recordou que "o Benfica estava em primeiro na penúltima jornada, mas deixou-se ultrapassar, e neste momento é o Porto".
Além desta situação, José António Garrido recordou ainda outras "muito importantes" respeitantes às "subidas e descidas", incluindo nos regionais, no Campeonato de Portugal e na II Liga, as quais foram suspensas, destacou.
Insistiu que as equipas que se encontravam à frente, "também deveriam ter direito a subir, mesmo que não haja descidas e que para o ano desçam mais", de modo a "dar mérito a quem de facto deve subir".
Esta antigo praticante acredita que se o Campeonato for reatado, isso se deverá às grandes implicações financeiras que envolvem a modalidade, podendo ser jogadas as 10 jornadas que faltam em cinco semanas, em quatro ou cinco estádios.
Fé no Futebol
Apesar desta crise a que o futebol também não é alheio, António Garrido não acredita que a modalidade seja afectada por ela, baseado no facto de "já termos vivido muitas crises, de não pagamentos, falta de salários e o futebol deu sempre a volta, reaparecendo e vai voltar a fazê-lo", acentua. Embora sublinhando a "dificuldade" do momento actual incluindo para os clubes mais ricos, insiste que "quem mais sofre são as equipas menores e os seus jogadores", muitos destes atletas "a passar mal", assegura, apesar "do grande esforço do Sindicato dos Jogadores".
Foi acompanhando igualmente a problemática do futebol português através da Internet e outros meios de se manter informado do panorama desportivo. Confirmou que para a população saudita amante do futebol, Cristiano Ronaldo é também a grande estrela portuguesa.
Regressar à Arábia
A terminar, António Garrido garantiu que pretende regressar ao clube com quem mantém contrato, tendo, inclusivamente, "assinado uma declaração antes de vir para Portugal, comprometendo-nos que iríamos agora de férias e voltaríamos para o reinício do campeonato" e, precisou, "sem cortes nos salários, de momento" realçou.
Com um espírito positivo, este jogador iniciado no clube de Caminha, insiste na sua convicção de que tudo se recomporá logo que "isto acalmar", sendo possível novamente a "aglomeração das pessoas, embora não tão cedo como as pessoas quereriam".
"Caminha no meu coração"
António Garrido, concluindo, afirmou que "tenho Caminha no meu coração, a terra onde cresci, apesar de ter nascido em Angola, e o meu pai - que infelizmente já cá não está - era um grande homem (emocionou-se), e toda a minha família está aí", recordou, frisando que "falo" quase todos os dias com minha mãe e meus irmãos". E quando vem a Portugal, "sempre que posso, vou aí".