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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

Há caminhenses a viver no estrangeiro por necessidade de encontrar um trabalho ou a fim de melhorar as suas condições de vida, e outros por opção familiar, o que proporcionou uma permanência mais ou menos longa nesses países de adopção, conforme os casos.

O C@2000 publicou nas edições nº 969 e 970 a recolha de depoimentos de caminhenses que vivem e trabalham em diferentes países e continentes.

Afastados da sua terra, quer por opção de vida ou porque em Portugal não conseguiam o sustento imprescindível para si ou suas famílias, os emigrantes, naturais ou residentes no concelho de Caminha durante um período assinalável da sua vida, vivem esta crise de saúde pública e consequente recessão económica com natural apreensão, sem deixarem de se manter informados do que se vai passando no seu país, nas suas comunidades e com os seus familiares e amigos.

Publicamos nesta semana declarações de dois caminhenses a residir respectivamente na Espanha e Arábia Saudita.

Maria da Assunção Pacheco de Amorim (Valência - Espanha)

Maria da Assunção Pacheco de Amorim, 61 anos, natural de Vilarelho, onde residiu na Quinta da Graça, casou com um valenciano e por lá ficou. Vive com seu marido desde 1980 numa pequena cidade perto de Valência, Moncada ("terra natal do meu marido"), com 22.00 habitantes, essencialmente virada para a agricultura (cultivo de laranja). Antes de se fixar nesta região, viveram três anos no norte da Catalunha. Tem quatro filhos e seis netos, sendo que quatro deles se encontram com seus pais na casa dos avós durante este período de confinamento.

"É complicado manter a crianças em casa"

Admitiu ter sido "complicado manter as crianças em casa tantos dias seguidos" durante estas semanas, porque elas não entendem muito bem a situação", ao contrário dos adultos que são obrigados a adaptarem-se. No entanto, no seu caso pessoal, "como passo muito tempo em casa", o tempo não custa tanto a passar, limitando-se a manter "o ritmo do dia-a-dia", apenas faltando tomar o café da praxe.

Desprotegidos

Evidenciou a sua desolação pela forma como o Estado tem vindo a gerir a situação, definindo-a como "fraudulenta", devido à morte de "tanta gente", o que considerou inaceitável.

"O Estado é o nosso pai e a nossa mãe e têm a responsabilidade de velar por todos, porque nós próprios não podemos fazer as coisas, nem temos acesso a ir comprar máscaras nem luvas que não há no mercado, porque o que entra é confiscado".

Lamentou a falta de testes e quando os fazem nos hospitais, enviam as pessoas para casa, o que a leva a insistir que se sentem "defraudados" e quando saem à rua "fazemo-lo com medo, vemos as pessoas e fugimos delas".

"Inveja de Caminha"

Perante o cenário que descreve do país vizinho, fá-la "ter inveja de Caminha", onde se vive de uma forma mais saudável, ao contrário do que sucede numa grande cidade "com muitos prédios e apartamentos" contíguos.

Na altura em que a entrevistamos, tinham acabado de dar autorização para que as crianças pudessem sair ("um adulto com três crianças"), mas, lamentou, "o caos total porque as pessoas esqueceram-se que estavam em confinamento e não mantinham as distâncias, com as mães a conversarem em grupo e sem máscaras". Apenas valorizou ter sido "um dia de liberdade com a canalha à solta e feliz, mas não pode ser…" alertou.

Perante a situação caótica gerada, o próprio Governo valenciano ameaçou cortar com esta abertura "se vocês não souberem comportar-se bem", avisou.

Tem uma opinião desfavorável sobre a forma como as televisões apresentam a situação em Espanha, acreditando que "não dizem tudo, ou não dizem sempre a verdade", o que os leva "a visionar todos os canais a fim de extrair uma conclusão".

Do caos à normalidade no abastecimento

Reportando-se aos primeiros momentos do confinamento, Maria Pacheco de Amorim vincou que as pessoas dirigiram-se aos supermercados e "levaram tudo", em referência a coisas "inimagináveis, sem falar já no papel higiénico, o que até se tornou anedótico", frisou.

Presentemente, a situação é calma, "vamos ao supermercado (situado a 20 metros de casa) uma vez por semana" e a vantagem de viver numa cidade pequena, permite-lhe deslocar-se rapidamente se necessitar de algo.

Jogo de futebol foi rastilho

Admitiu que o jogo de futebol entre o Atalanta e o Valência despoletou este surto pandémico na região valenciana, porque quem veio de lá contaminado, infectou a família, tornando-se um rastilho.

Na sua opinião, dever-se-iam ter tomado medidas mais cedo em Espanha e nos demais países - independentemente da cor política do governo que estiver no poder -, logo que começou a ser conhecido o que estava a suceder na China. E utilizou um provérbio popular para definir a situação: "quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho".

"Riscos grandes para os profissionais de saúde"

"Pelo menos", acentuou, assegurar material de protecção, dando como exemplo o que lhe contou "uma grande amiga e vizinha minha, enfermeira que saiu há quatro dias de coma induzido, após ter estado 22 dias entubada".

