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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

O C@2000 iniciou na passada edição a recolha de depoimentos de caminhenses que vivem e trabalham em diferentes países e continentes.

Afastados da sua terra, quer por opção de vida ou porque em Portugal não conseguiam o sustento imprescindível para si ou suas famílias, os emigrantes, naturais ou residentes no concelho de Caminha durante um período assinalável da sua vida, vivem esta crise de saúde pública e consequente recessão económica com natural apreensão, sem deixarem de se manter informados do que se vai passando no seu país, nas suas comunidades e com os seus familiares e amigos.

Publicamos nessa semana declarações de duas caminhenses a residir respectivamente na Holanda e Alemanha.

Prosseguindo esta aposta e em que nestes dias de isolamento as notícias, invariavelmente, acabam quase todas por ser envolvidas neste turbilhão de sentimentos e temores, falamos esta semana com uma enfermeira a residir em França.

Ângela Ferreira (França)

Ângela Ferreira, uma enfermeira de 32 anos, natural de Loivo, Vila Nova de Cerveira, e que fez todo o seu percurso escolar, desde a primária até ao secundário em Caminha, após o que tirou o curso de enfermagem na antiga Escola Superior de Enfermagem de Viana do Castelo, concluído em 2009. No ano seguinte já estava a trabalhar no sul de França, em Nîmes, região de Occitânia, devido a ter sido impossível arranjar trabalho no norte de Portugal e, "para ir para o Algarve", era preferível viajar para o estrangeiro, assumiu.

A sua melhor amiga do curso de enfermagem (nascida em França) já tinha emigrado no início de 2010 e doze meses depois Ângela Ferreira foi ter com ela, porque "era alguém com quem eu poderia partilhar a experiência" que dura há 10 anos, sem nunca perder a ligação à sua terra, levando-a a vir a Portugal "várias vezes ao ano".

Serviços domiciliários

Dedicou-se a realizar serviços domiciliares alguns anos depois de ter chegado a esta cidade, atendendo a que os Serviços de Saúde em França são diferentes dos de Portugal, onde existem os Cuidados de Saúde Primários com Centros de Saúde Públicos e Hospitalares. Contudo, em França, "os médicos de medicina geral e familiar são independentes, com tarifas geridas pela Segurança Social - uma consulta num médico de família custa 25€ -, situação idêntica à da prestação dos seus serviços de enfermagem domiciliar que "é paga ao acto". A Segurança Social comparticipa com a sua parte e as pessoas têm quase todas um seguro pessoal que cobre o correspondente ao que têm de suportar pelo serviço requisitado.

Como referimos, a enfermeira Ângela não se dedicou de imediato ao trabalho que desenvolve presentemente, tendo passado os dois primeiros anos na área de Geriatria e os outros sete em Nefrologia, no Hospital Público (Centro Hospitalar Universitário) dessa cidade.

O desinvestimento na saúde gerou alguma degradação nos serviços, quer pela sobrecarga, quer pela qualidade do trabalho, tendo então decidido "sair do meio hospitalar, pedindo uma licença sem vencimento (porque sou funcionária pública) e estou há quase três anos nos domicílios".

Segundo nos revelou, trabalho não falta, dado que são requisitados para proceder a muitos actos de enfermagem e também de higiene, nomeadamente a pessoas encamadas, uma forma de completarem os seus ordenados. Referiu que contrariamente ao que sucede em Portugal, os auxiliares de enfermagem que realizam a higiene não estão autorizados a praticá-la individualmente, sendo obrigados estar ligados a uma empresa. Utilizam meios próprios para se deslocarem.

No seu meio, há poucos emigrantes portugueses que solicitam os seus serviços, atendendo a que a maioria dos habitantes é de origem francesa e do norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia), assistindo-se a uma sociedade multicultural.

"Não a vivo (crise) muito bem"

Reportando-se ao tema central desta entrevista, a crise de saúde provocada pelo Coronavírus, Ângela Ferreira admite que "não a vivo muito bem", porque, justificou, "há mais um sentimento de revolta da minha parte pela forma como o Estado está a gerir a situação ", do que propriamente pelos riscos pessoais que corre por inerência de uma profissão que, por si só, já comporta esses riscos ao visitarem as casas de doentes com diversas patologias, incluindo as psiquiátricas, porque, refere, "podem ter comportamentos imprevisíveis", ou tuberculose de que não se fala tanto mas continua a haver.

