Com o súbito alastramento da pandemia da "gripe espanhola" no Alto Minho a partir de finais de setembro de 1918, e conhecida a dramática situação vivida no concelho de Caminha, logo o médico e político Luís Inocêncio Ramos Pereira (n.1870, Porto) — nessa altura ex-senador, mas a residir na capital — se prontificou a vir prestar serviço no seu território de adoção, o Vale do Âncora: "O Dr. Ramos Pereira vivia nesse tempo em Lisboa, onde exercia as funções de médico dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, e tinha sido senador da República eleito pelo distrito de Viana até ao advento do consulado de Sidónio Pais... Quando teve notícias assustadoras da forma como alastrava a epidemia no Vale do Âncora e noutras freguesias entre Caminha e Carreço, deslocou-se voluntária e propositadamente para Âncora, onde nessa data nem sequer tinha residência... Hospedou-se em casa do dentista Ramos... na Estrada 5 de Outubro. Mas não permanecia ali. Andava constantemente a ver os doentes, dia e noite. A sua presença era sentida como um alívio em várias freguesias..." (testemunho de João de Barros Morais Cabral, então Delegado do Ministério Público na comarca caminhense).
Formado na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, a pneumónica de 1918 não era a primeira experiência de Luís Ramos Pereira com as epidemias e as crises sanitárias que lhes sobrevêm. Em 1899, quando desempenhava o cargo de subdelegado de Saúde do concelho de Caminha, a pedido da Câmara, tinha-se deslocado à cidade Invicta para se informar sobre o surto de peste bubónica que ali grassava, e que o médico municipal portuense, Ricardo Jorge, procurava a custo conter.
Duas décadas passadas, cabia-lhe a ele assumir a responsabilidade de defender a saúde e a vida dos seus conterrâneos, sem esquecer os mais desfavorecidos: "Éramos 14 irmãos, muito pobrezinhos; e vivíamos com a nossa mãe... O nosso pai tinha ido para o Brasil. Nesse tempo havia na nossa casa apenas 3 camas para 15 pessoas: numa cama ficava a mãe com 4 raparigas, noutra cama, 6 raparigas mais pequenas (...) e na outra dormia eu e mais três irmãos... Pois adoecemos seis com a pneumónica... Quem nos valeu foi o Dr. Luís. Tratou-nos a todos sem descanso... levava-nos os remédios e mandava-nos fazer tratamentos por faixas de água fria e suadoiros... Salvámo-nos todos..." (testemunho de Manuel Velho Esteves, pescador ancorense).
Apesar de se viverem tempos de extrema radicalidade partidária, havia uma relativa trégua política causada pelo impacto da epidemia, o que permitia que um médico republicano como Ramos Pereira fosse elogiado por famílias monárquicas militantes, como os Casal da Veiga, de Moledo e Cristelo: "Em 1918, surgiu a epidemia da pneumónica... Aqui em Cristelo morreram algumas pessoas mas salvaram-se outras devido à dedicação do Dr. Luís [Ramos Pereira]. Havia em Caminha outro bom médico mas estava também atacado pela epidemia e até diziam que estava tocado de um pulmão... Não cobrava contas e algumas vezes ainda deixava aos pobres dinheiro para caldos e remédios..." (testemunho do carpinteiro José Elias Casal da Veiga).
Não surpreende pois que no rescaldo da pneumónica, justificadamente, a figura moral de Ramos Pereira tenha saído reforçada, enquanto médico mas também como político. Recuperada a normalidade constitucional após o período sidonista e o efémero episódio da Monarquia do Norte, seria novamente eleito senador pelo círculo de Viana do Castelo em maio de 1919, e depois sucessivamente reeleito nas eleições de 1921, 1922 e, finalmente, 1925, as derradeiras da 1ª República, sempre pelo Partido Democrático. Afastado de todos os cargos políticos com a Ditadura Militar e o Estado Novo, Luís Inocêncio Ramos Pereira viria a falecer em Lisboa em 24 de julho de 1938 e, homenageado nas exéquias por correligionários e adversários, ficou sepultado na sua Vila Praia de Âncora.
Nota: Testemunhos retirados de RODRIGUES, Alexandre H.S. (1970). Traços biográficos (em prosa bárbara) do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira e de seu pai José Bento Ramos Pereira (testemunhos e documentos). Viana do Castelo: Gráfica da Casa dos Rapazes.