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A Ciência Médica na Pneumónica de 1918

Há um século, quando do início da pandemia da Pneumónica, apesar dos surtos epidémicos (tifo, varíola, cólera, gripe benigna) não serem invulgares na época, longe estaria a suposição de que se estava perante uma das doenças mais mortíferas de todos os tempos, para a qual a medicina não tinha vacina ou tratamento clínico eficaz. Se nos focarmos na região do Alto Minho, na sua edição de 3 de outubro de 1918, o periódico vianense O Povo publica um primeiro artigo de alguma extensão sobre o problema, que inseria as recomendações realistas do Diretor-Geral da Saúde em funções, Ricardo Jorge (1858-1939):

"Saúde Pública — A epidemia denominada bronco-pneumónica tem-se alastrado por todo o país, não sendo já pequeno o número de vítimas. Nesta cidade [Viana do Castelo] são inúmeras as pessoas doentes, havendo já a registar alguns óbitos. Indispensável se torna que as autoridades sanitárias empreguem todos os meios para que a propagação deste mal não se alastre mais. Segundo a opinião do iminente especialista sr. dr. Ricardo Jorge, "a ciência não dispõe de profilaxia específica ou especial contra contágio tão difusivo, mas subsistem as normas de higiene geral, a beneficiação e a desinfecção. Merece cuidados a limpeza da povoação e das casas, e lança-se mão da desinfecção até onde os casos o exijam e as circunstâncias o permitam. O isolamento está indicado, sobretudo nas formas pulmonares. Evitem-se até onde possam ser as aglomerações e contactos. Como profilaxia individual, não deixe de lembrar-se o uso de gargarejos mentolados ou salgados". São estas, em resumo, as instruções recentemente publicadas por aquele clínico, além de outras que indicam a forma como os médicos devem prestar os seus socorros, assim como observa que as farmácias devem estar providas dos medicamentos mais usados tais como: quinino, amoniacais, sais purgantes, ampolas de cafeína, ampolas de óleo canforado, mostarda, linhaça, etc. Que todas as precauções sejam tomadas, são os nossos mais ardentes desejos, afim de evitar que o número de vítimas cresça...".

Quatro dias depois da publicação desta prosa, a 7 de outubro, o conhecido epidemiologista portuense — que hoje, justamente, é o patrono do principal instituto nacional de saúde — seria nomeado oficialmente Comissário Geral para a Pneumónica. Iniciava-se então verdadeiramente uma resposta governamental, que para muitos vinha tardia, quando a pandemia alastrava por todo país e provocava cada vez mais óbitos, como também sucedia no concelho de Caminha: "Até hoje [17 de outubro] são em número de 18, em todo o nosso concelho, os casos de óbito. Isto, comparado com o que vai por outras partes, é pouco mais que nada... À noite, em quase todas as ruas da vila [Caminha], o povo faz grandes fogueiras com ramos de eucalipto..." — "Na Igreja Matriz desta vila têm-se feito preces pela saúde pública, com numerosa concorrência de fiéis" (CM, 17-10).

Queimar eucaliptos na via pública ou invocar a ajuda divina não fariam decerto mal e até trariam algum consolo mas de pouco valeriam para deter um mal que desorientava a própria comunidade médica e científica, que se interrogava sobre a natureza de uma doença que provocava mortes súbitas e fulminantes em pessoas em idade ativa, com cenários clínicos assustadores: "A grande maioria começava por constipação e depois ia a moléstia localizar-se ou nos rins, e então urinavam sangue, ou nos intestinos ou noutros órgãos, e assim, com a medicina absolutamente sem saber como reagir, ia morrendo muita gente. Em Caminha os sinos não tocavam e somente o padre e quatro pessoas levavam os corpos para o cemitério." (memória de Manuel Jorge Avilez).

Entre os especialistas, o debate estava aceso entre os defensores das teses bacteriana e viral, como se podia ler num artigo assinado pelas iniciais E.S., publicado no Aurora do Lima em 22 de outubro, aliás o primeiro sobre a pandemia a merecer atenções de primeira página: "A Gripe — A gripe é considerada doença infecto-contagiosa depois da epidemia de 1889 e 1890, que tantas vítimas fez, deu-se como certo que o micróbio propagador foi o descoberto por Pfeiffer, que os enfermos expelem na saliva, nas lágrimas e quando espirram. Tem-se vivido nesta crença; mas há pouco tempo, Nicolle e Leberelly, descobriram ser um vírus filtrante... Quem fala verdade? (...)".

O problema não seria exatamente de verdade ou mentira, mas de insuficiente conhecimento científico, o que deixava os médicos limitados às terapêuticas antigas, ao bom senso e aos efeitos da sua presença tranquilizadora: "Eu ardia em febre e minha mãe, naturalmente alarmada, mandou chamar o Dr. Luís [Ramos Pereira]. Veio imediatamente e aplicou-me a sua predileta terapêutica e que tão bons resultados deu naquele tempo em que não existiam ainda os antibióticos. Quando o Dr. Luís pediu umas toalhas e ordenou que me fizessem com elas um enfaixamento de água fria com mostarda em volta do tórax, eu fiquei aterrorizado e minha mãe também se alarmou. Pareceu-nos paradoxal que a um doente que ardia em febre com a gripe pneumónica se aplicasse água fria. Mas o prestígio do clínico era tal que não ousámos levantar objeções. Com a elevada temperatura, sofri o tratamento da água gélida durante 20 ou 30 minutos, seguido de envolvimento em bastante roupa para depois suar. Foi remédio santo, pois melhorei logo e continuei a melhorar lentamente mas ainda estive de cama um mês e meio".

Felizmente para o doente, o então delegado do Ministério Público na comarca caminhense, João de Barros Morais Cabral, tudo acabou em bem, mas por falta de cuidados atempados, de condições sanitárias ou do estado clínico prévio do paciente, não foi assim com todos, caso contrário o saldo da Pneumónica não teria sido tão trágico. Ainda assim, a terapêutica do bom senso clínico terá salvo inúmeras vidas.

Notas: Testemunho de Manuel Jorge de Avilez retirado de CORREIA, Torcato Augusto (1987). Sidónio Pais. Irmão Benemérito da Misericórdia de Caminha. Centro de Estudos Regionais — Boletim Cultural. Viana do Castelo: CER, pp.145-150; testemunho de João de Barros Morais Cabral retirado de RODRIGUES, Alexandre H.S. (1970). Traços biográficos (em prosa bárbara) do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira e de seu pai José Bento Ramos Pereira (testemunhos e documentos). Viana do Castelo: Gráfica da Casa dos Rapazes.

Paulo Torres Bento



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