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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

O C@2000 iniciou na passada edição a recolha de depoimentos de caminhenses que vivem e trabalham em diferentes países e continentes.

Afastados da sua terra, quer por opção de vida ou porque em Portugal não conseguiam o sustento imprescindível para si ou suas famílias, os emigrantes, naturais ou residentes no concelho de Caminha durante um período assinalável da sua vida, vivem esta crise de saúde pública e consequente recessão económica com natural apreensão, sem deixarem de se manter informados do que se vai passando no seu país, nas suas comunidades e com os seus familiares e amigos.

Publicamos nessa semana declarações de duas caminhenses a residir respectivamente na Holanda e Alemanha.

Prosseguindo esta aposta em que nestes dias de isolamento as notícias, invariavelmente, acabam quase todas por ser envolvidas neste turbilhão de sentimentos e temores, falamos esta semana com um emigrante a residir no Uruguai.

Fernando Costa (Uruguai)

Fernando Costa, um caminhense de 63 anos, com mais de metade da sua vida no estrangeiro, repartida entre o Canadá (30 anos) e presentemente no Uruguai onde reside há cerca de quatro anos e meio, espera agora poder regressar definitivamente a Portugal dentro de dois meses, a tempo de vir celebrar os 90 anos de sua mãe.

Aproveitando uma operação desencadeada pelo governo uruguaio há uns anos, designada de "retorno", e como sua mulher necessitava de dar apoio a sua mãe, decidiram deslocar-se para este país sul-americano, ao abrigo de um programa de incentivos ao regresso de emigrantes, um processo idêntico ao que o actual governo português estava igualmente a desenvolver nos últimos tempos nas diferentes embaixadas, recordou quando o contactamos a fim de recolher a sua visão sobre esta crise.

No Canadá, teve como principal ajuda o facto de falar quatro idiomas. Além do português, também o espanhol, francês e inglês. Dedicou-se à mecânica - uma experiência já vivida no país de origem, com ligações às corridas -, abraçando seguidamente a gastronomia, tendo tirado um curso de chefe de cozinha italiana e acabando nos negócios imobiliários, trabalhando com a Remax durante 28 anos.

Já no Uruguai, foi-lhe difícil encontrar uma ocupação, situação idêntica à de muitas outras pessoas com mais de 60 anos, dedicando-se a cuidar das propriedades que possuíam em Montevideu. Seguiu-se uma experiência "incrível a nível de relações humanas" como taxista, após um amigo lhe ter conseguido esse trabalho, e agora espera voltar em breve a Portugal.

O Uruguai possui apenas três milhões de habitantes, com cerca de meio milhão de idosos, famílias pouco numerosas, uma população reduzida, devendo ter-se em consideração que a sua área geográfica é três vezes superior à de Portugal. Assinalou que durante o período da ditadura houve muita gente que emigrou e nunca mais regressou, o que contribuiu para esta diminuição demográfica, embora se tivesse assistido nos últimos tempos a um retorno de cerca de meio milhão de venezuelanos, dominicanos e principalmente cubanos.

"Uma figura diferente na política mundial"

Uma personagem pública extremamente popular no Uruguai é Pepe Mujica, ex-presidente do país e senador até 2018, agora com 84 anos, definido por este caminhense emigrado nesse país como "uma figura diferente na política mundial".

Acentuou que o conhece bem, por intermédio de um filho de um emigrante português presentemente na casa dos 80 anos, seu amigo - e que vive em frente da pequena quinta do antigo presidente e guerrilheiro tupamaro que lutou contra a ditadura uruguaia e esteve preso durante anos -, num lugar de Montevideu a que apelidam de o "Céu". Disse-nos que continua ainda activo na Frente Amplia (seu partido) e no campo social. Fernando Costa referiu-nos que o conheceu ainda como algo "extremista" e muito activo neste campo, vendo-o agora "mais filosófico e a querer encontrar soluções para problemas que ele não conseguiu resolver enquanto presidente da República".

Apreciando a carreira política e cívica deste antigo presidente uruguaio, Fernando Costa, disse-nos que ele tinha chegado ao fim do seu mandato de cinco anos, "dando-nos a entender a todos que não se enganassem, porque ser presidente da República não era para ser o dono de tudo, e que aquilo que pretendia fazer, não o conseguiu".

Quarentena voluntária

Analisando a situação do Uruguai como resultado desta pandemia, precisou que manteve sempre muitos contactos com imensa gente, mas, "há cerca de duas semanas, tomei a decisão de me colocar voluntariamente de quarentena, por estar numa idade de risco e me manter em contacto directo com o público", ao ter abraçado a profissão de taxista.