Embora os profissionais de saúde "amem a sua profissão e são incapazes de deixar de trabalhar mesmo se não estiverem protegidos" os riscos são grandes. Essa amiga referiu que a qualidade das máscaras de protecção era tão fraca que se rompiam quando as punham.

O mesmo se terá passado com a razoabilidade dos testes, que só agora parecem ser fiáveis.

"Portugal falado no mundo inteiro"

Pedindo-lhe uma apreciação à forma como Portugal vem lidando com esta pandemia, não hesitou em admitir que "o que se passa em Portugal é falado no mundo inteiro e toda a gente diz: vamos viver para Portugal", porque se no nosso país apenas morreram cerca de 1000 pessoas, "em Espanha já vai a caminho dos 30.000, o que não é brincadeira".

Maria Pacheco de Amorim tem mantido contactos com amigos (nomeadamente a Mané) e familiares em Portugal e "recebo muitas notícias através do facebook e vejo o telejornal", o que a mantém informada sobre a situação no nosso país.

Situação económica complicada

Perante o cenário de recessão a que já se assiste, perguntamos-lhe se tal eventualidade não a preocupava, referindo que seu marido já se encontra reformado, apenas esperando que não sejam aplicados cortes nas pensões. Já quanto aos seus filhos, a apreensão existe. Uma filha trabalha na universidade de Valência, o que poderá não lhe acarretar problemas, mas já quanto aos seus irmãos, a situação poderá revelar-se complicada, teme. E no que se refere aos pequenos comércios e aos trabalhadores autónomos (independentes) a situação é complicada, receando que fechem ou deixem de trabalhar, porque "aqui, a recessão será brutal".

Contrastes

Esta caminhense aponta ainda para um horizonte negro na Europa, o facto de se manter a "divisão" entre os países do norte e do sul. Compreende, no entanto, a posição dos países mais desenvolvidos, dando como exemplo a sua gestão de dona de casa, ao guardar "um pouquinho o dinheiro que me entra a custo de trabalho", ao invés do que sucede com um vizinho que "anda na borga e me vem pedir emprestado a mim - que me custa ganhar. Eu posso emprestar-lhe uma, duas vezes, mas à terceira mando-o trabalhar ou digo-lhe para não gastar tanto".

Insiste que os povos e governantes do norte são "castos e prudentes, não têm carros, nem choferes e os ministros vão a pé, andam de bicicleta ou deslocam-se de combóio" e sem necessidade de guarda-costas. Por tal motivo, estas despesas deveriam ser suprimidas, nomeadamente, numa altura em que "muita gente não tem dinheiro para dar de comer aos filhos".

Sendo Valência uma zona de forte turismo, Maria Pacheco de Amorim, diz não ter palavras para explicar o que vai suceder ao sector, pelo menos até final do ano.

Esta pandemia gera sentimentos múltiplos nas sociedades, interrogando-se sobre o futuro das nações em vários domínios, logo que esta praga termine.

"Temos que mudar"

A nossa entrevistada espera que a vida mude para melhor, porque "vais dar valor a coisas que não davas antes", como seja o simples gesto de "dar um abraço aos teus amigos e amigas ou ir tomar um café a uma esplanada, ou simplesmente estar vivo".

Outro aspecto - talvez um pouco anedótico nisto tudo -, é a forma como as pessoas se entretêm para passar o tempo, dando como exemplo a decisão da sua filha mais nova de "estar a aprender a cozinhar comigo através do whatsapp - o que acho fantástico e divertido - e reconhecendo agora que eu tinha razão, porque poupa-se dinheiro a preparar as refeições em casa e não a comprar tudo feito".

Concluindo, Maria Pacheco de Amorim afirma convictamente que "temos que mudar, porque não se pode continuar a viver assim".

"Eu oiço a noite, aqui"

Apontou outro pormenor da alteração introduzida com este confinamento e redução drástica do trânsito e movimento das pessoas: "Eu oiço a noite, aqui, e dantes não se ouvia. É diferente. O ar cheira de outra maneira, não cheira a poluição, nem a carros". Vocês aí não notam tanto, mas para quem vive numa cidade…"

"Espero bem que isto tenha sido uma lição" e pede "civismo e humanidade", além de cuidados redobrados em termos ambientais "bastando ver a qualidade do ar que temos, as imagens do canal de Veneza em que se vê o fundo, as anémonas a andarem por aí ou a chegada dos delfins ao porto de Barcelona".

Neste período de recolhimento forçado por um vírus invisível, as pessoas recordam o seu passado e os amigos ("todos") de Caminha, dos quais "tenho imensas saudades e espero vê-los a todos e isto (entrevista) é como se estivesse aí um bocadinho".


Edições C@2000

Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

Autor: Joaquim Vasconcelos
Edição: C@2000


Memórias da Serra d'Arga
Autor: Domingos Cerejeira
Edição: C@2000

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