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Juntas de Freguesia perante a crise - II

Iniciámos na semana passada uma série de contactos com as juntas de freguesia do concelho de Caminha, inteirando-nos das medidas tomadas pelas autarquias no apoio aos seus conterrâneos, e quais as suas reacções perante a situação de excepção que vivemos nestas duas semanas de isolamento social.

Com a prática paralisia das actividades normais nas freguesias e nos municípios, o campo informativo quase que se resume às consequências desta pandemia, a qual representa a preocupação central dos caminhenses, o mesmo sucedendo no país e no mundo.

Nesta edição, continuamos a ouvir presidentes de junta:

Venade/Azevedo

António Amorim referiu-nos que se mantém o "ambiente sereno, com muito pouco movimento" na sua freguesia nestes quinze dias de confinamento apertado, esperando que não se verifique qualquer caso até ao final da crise.

A Junta de Freguesia tem seguido as orientações da Direcção Geral de Saúde e do Município. Decidiu encerrar os cemitérios de Venade e Azevedo "por precaução, para evitar concentrações" e as casas mortuárias apenas são utilizadas para depósito de cadáveres, uma vez que estão proibidos os velórios, com todos os constrangimentos que tal medida provoca nas famílias que venham a ser atingidas pela fatalidade do desaparecimento de um seu ente querido, quer atingido pelo coronavírus, quer por outra doença. Apenas são realizados os ofícios religiosos, seguindo-se o funeral.

António Amorim precisou ainda que as pessoas "trabalham no campo, neste mês de sementeiras à moda antiga", precisou, e recolhendo-se de seguida a suas casas, só saindo para se dirigirem à mercearia.

A autarquia local encerrou a sede da Junta, mantendo apenas os serviços mínimos e "eu próprio venho aqui todos os dias, nestes dias de paz de alma, em que tudo é estranho e ao qual não estávamos habituados". António Amorim tem mantido contactos telefónicos regulares com alguns idosos, embora na maioria dos casos haja um apoio familiar de retaguarda e "os próprios vizinhos têm vindo a auxiliar-se - mesmo que no passado tenham tido algumas questiúnculas", acentuou.

Apenas alguns sectores da construção se encontram a laborar nesta freguesia e os armazéns de fornecimento de material para este sector funcionam de uma forma "personalizada".

Relativamente ao regresso de emigrantes, produziu-se algum fluxo logo que as fábricas e a construção começaram a fechar nalguns países europeus, antes das medidas de contenção decretadas mais tarde em Portugal. Contudo, "têm-se mantido em casa" e nos últimos dias "não tenho verificado mais regressos", esclareceu.

Gondar/Orbacém

Cada membro da Junta de Freguesia de Gondar/Orbacém, uma vez por semana, abre as portas da sede da junta para atender a população, revelou-nos José Cunha, presidente do Executivo local. Além desta medida que pretende igualmente evitar aglomerações, os moradores podem solicitar à autarquia todo o tipo de documentação que poderão levantar. As pessoas que tenham dificuldades de locomoção, deverão contactar a Junta que procederá à entrega dos bens e medicação que necessitem.

De resto, a freguesia encontra-se praticamente paralisada, apenas se vendo algumas pessoas a trabalhar nos campos - actividade que não está proibida -, e uma prática comunitária de comparticipação de tarefas agrícolas mantém-se, embora "respeitando as distâncias recomendadas", assinalou este autarca.

Fontes, fontanários públicos e nascentes encontram-se encerrados, assim como os cemitérios e cafés, funcionando apenas o serviço de mercearia, enquanto que o transporte de pessoas nas carrinhas da autarquia foi suspenso, existindo apenas para serviços de urgência ou deslocações a consultas e exames.

Admitiu que ainda há pessoas (poucas) que "não cumprem as indicações" das autoridades de saúde ou do Município, autarquia com quem tem mantido contactos regulares, e cujo trabalho foi elogiado, acentuou José Cunha, "porque não tomou medidas gravosas, apenas se adaptando ao evoluir da situação".

Em Gondar/Orbacém não se tem verificado o regresso de emigrantes, sendo registado unicamente um caso de duas pessoas de fora e que se encontram "resguardadas".

"Queria que isto acabasse", desabafou José Cunha, após admitir que "as pessoas estão aterrorizadas".

Vile

O panorama de Vile não difere muito das demais freguesias.

"No início, havia pessoas que não estavam a cumprir" as recomendações, revelou-nos José Luís Lima, presidente da Junta de Freguesia. "Tivemos que as avisar", e por fim, já acataram sem contestação.

