Afastados da sua terra, quer por opção de vida ou porque em Portugal não conseguiam o sustento imprescindível para si ou suas famílias, os emigrantes, naturais ou residentes no concelho de Caminha durante um período assinalável da sua vida, vivem esta crise de saúde pública e consequente recessão económica com natural apreensão, sem deixarem de se manter informados do que se vai passando no seu país, nas suas comunidades e com os seus familiares e amigos.
O C@2000 inicia nesta edição a recolha de depoimentos de caminhenses que vivem e trabalham em diferentes países e continentes.
Fátima de Haan
É o caso de Fátima de Haan, mais conhecida na vila de Caminha pela "Fatinha da Singer", casada com um holandês e residindo em Roterdão durante um período do ano, e outra parte em Portugal, Alcochete, onde possui uma casa, altura em que aproveita para dar um salto Caminha (seu pai, quase a completar 100 anos, vive na Rua Direita), definida como "o meu lugar de eleição no mundo - e posso dizer-te que já passei por muitos lugares -, porque como Caminha não há". Completando a sua afeição e admiração pela nossa (sua) terra, esta caminhense por adopção e convicção, confessou-nos que "quando vejo imagens da praia de Moledo ou do Terreiro no Facebook as lágrimas vêm-me aos olhos, porque Caminha é a minha raiz. A minha avó nasceu aí e a minha mãe quase, e o meu pai em Moledo. Portanto, se me perguntares de onde eu sou, digo que sou de Caminha". Fátima viveu em Monção até aos 12 anos, passava as férias em Caminha, após o que veio para esta vila com seus pais e aqui fez um percurso de vida de 13 anos.
Pandemia apanhou-a à chegada à Holanda
Nesta vida repartida pelos dois países, tinham partido para a Holanda no dia 3 de Março, "quando tudo estava ainda muito calmo em Portugal, mas já havia casos na Holanda e que se multiplicavam diariamente", existindo a 15 de Abril - data da entrevista - 17.000 pessoas infectadas e 3.000 pessoas falecidas. Contudo, Fátima Correia de Haan revelou que "estes dados não são muito reais porque o Governo holandês não transparece a realidade, contrariamente ao que eu acho que está a acontecer em Portugal e tenho fontes que me asseguram que no nosso país estão a ser muito honestos, o que não acontece na Holanda", reafirmou.
Esta semana, decidiram mudar-se para Portugal, onde diz sentirem-se "mais seguros e confortáveis".
Insistiu que na Holanda as notícias saem "muito lentamente e com muitos dias de atraso", levando a que os números não sejam actuais, nem existindo governantes e responsáveis pela saúde desse país a dar informações diárias, como sucede em Portugal, facto este que valorizou muito.
"Não há propriamente restrições"
Analisando a vida diária dos holandeses, esta caminhense explicou que "não há propriamente restrições, estando abertos os supermercados, farmácias, drogarias, bombas de gasolina e todas as lojas que são úteis" neste momento. Outros comércios estão abertos e outros não, e numa área de negócio que muito lhe diz, as lãs, duas das lojas existentes tiveram posições distintas. Uma fechou porque a proprietária era uma pessoa de risco, e a outra tem as portas abertas, "apenas restringindo o número de pessoas que lá entram".
De resto, "as pessoas estão a trabalhar de uma forma geral, há imenso trânsito na auto-estrada e, curiosamente, as pessoas andam mais a pé do que de bicicleta", facto curioso que Fátima justifica pelo facto de os holandeses considerarem que "ao correrem ou andarem de bicicletas nas pistas, as pessoas suam mais e ao estarem mais próximas umas das outras, as partículas voam com mais intensidade", podendo contagiar os demais.
Ninguém é obrigado a utilizar máscara e deu como exemplo o sucedido num avião da KLM (porque a TAP já não voa para a Holanda) que os tinha transportado a Portugal, com cerca de 100 pessoas a bordo e talvez apenas duas dezenas de pessoas estivessem com máscara. Pormenorizou que apenas na sala de espera do aeroporto tinham bloqueado os bancos, obrigando a que as pessoas se sentassem alternadamente. Contudo, alguns passageiros, principalmente portugueses - "o que me magoou", assinalou - "rebentaram as tiras de plástico para se sentarem uns ao pé dos outros e assim conversarem".