Assume que com a pandemia do Covid "o stress sobe", mas o principal problema reside na falta de equipamentos de protecção individual que "não há", lamenta. Prosseguindo, apontou como prioridade do Estado francês o fornecimento desses equipamentos aos hospitais, "mas que estão muito mal servidos", de acordo com o que lhe contam colegas com quem tem contactado, dizendo que "estão constantemente em perigo de serem contaminadas". Esta situação levou a que tanto os profissionais de apoio ao domicílio, como os médicos de família se vissem obrigados a "desenrascarem-se", levando-os a "pedincharem" às empresas (de pintura, por exemplo) a fim de poderem trabalhar em segurança.

Saúde foi negligenciada

Questionada sobre o facto de uma potência mundial como é a França apresentar tantas carências nesta crise, Ângela Ferreira insistiu que este país "tem negligenciado a saúde há muitos anos", situação que tem constatado nestes 10 anos de permanência entre os gauleses.

"A saúde não pode ser gerida como uma empresa e não é para dar só dinheiro ao Estado, mas sim para tirar a doença". Apesar dos alertas, manifestações e greves dos profissionais de saúde, "tudo vai correndo mais ou menos até ao momento em que que surge uma crise grave como esta e que mostrou todas as fragilidades do sistema de saúde", e apesar de a França ser uma potência mundial, está de cuecas", lamenta, devido às políticas seguidas até aqui.

O abastecimento encontra-se regularizado, presentemente, esclareceu-nos, embora no início do confinamento tivesse havido escassez de massas e farinhas e outros alimentos, porque as pessoas criaram "stocks", até que "se convenceram que não era necessário".

Quando trabalha, esta enfermeira começa às 6 horas e interrompe por volta das 12H30, embora presentemente tenham reduzido esse horário porque em virtude do confinamento, as pessoas estão em casa e prestam apoio aos familiares.

Rotinas diárias obrigatórias

Ângela Ferreira e suas colegas estão obrigadas a rotinas diárias como forma de se protegerem de uma eventual contaminação. Quando chega a casa após prestar os apoios domiciliares, "tiro a roupa la fora, vou tomar banho - lavo o cabelo duas vezes por dia - e recomeço pelas 15H3/16H e acabo pelas 19 horas, voltando a realizar o mesmo ritual," incluindo a desinfecção do seu carro, limpando a manete das mudanças, guiador, puxador e tudo o mais onde toca.

Como resultado da sua actividade profissional, é-lhe permitido contactar com inúmeras pessoas e aperceber-se do seu estado de espírito.

Reconhece que as reacções dão díspares. "Há pessoas inconscientes e que acham que isto é como um vírus da gripe e que isto está a ser sobrevalorizado, mas a maioria tem medo". Sublinha, contudo, que "os franceses são pouco disciplinados", nomeadamente nesta parte sul do país, e "continuam a sair quando há sol".

Aponta para esta posição das pessoas, aquelas que "vivem em 50 m2, com filhos, em teletrabalho", o que se torna "complicado" de gerir o dia-a-dia.

Portugal apontado como "exemplo na gestão do Covírus"

A evolução da situação em Portugal (e também em França) é acompanhada ao mínimo por esta enfermeira, porque como a televisão está de manhã até à noite a falar do Covírus, como "há informações contraditórias", limita-se praticamente a ler os mails da Direcção-Geral de Saúde com as suas directivas e "pouco mais". Tem-se mantido em contcato com seus pais e é por eles que se vem mantendo mais informada, porque nos diálogos com amigos portugueses, "as conversas são mais banais".

Frisou, no entanto, que na televisão francesa passou um apontamento que indicava Portugal como um "exemplo na gestão do Covírus".

Comentando a resposta da União Europeia a esta crise pandémica, embora não acompanhe em pormenor as posições dos diversos estados, na sua opinião pessoal, "viu-se que no fundo não é auto-suficiente, embora supostamente tivesse sido criada para que existisse uma solidariedade, entreajuda e uma força económica maior, mas continua a depender muito de países como a China, e quando este país tremeu, toda a gente tremeu", porque não havia máscaras nem outros equipamentos.

