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Emigrantes do Concelho de Caminha
contam-nos a sua experiência da crise pandémica

Alexandra Fonseca (Alemanha)

Quatro meses após viajar até à Alemanha ("uma emigrante recente", assim se autodefine) com o objectivo de ingressar numa empresa de vendas retalho online situada em Berlim oriental, Alexandra Fonseca, uma economista de 28 anos, possuidora de um mestrado de análise de dados, natural de Caminha e com residência em Seixas, viu-se desde logo envolvida nesta pandemia que grassa por todo o mundo.

Encontrava-se a trabalhar há 2 anos numa empresa do Porto, a Farfetch, e a residir há 10 nesta cidade, mas a determinada altura assumiu que "necessitava de aprender mais" e pesquisou na Internet outras alternativas, tendo-lhe surgido a Zalanbo vocacionada no retalho online (roupa, sapatos de marcas conhecidas) para toda a Europa - embora não vendam para Portugal -, e considerada a 13ª empresa tecnológica deste sector a nível mundial, com cerca de 15.000 trabalhadores.

"Estudo de mercado"

Esta jovem economista encontra-se integrada na equipa de preços, sendo responsável por verificar o que é que a concorrência faz, de modo a sugerir uma "melhoria" de preços na sua firma e, dessa forma, fidelizar e conseguir novos clientes. Trabalha em casa desde 13 de Março - "Sexta-feira, 13, um dia incrível do qual nunca me vou esquecer", garantiu.

Alexandra Fonseca referiu-nos que embora as vendas estejam em baixa, está segura de que logo que a crise seja superada, "as pessoas vão preferir comprar online".

Analisando a sua adaptação e produtividade a esta forma de funcionar em teletrabalho, reconhece que esta modalidade de trabalho à distância diário "começa a cansar", o que "me torna menos produtiva, porque tenho de ser eu a concentrar-me a mim mesma", enquanto que um contacto directo com outros colegas e com as chefias permite outra desenvoltura.

Empresa criou chat

De modo a ultrapassar este isolamento, foi criado um chat pelo seu chefe, em que toda a equipa de trabalho se encontra ligada, e "é como se estivéssemos todos lá (na empresa), falando uns com os outros e adiantando mais trabalho", assegura.

Por outro lado, isto permite também preparar adequadamente as reuniões (todas online) que realizam, em que quando se iniciam já se encontra tudo definido sobre o que vão abordar, prossegue, apontando esta forma de trabalhar como um exemplo da organização alemã.

Como resultado deste confinamento a que se encontra submetida, sobram-lhe algumas horas vagas em casa. Contudo, ou se distrai e acaba por trabalhar mais - "o que é uma coisa louca e nunca mais paras, o que é mau" - ou "leio, vejo televisão - mas já estou farta -, estou a aprender alemão, vou para a varanda apanhar sol ou neve, consoante o dia".

Comércio de menor dimensão preferido

Noutras ocasiões, vai ao supermercado ou dá uma corrida nas redondezas. Embora haja menos gente na rua, quando aparece o sol vem toda a gente para fora. Tal como sucede em Portugal nos comércios de menor dimensão, igualmente na Alemanha não se registam filas nestes estabelecimentos, dando como exemplo o Liedl pequeno que frequenta, em que "nunca há problemas, as pessoas respeitam tudo", ao passo que nos supermercados de maior dimensão, é preciso entrar nas filas de acesso.

Rigor alemão

A situação decorrente desta pandemia, levou a primeira-ministra alemã Ângela Merkel a vir à televisão pela primeira vez falar aos alemães, frisou esta portuguesa, e quando se esperaria que iria mandar toda a gente para casa e impedir a circulação na rua, limitou-se a "sensibilizar" o povo alemão para o que estava a suceder, e avisando que se as pessoas não tivessem cuidado, seria pior. Acrescentou que esse discurso teve lugar a uma segunda-feira, e na quinta-feira saiu uma lei a proibir que circulassem mais de duas pessoas juntas, e devendo cada uma levar consigo um comprovativo da morada a fim de evitar que se afastassem do seu domicílio. Adiantou que esta determinação foi revogada há dias, voltando a ver-se muita gente nas ruas, nomeadamente quando está sol, precisando contudo que "não se vêem turistas", numa cidade (apelidada de internacional) em que muitos dos seus locais estavam pejados de estrangeiros.

Outras medidas de abertura estão previstas para os próximos dias, precisou esta caminhense, tais como o funcionamento de superfícies comerciais com mais de 400 m2, dentro de um esquema paulatino de retorno à normalidade. Foi ainda estabelecido um horário fixo em que as pessoas com mais idade tinham prioridade nos supermercados, o que era respeitado por todos, vincou.

Parece que a corrida ao papel higiénico não foi apanágio único dos países do sul. Aqui também sucedeu o mesmo

Esta procura na Alemanha levou a que durante quinze dias este produto faltasse na zona onde a portuguesa vive, levando a empresa que aluga os apartamentos onde vive e que gere todos estes produtos de interior, a ver-se às aranhas para o conseguir, tendo demorado 15 dias para abastecer.

"Não há pânico mas há preocupação"

Na sua empresa, existem muitos trabalhadores alemães, com os quais estabelece contactos diários, o que lhe permite ter uma ideia do seu pensamento sobre esta pandemia.

"Não há pânico mas há preocupação", pretendendo informar-se sobre as medidas a seguir e "cumprem", razão da existência de uma baixa taxa de mortalidade, apesar de existirem muitos casos, contribuindo para este facto a existência de um serviço de saúde "espectacular", além de os alemães estarem habituados a cumprir regras.