"Respeitam as regras"
Talvez por isso, não existam tantas restrições na Holanda, "porque as pessoas são mais civilizadas, respeitam as regras, mantendo as distâncias, falando umas com as outras de esquina para esquina", considerando por isso que "é outro país", embora admita que "a situação também não está fácil lá".
Fátima de Haan tem uma filha na Inglaterra, o que a leva a ser uma conhecedora razoável desse país. Se na Holanda, com 17 milhões de habitantes, poderia haver cerca de 4.000 falecimentos nesta semana, na Inglaterra, com 66 milhões de pessoas, o número de mortes é muito inferior em termos estatísticos, concluindo que "se fala muito da Inglaterra mas a Holanda está bem pior".
"Economia não pára"
Na Holanda, as escolas apenas fecharam na semana passada e há aulas desde casa e a "economia não pára", embora se note uma redução, com os funcionários públicos a trabalhar desde casa. Deu como exemplo o filho do seu marido, funcionário de uma empresa de contratação de pessoal, muito ocupado a trabalhar de casa, precisamente tentando contratar médicos.
Perante esta atitude dos holandeses, acredita que este país não terá uma recessão igual à que Portugal irá sofrer. E aponta duas razões:
"Primeiro, já estavam mais bem preparados - porque sempre estiveram - e, segundo, porque a economia não desceu ao nível de Portugal".
Acentuou que concordava "com o que estão a fazer" na Holanda, um país "onde a economia fala mais alto".
Papel higiénico e suplementos vitamínicos faltaram
Em termos de abastecimento, garantiu que nunca faltou nada, apenas tendo existido a restrição de compra de uma pacote de papel higiénico por cada ida ao supermercado nos dias iniciais da crise. E apenas as prateleiras dos suplementos alimentares (vitaminas A, C e D) ficaram completamente vazias. Explicou ainda que no seu caso, tinham optado por realizar todas as compras on-line, as quais lhes eram trazidas a casa "com facilidade".
"Portugueses mais bem informados"
Na Holanda, ia acompanhando o que se passava em Portugal pela Internet, através da RTP, levando-a a concluir que os portugueses se encontram muito mais bem informados do que os cidadãos holandeses.
Atribui esta diferença de atitude das autoridades de saúde e políticos dos dois países ao facto de os governantes holandeses "não gostarem de transparecer o que vai mal". "O holandês é um bom profissional, tem orgulho naquilo que faz e o tempo deles rende muito mais do que o nosso. Nós trabalhamos mais horas, mas produzimos menos".
A polémica gerada com as declarações do ministro holandês das Finanças, não escapou a esta caminhense.
"Holandeses mais frios e racionais"
Recordou que já no ano passado, o primeiro-ministro desse país tinha dito que os portugueses gastavam o dinheiro todo em mulheres e bebidas. Fátima Correia levou a reacção portuguesa a estas afirmações "um bocadinho a brincar, porque os portugueses são um bocadinho emocionais com estas coisas". Ao contrário dos homens e mulheres holandeses que "são mais frios e racionais", a despeito de serem boas pessoas, bons vizinhos, civilizados, éticos, mas há uma coisa que eles não aceitam: "não me mexam no meu bolso".
Acredita que as palavras do ministro holandês foram mais dirigidas para Espanha e Itália, "mas nós vestimos um bocadinho a camisola como país do sul". Completando o seu raciocínio, acaba por compreender a posição holandesa, porque "o holandês não desperdiça dinheiro e sabe geri-lo muito bem". Acrescenta que se uma pessoa tiver o seu salário e souber com o que conta até final do mês, "gasta à medida das suas necessidades" e, além disso, o habitante desse país "gasta por baixo, porque sabe que tem de ficar com um pé-de-meia", prática não muito usual com o latino. Não defende a aplicação de austeridade, mas "como medida de precaução, nós deveríamos reduzir um pouco as nossas despesas", admite, dando como exemplo o que o ministro Centeno vinha fazendo.