No início desta semana, quando o entrevistamos, havia pouco mais de 500 casos confirmados de pessoas infectadas pelo Coronavírus, dos quais cerca de 300 já tinham recuperado e apenas 11 óbitos, "todos com outro tipo de problemas", assinalou.

Acredita que as decisões "rápidas" tomadas pelo novo governo uruguaio investido por alturas do aparecimento dos primeiros casos, foi determinante na contenção da pandemia.

Escolas com regresso gradual

Neste país sul-americano encontra-se "tudo encerrado", contou, existindo uma escassa circulação de transportes públicos, incluindo os táxis, mantendo-se apenas em funcionamento os supermercados e farmácias. As escolas foram igualmente encerradas, prevendo-se a sua reabertura a partir da próxima Segunda-feira nas zonas do interior. Chegaram a prever ministrar aulas pela Internet, utilizando o programa Ceival, introduzido no tempo de Pepe Mujica que distribuiu tablets a partir do 5º ano, mas como estavam para entrar no período de férias do Outono, optaram por prolongá-las mais um tempo e reiniciar posteriormente o processo lectivo de uma forma gradual.

"Uruguaios não gostam de ficar retidos em casa"

Sublinhou, no entanto, uma "particularidade" detectada por si e por um amigo seu no último fim-de-semana: os uruguaios não gostam de ficar retidos em casa. Esse amigo, o jornalista Fernando Vilar, "uma grande figura no Uruguai e reconhecido pelo próprio governo português há um tempo atrás", é natural de uma aldeia de Monção, e amiudadamente, realizam convívios. Fernando Costa aproveita esses momentos para exibir os seus dotes de culinária, tendo procedido à recuperação da gastronomia portuguesa que se encontrava esquecida neste país. Bolos de bacalhau e rissóis de camarão são alguns dos petiscos resgatados à memória dos seus conterrâneos e dados a provar também a amigos uruguaios que prezam o convívio. Exemplo da aversão dos uruguaios a manterem-se em casa, aos fins-de-semana começaram a ir para a praia logo que as notícias apontavam para um decréscimo de casos e o controle abrandou, levando as autoridades a tomar medidas, chegando a "colocar um helicóptero nas praias", aconselhando os banhistas para que não saíssem de casa.

Cozinhar para passar o tempo

Acentuou que passa estes dias de confinamento a cozinhar (ri-se) e convida amigos portugueses para degustarem os seus pratos, a par de ir entregar alguns dos seus cozinhados a vizinhos, como tinha acabado de suceder quando o contactamos. Acrescentou que como é membro da Câmara de Comércio Uruguaia-Portuguesa, realizam "reuniões on-line e conversamos um bocado". Adiantou que a par destas actividades, logo pela manhã, pelas seis horas, "vou caminhar para a marginal, faço exercício e no regresso vou ao supermercado, leio (estava a ler um livro de um português, "As três vidas", de João Tordo) e assim passo os dias".

Acentuou que nada falta no Uruguai, embora o álcool tivesse escasseado nos primeiros dias, mas esse stock foi rapidamente reposto.

"…o Uruguai espirra"

Após admitir que há um certo receio da reacção dos jovens agora em confinamento, logo que as medidas sejam aliviadas, assinalou ainda que a parte económica é temida pelos uruguaios, "essencialmente porque este país é muito dependente do turismo, sobretudo do Brasil e Argentina", nomeadamente deste segundo estado sul-americano que atravessa um período difícil e, a propósito, recordou um refrão desse continente que diz que "quando a Argentina se constipa, o Uruguai espirra".

Fernando Costa tem acompanhado a situação em Portugal e na Europa, mas pretende assegurar a idoneidade das notícias, devido às fake news que proliferam nas redes e que "nos põem confusos". Vê a SkyNews e segue os jornais portugueses e enche-o de orgulho ver o nome de Portugal destacado como "um "exemplo ou milagre" no combate ao Coronavírus, facto que cala bem fundo no coração dos emigrantes, designadamente naqueles que estão há muito tempo afastados da Pátria.

Estando as fronteiras do Uruguai umbilicalmente ligadas ao Brasil, cujos habitantes optam por fazer férias nas praias uruguaias, é natural que tudo o que se passa no país de fala portuguesa interesse aos que se encontram à sua volta.

Brasileiros optam por passar férias no Uruguai por razões de segurança

Fernando Costa começou por nos dizer que sempre lhe fez espécie o facto de os brasileiros optarem pelas praias uruguaias, nomeadamente em Punta del Este, quando possuem uma extensa zona de costa bem bonita e de águas quentes, ficando a saber que as escolhiam "por razões de segurança".