Organização

Deu como exemplo o que sucede na sua empresa, em que antes de qualquer reunião semanal se iniciar, o manager começa por discutir o que se está a passar com a sua equipa. Deu como exemplo as dificuldades que alguém possa estar a ter no trabalho, e quais as soluções a seguir. Assinalou que a própria empresa criou um podcast em que a informação sobre a crise está a ser sempre actualizada.

Estas restrições levaram à criação na Alemanha de muitas houseparties em que as pessoas falam umas com as outras enquanto estão a comer, como sucedeu com os seus amigos na Páscoa, ou participando em conjunto em jogos.

Filhos em casa são problema

Um problema que está a surgir com os amigos da Alexandra que têm filhos, é a forma de os conter em casa. "Estão a dar em doidos", dizem-lhe.

A situação em Portugal mereceu-lhe mais atenção no início da pandemia, mas acabou por a afligir com a sequência de casos noticiados, porque, justificou, "uma coisa é estares cá e veres a situação na Alemanha e que não se prende com a tua família, outra coisa é não estares em Portugal" e acompanhar à distância algumas coisas menos boas que os portugueses fazem. Isto levou-a a dizer com algum desgosto que "há muitos a laurear a pevide".

Face ao antagonismo de posições entre os países do sul e do norte da Europa sobre a forma apoiar as medidas de saúde e consequentemente as economias, esta economista reconheceu que não segue com atenção o que se diz na Alemanha sobre isto, porque apenas lê o New York Times e o Observador.

"Economia está a sofrer com este golpe"

Todos devem assumir que "a economia está a sofrer com este golpe" e deve existir uma "prioridade".

Dado que os países do sul são mais pobres, "pretendem usar isso para a amortizar a dívida", ao contrário dos do norte e que são aqueles que dão dinheiro.

"Eu acho que devia existir uma injecção de dinheiro para estimular a economia" e entende que seria bom que empresas e fábricas que não se encontram a laborar mas que possuem stock, criassem um website ou usar funcionários que estão mais por dentro da tecnologia para "começar a escoar os produtos, "tirando partido das pessoas que estão a comprar desde casa", o que permitiria a essas firmas "fazer dinheiro".

"Primeiro está a saúde"

Entende, no entanto, que neste momento, "primeiro está a saúde e depois a economia", e tendo em conta que "o Estado não dura sempre".

Pese embora a crise económica que se instalou com maior acuidade nos países com dificuldades acrescidas, Alexandra Fonseca não acredita que o seu posto de trabalho perigue, por se tratar de uma empresa de vendas online muito em voga nestes tempos de confinamento, a par de os seus proprietários "serem muito transparentes naquilo que nos dizem", dando como exemplo a faculdade que lhes concederam para trabalhar de casa ainda antes destas medidas serem anunciadas e aconselhadas, bastando como justificação que "nos sentíssemos ansiosos". E logo que surgiu o primeiro caso de infecção, pediram-nos "por favor para irmos trabalhar de casa", sem necessidade de nos obrigarem a adoptar essa medida.

Diálogo

Uma vez por mês, os fundadores e proprietários da sua empresa reúnem online com todos os funcionários e em que permitem todo o tipo de perguntas. Na primeira reunião, explicaram a nova situação da Zalanbo, dizendo que não estavam a contratar mais pessoas mas a sua prioridade era assegurar os postos de trabalho dos que foram contratados.

Com forma de evidenciar as realidades económicas tão díspares entre os diversos países da EU, esta economista portuguesa revelou que apesar da crise, continua a receber quase todas as semanas 2/3 mensagens para entrevistas de emprego e todas para a cidade de Berlim.

Sociedade vai mudar

Esta jovem formada em Portugal e que tentou novas formas de vida num país estrangeiro, tem a sua "teoria sem ser da conspiração", adverte, sobre a forma como a sociedade vai reagir e mudar após o fim desta crise sanitária e económica.

"Acredito que as pessoas vão ter muitos mais cuidados de higiene pessoais e com o ambiente" espera esta jovem emigrante logo que esta pandemia abrandar, e quanto à forma como a sociedade e os negócios se vão reformular, acredita que "as empresas físicas vão apostar todas nas entregas online", adaptando-se dessa forma aos novos tempos.

Alexandra Fonseca está ainda ciente de que os hospitais vão ser olhados doutra forma e a investigação no campo da saúde terá um forte investimento, a par de crer que dentro de nove meses, "serão só bebés a nascer". Ou então, "divórcios", completa com algum humor.

Não teme pelo futuro do turismo em Caminha

Centrando-se nas actividades económicas da sua terra natal, Caminha, um concelho predominantemente virado para o turismo, e temendo-se pelo seu futuro imediato, a nossa entrevistada tem a percepção de que não seremos muito afectados, atendendo a que vive muito das segundas casas de férias. E, completando o seu raciocínio, afirma que "depois de dois, três meses fechada e se tivesse uma casa de férias e de fins-de-semana, era para aí que eu ia" neste período imediato em que andar de avião irá provocar receio. A par de crer que as pessoas irão optar por férias dentro do próprio país no próximo verão.

"Na vila mais a norte do litoral português"

A terminar, Alexandra Fonseca diz que "tenho muitas saudades de Caminha e quanto mais conheço o mundo, gosto cada vez mais da minha terra e das suas pessoas". "E quanto mais para o norte, melhor", assegura, porque "as pessoas são mais simpáticas, come-se melhor e as vistas são" deslumbrantes, nomeadamente na vila mais a norte do litoral português.



Edições C@2000

Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
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Crónica Política (1906 - 1913)

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Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
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