"Apoio (holandês) acabará por acontecer"
Pretendendo obter a sua opinião sobre a diferença entre uma crise de saúde e a que surgiu no final da primeira década deste século, e qual acabará por ser a posição holandesa, acredita que o apoio acabará por acontecer, "mas como veio tudo ao mesmo tempo, quer os holandeses, quer os portugueses têm tido dificuldade em gerir tudo isto ao mesmo tempo". Dá como exemplo as palavras de António Guterres em relação às atitudes de Trump, quando, por exemplo, cortou a comparticipação norte-americana à OMS, porque "não é altura para se pensar nisso", disse o Secretário-geral da ONU.
Receio da viagem
Esta conterrânea reforçou que "estamos todos a aprender com isto do Coronavírus", e, reforçou que ela própria e o seu marido viveram "momentos dramáticos" nestes últimos tempos, hesitando entre ficar na Holanda ou vir para Portugal, como acabou por suceder, embora tivessem medo da viagem.
Na sua estadia na Holanda, compaginava a vida de casa com o apoio aos projectos do seu marido, matemático (estatística de extremos ligada às finanças e às alterações climáticas), na organização de palestras em áreas que "estão completamente na moda".
Eventos cancelados
A par da sua actividade diária, quando se encontra na Holanda dedica-se ao felting e tricot e desloca-se a festivais destes trabalhos artesanais, mas que se encontram totalmente fechados neste momento, mas já agendados na sua maioria para 2021. Acentuou que todos os eventos se encontram cancelados até ao mês de Julho (inclusive).
"Cada cabeça, sua sentença"
Embora o seu marido esteja ligado a estudos relacionados com as alterações climáticas, Fátima de Haan não consegue assegurar que o aparecimento deste vírus se deva a este factor. Existem diversas teorias sobre este vírus inanimado, incluindo a de que ele permanece durante um certo tempo em determinadas superfícies, mas, recentemente surgiu um cientista alemão que realizou uma "verificação" em toda a população de uma vila do seu país, concluindo que "a única transmissão é através da respiração e das secreções" e não através do contacto com objectos, quer sejam folhas de papel ou maçanetas das portas, por exemplo. Mas, apesar de ser um cientista, "cada cabeça, sua sentença", reconhece.
"Não voltaremos ao mesmo"
Perspectivando de antemão o futuro, esta caminhense acredita que muita coisa irá mudar, e que "não voltaremos ao mesmo".
Todavia, teme que muitas pessoas voltarão ao mesmo por se encontrarem "atemorizadas e traumatizadas", mas conhecendo as duas realidades, a portuguesa e a holandesa, e se "as pessoas forem minimamente conscientes, aperceber-se-ão que o ar está muito mais puro e mesmo nesta zona da reserva de Alcochete, se nota menos poluição".
Internet é um "instrumento de família"
Por outro lado, "as pessoas vão notar que se vive com menos dinheiro, porque durante este mês prescindiram de muita coisa que no fundo é supérflua, vive-se mais a família e até utiliza mais a Internet" que já se tornou um instrumento da família, acentuou.
Referiu ainda que as pessoas que já estavam mais habituadas a trabalhar ou a ficar em casa, se adaptaram melhor a esta situação, além de existir "mais convivência em família", a par de participarem mais nas redes sociais. Avança ainda que será um "crime" que os pais não aproveitem este tempo para ensinar outras coisas aos filhos, tais como cozinhar - "até porque vai haver menos dinheiro" no futuro -, ao invés de comprarem tudo fora, como o faz esta geração dos 40 -, numa tentativa de "reaprendermos a viver".
Apontou o regresso à telescola como uma forma de aprendizagem para o futuro, sem descurar as presenças pontuais nas escolas para organizar festas e outras actividades de convívio.
"Vamos passar um bocadinho pior do que os outros"
Esperançada no futuro de Portugal, acredita que será possível ultrapassar esta fase, sem necessidade de medidas como as tomadas no tempo da troika, porque, sublinha, "como disse o primeiro-ministro, se vamos reduzir os ordenados e aumentar impostos, os restaurantes e o comércio não vão recuperar". No entanto, admite que "vamos passar um bocadinho pior do que outros", porque a nossa economia estava agora a começar a recuperar, "nas ainda não temos raízes fortes", como têm outros países como a Holanda e a Alemanha.