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ISTO NÃO É UMA GUERRA

Isto não é uma guerra porque as guerras são provocadas pelos homens e a Covid-19 é um fenómeno biológico natural, como muitos outros na História atingiram a Humanidade. Para não recuar mais, bastaria evocar os recorrentes surtos epidémicos de tifo, varíola ou cólera que assolaram as nossas freguesias nos séculos XIX e XX — foi uma epidemia de cólera que apressou a abertura do cemitério municipal da vila de Caminha em outubro de 1855 e um surto de varíola atingiu duramente a Praia de Âncora nos finais de 1915.

Muito pior, pelos terríveis efeitos causados, foi a chamada gripe pneumónica (ou espanhola) no rescaldo da Grande Guerra de 14-18, que deixou atrás de si um rasto de milhões de mortos em todo o mundo e mais de cem mil vítimas em Portugal. Só no nosso concelho, de setembro a dezembro de 1918, calcula-se que terão falecido cerca de duas centenas e meia de pessoas.

No momento em que escrevemos, apesar de estarmos ainda longe do termo da atual pandemia — se se repetisse a evolução da pneumónica, seria por finais do mês de maio —, os números de infetados, ou de vítimas mortais, estão muito longe dos de há cem anos. E não se pense que tal se deve apenas às medidas de contenção presentemente tomadas. A título de exemplo, em 1918 as escolas públicas e particulares do concelho também estiveram encerradas, cerca de dois meses, entre 10 de outubro e 6 de dezembro.

Em comum com a Covid-19, apenas o facto de, tal como agora, não haver então uma vacina para combater uma estirpe viral nova. Tudo o resto é, felizmente, diverso. A começar pela existência de um Serviço Nacional de Saúde, que tem demonstrado ter profissionais e serviços à altura de uma emergência médica desta magnitude; ou a abissal diferença nos hábitos de higiene pessoal e de salubrização das habitações e espaços públicos; ou os notáveis progressos educacionais e de formação cívica de que todos beneficiámos, sobretudo desde o 25 de Abril de 1974.

Daí que não se justifique o alarmismo que grassa por aí, irresponsavelmente fomentado por certa imprensa ou nas redes sociais, provocando o medo em muitos, quase pânico em alguns. Sem falar dos que se alimentam de anedóticas teorias da conspiração, há quem demonstre a sua ignorância da nossa História, evocando passados autoritarismos como remédio santo para a atual pandemia — que faria agora Salazar, que nas dramáticas cheias do vale do Tejo de 1967 tudo fez para esconder a destruição e as centenas de vítimas?

As necessárias cautelas que todos devemos ter para evitar o contágio — sobretudo o dos outros — e as medidas de contenção que têm sido tomadas pelas autoridades públicas democráticas, nacionais e locais, e seguidas pela esmagadora maioria da cidadania, estão a dar objetivamente resultado. Quando a Covid-19 chegar ao fim, certamente que os números de infetados ou de falecidos serão incomparáveis com os de epidemias passadas.

Em contrapartida, devemos recear outro tipo de vítimas, que se repetem sempre que há convulsões desta natureza, as da economia. Nem todos têm garantido o salário ao fim do mês, assegurado pelo Estado. Nem todos podem ficar em casa em regime de teletrabalho. Quem produz o pão e outros bens de primeira necessidade que queremos continuar a encontrar nas prateleiras? Quem recolhe o lixo ou conduz os transportes públicos e de mercadorias? Quem se responsabiliza pelo indispensável apoio social a quem mais precisa ou está isolado? Quem garante nas indústrias, no comércio e nos serviços os compromissos e os contratos?

Num território fronteiriço e de turismo como o nosso, com a hotelaria e a restauração praticamente fechadas e as fábricas da zona industrial de Vila Nova de Cerveira com a laboração suspensa, vamos sabendo de quem já está a perder o emprego ou em vias disso acontecer. É certo que têm sido anunciadas medidas de ajuda às empresas e aos particulares, mas são ainda insuficientes para mitigarmos o inevitável choque económico e social que sobrevirá a esta crise de saúde pública. Isto não é uma guerra, mas como nas guerras quem se arrisca a mais sofrer no fim são os mais desfavorecidos.

Paulo Torres Bento



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Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
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