Tendo vários amigos brasileiros a fazer esta escolha de férias, teve oportunidade de conversar com eles sobre as opções tomadas pelos governantes do país canarinho perante a pandemia do Coronavírus.

"Medo pela forma como o governo brasileiro está a actuar"

Reparou que mesmo entre os simpatizantes ou apoiantes de Bolsonaro, existe "medo pela forma como o Governo brasileiro está a actuar", designadamente por "menosprezar a realidade", embora "não digam que estão em desacordo com ele, porque não querem mostrar que são da sua facção", mas criticam-no.

Ao contrário, o Governo do Uruguai, embora seja de centro-direita, "está mais preocupado com a saúde do que com a economia".

Reforça a sua ideia, porque constata que no Brasil, há muita gente que "não segue a linha de pensamento do presidente e do governo em geral". Deu como exemplo uma grande comunidade de portugueses existente em Rio Grande do Sul, no Brasil, "onde tenho muitos amigos". Tinha abordado o tema com sete deles que lhe confirmaram que "estavam em casa há duas semanas, com o negócio fechado, cuidando primeiro da sua saúde e, depois, se verá o resto".

"Nós temos de mudar"

Quando esta crise sanitária terminar - num prazo que é impossível de determinar nos dias de hoje -, Fernando Costa assegura que "nós temos de mudar".

Indicou como exemplo, um hábito do povo uruguaio que carece de alteração: "Aqui, no Uruguai, quando um homem encontra um amigo, beijam-se", uma saudação que é seguida por quase todos, mas, insistiu, "este tipo de coisas vai ter que acabar".

"A nossa forma de preservar o ambiente"

Reforçou que "estes bichinhos invisíveis vão estar por aqui durante muito tempo", recordando-se ainda do que sucedeu com o SARS, quando ainda estava no Canadá. "As coisas não vão mudar por si. Nós é que temos que mudar a nossa atitude, a nossa forma de preservar a saúde e o ambiente".

A propósito da natureza e do ambiente, Fernando Costa contou-nos uma coisa curiosa que "tenho visto perto da minha casa", prendendo-se com o aparecimento de animais "que eu nunca tinha visto", apontando os papagaios pequeninos nas árvores e "as gaivotas à vontade e toda a passarada na Baía de Montevideu", reforçando por isso a ideia de que "teremos de mudar e, embora tenhamos a memória curta, acho que vai surgir muita gente a exercer pressão para que as coisas mudem realmente e creio que será para melhor".

"Sou positivo"

Insistindo na alteração de comportamentos e forma de vida, este emigrante com saudades da sua terra, confessou-nos que "já passei muito na minha vida, mas sou positivo e a natureza encarrega-se de nos chamar a atenção para algumas coisas".

A terminar, Fernando Costa, após referir que não necessitava de enviar qualquer mensagem para seu filho e irmão - "com quem estive a conversar há 10 minutos" -, dirigiu-se a todos os caminhenses em geral porque "está a falar um indivíduo que só soube o que é Caminha e especialmente o Alto Minho depois o ter perdido" .

"Só depois de o deixar é que comecei a saber de onde sou"

"Cuidem do Minho porque é um dos locais mais maravilhosos que há - e conheço muitos".

Deu como exemplo do que acabara de dizer, um episódio passado com uma excursão de sócios da Casa de Portugal em Montevideu (da qual é director) ao nosso país, há uns quatro meses. Geralmente, estas viagens tinham como destino o Algarve, Lisboa e Porto "e daí para cima não passavam". Mas eu falava-lhes sempre das belezas de Caminha.

Nessa ocasião, "três das senhoras que incluíam esse grupo turístico tiveram a gentileza de visitar a minha mãe e o meu irmão em Caminha, e quando regressaram, disseram-me: Fernando, o que estás a fazer aqui? E uma delas garantiu-me que se ela fosse de Caminha, nunca teria saído daí".

PS: Em Montevideu existem poucos portugueses. Um deles, no entanto, é uma pessoa de Dem "muito conhecida" na cidade. Trata-se de António Pires, dono de um restaurante, membro de uma família muito grande, primo dos donos da Cova da Onça e de um antigo taxista na praça de Caminha já falecido. É casado com uma senhora do Uruguai, tem dois filhos que estão presentemente à frente do restaurante e "já quase não fala português". Situação comum a quase todos os demais portugueses, destaca, porque "a falar português, presentemente, só eu e um senhor alentejano, empresário, o Luís Panacho".


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Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


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