Apesar da divisão e dificuldade em encontrar soluções comuns, Ângela Ferreira acredita que "a União Europeia encontrará uma forma de entendimento, porque outros valores mais altos de levantam e que o comum dos cidadãos desconhece".

Máscaras protegem os outros

Um tema que tem suscitado diversas interpretações, opiniões desencontradas, e de encontro à própria evolução da pandemia e disponibilidade dos equipamentos, prende-se com a utilização de máscaras de protecção.

Esta enfermeira portuguesa em terras de França foi peremptória em afirmar que "as máscaras só não são aconselhadas a toda a população porque não há". Explicou que as máscaras básicas, cirúrgicas, "protegem a contaminação entre as pessoas" e se uma pessoa se encontra contaminada, deve usá-las. O problema, insiste, "é que podemos ter um período assintomático, sem sintomas, mas podemos estar a contaminar outras pessoas sem o saber". Conclui, por isso, que "é neste período que a máscara é mais importante", levando-a a utilizar este tipo de máscara que "não me protege a mim se o doente projectar o vírus", mas poderá defender os seus utentes no caso de ela própria se encontrar infectada, justifica. Depreende-se portanto, que se duas pessoas estiverem em contacto uma com a outra e se ambas utilizarem máscara, evitam a contaminação mútua, pormenoriza. Esta profissional de saúde recomenda ainda precaução na utilização de uma máscara deste tipo, porque é necessário colocá-la devidamente e quando se tira não se pode voltar a utilizá-la, devendo deitar-se fora.

"Pequenos comércios não vão conseguir sair da crise"

Tendo em conta a recessão económica que se avoluma, pretendemos saber se o posto de trabalho poderia perigar, o que não acredita que suceda por pertencer à área de saúde, mas se fosse o caso de uma pequena empresa, um café ou restaurante, artesãos e outros comerciantes, estes "não vão conseguir sair da crise apesar das ajudas do Estado" francês. Baseada no que se passa no país onde vive e trabalha, referiu-nos que as pessoas preferem ir ao supermercado e comprar tudo lá (pão, peixe ou carne), o que dificulta o negócio nos pequenos comércios. Acentuou ainda que com a utilização do "drive", as pessoas fazem as compras pela Internet e recebem-nas em casa.

Perspectivando a fase posterior a esta crise, "gostava de acreditar que as pessoas tenham juízo, mas eu temo que não, porque têm a memória bastante curta". Ângela Ferreira confessou-nos que já vem mudando os seus hábitos de consumo "há vários anos", nomeadamente apostando em produtos necessários e que são produzidos localmente (Europa), ao invés de comprar bens importados.

"Política deveria ser para servir os cidadãos e não outros interesses"

Contudo, "por razões políticas" estas mudanças poderão ser esquecidas, afirma. Se após o fim da crise as pessoas ficarem um pouco "perdidas", receia que voltem aos hábitos normais do "consumo excessivo" (troca de telemóvel todos os anos, estilo comprar e deitar fora) e não haja preocupações ambientais, porque "o marketing cria-nos necessidades que na verdade não temos".

Embora se considere "pessimista" em relação ao futuro próximo "nos âmbitos de consumo, de vida e ambientais", no que se refere às "cicatrizes" que sairão deste período pandémico, elas deixarão marcas e "passaremos algum tempo a perceber como é que podemos sair à rua", mas, depois, "volta tudo ao mesmo". Apenas tem esperança de que as políticas de saúde mudem algo.

"Quantas mais viagens fizermos mais culturais somos"

Estando todo o mundo à espera de um "tratamento ou uma vacina - se possível bem cara, se não, não tem piada, diz com alguma ironia -, aguarda por melhores dias e que "abram as fronteiras para podermos circular", sem que isso signifique voltar a utilizar o avião desmedidamente - "eu até nem gosto muito de voar, e admito que o faça agora menos vezes, até porque é muito poluente".


Edições C@2000

Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP


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Crónica Política (1906 - 1913)

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