A par da tranquilidade em todo o território vilense, a Junta contactou os serviços sociais camarários para que em conjunto fosse prestado apoio a duas famílias de idosos, com problemas de saúde crónicos.

O autarca vilense vai todos os as dias à sede da junta, a qual se encontra encerrada, e os moradores poderão contactar os autarcas no caso de necessitarem da emissão de algum documento ou qualquer outro apoio, levando-o até ao domicílio dos interessados.

Os estabelecimentos comerciais de restauração e o café do Centro Cultural pertencente à autarquia encontram-se de portas fechadas, tendo a Junta decidido dispensá-lo do pagamento da renda enquanto durar este período de restrições, assumindo ainda o custo das facturas da água.

Embora não tenha sido encerrado o cemitério, porque "a afluência não é grande", justificou, a Junta de Freguesia decidiu simplesmente cortar o fornecimento de água e recolher os equipamentos (baldes e vassouras), de modo a demover as pessoas a terem contactos umas com as outras, embora possam levar água e flores de casa.

Contudo, nem tudo está parado em Vile. As estufas que dão trabalho entre 30 a 40 pessoas, mantêm sua actividade, integradas no contexto das empresas ligadas ao fornecimento de bens alimentares, informou-nos José Luís Lima. No entanto, são tomadas precauções. Os trabalhadores "distribuem-se" pelas diversas estruturas, evitando contactos e realizando as suas tarefas de uma forma faseada e segura.

Âncora

António Brás, presidente da Junta de Freguesia, assumiu perante o C@2000 que a população ancorense "assume com responsabilidade os problemas, independentemente do seu caráter, comportando-se com serenidade", consciente de que "em situações como a que vivemos atualmente não devemos enveredar por atitudes alarmistas, mas sim ponderadas e de precaução". Simultaneamente, os ancorenses vão tentando desenvolver as suas actividades mais prementes, sem descurar os perigos "e de acordo com as recomendações das entidades reguladoras da saúde pública", releva.

Contudo, na sua óptica, os ancorenses, "como povo de trabalho, empreendedor e de lutas, tem dificuldade em se adaptar a uma situação de estagnação e paragem", reconhece.

Âncora possui uma pequena zona industrial. Pretendemos saber qual tem sido a atitude dos empresários perante este conjunto de medidas que cerceiam as actividades industriais.

António Brás assegurou que se encontram "devidamente conscientes da gravidade da situação, quer do ponto de vista da saúde pública e dos trabalhadores, quer do ponto de vista laboral e da economia", levando-os a pautar a sua actuação "pelo equilíbrio, remetendo para os domicílios os trabalhadores que podem recorrer ao teletrabalho, ou optando por medidas rigorosas de segurança em casos de trabalho presencial obrigatório, evitando o contato direto com clientes ou outros agentes do mercado". Há casos em que a decisão foi mesmo encerrar, frisou.

Relativamente às obras públicas em curso, foram objecto de "continuidade ou conclusão", acompanhadas de medidas de "precaução detalhada, procurando isolar trabalhadores de forma a evitar o contacto". Apesar disso, "e até nova avaliação, os trabalhos foram suspensos".

O expediente da Junta, numa tentativa de continuar a responder aos ancorenses, está assegurado pelo Executivo, diariamente, entre as 18H e as 20.30H, esclareceu, e obedecendo às normais regras de segurança impostas pela DGSaúde. Acrescentou que o cemitério encontra-se aberto no seu horário normal sob medidas de vigilância apertada, tendo em consideração que se trata de um local ao ar livre e onde não podem estar mais do que 10 pessoas em simultâneo", e levando ao uso de luvas e máscaras, assim como a lavagens frequentes, estando impedidos de usar utensílios colectivos.

No campo social, a autarquia ancorense disponibilizou-se para o apoio "generalizado" à população através da participação na Rede Complementar de Apoio organizada pelo Município e do qual a Junta é parceira.

António Brás manifestou contentamento pelos actos de solidariedade que vão chegando à Junta da parte de pessoas que "concedem os seus préstimos", e se colocam à disposição da Junta para "a colaboração necessária de apoio a quem mais precisa", focando o caso particular de quatro mulheres que se disponibilizaram para esse fim, gesto que agradeceu.

O presidente da Junta assinalou que até ao presente não registou a chegada de emigrantes, assim como de migrantes que possam estar deslocados em centros urbanos de maior dimensão, acreditando na existência de um "acompanhamento" destas situações por parte do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o qual, "até ao momento", precisou, "nada articulou com a Junta de Freguesia", pressupondo que "tenha essas presenças sinalizadas e devidamente controladas".


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