A obra e a resistência da poetisa e escritora Sophia de Mello Breiyner Andersen na passagem do centenário do seu nascimento, serviu de mote ao Professor Luís Guerreiro para organizar tertúlias na sua Casa da Eira, incluindo um lote de livros da autora, fotografias e recortes de jornais, daí partindo para muitos outros pormenores da sua vida e do relacionamento mantido com outros intelectuais da sua época.
No encontro com a literatura ocorrido na tarde do último Sábado, houve lugar ainda para a leitura de diversos poemas e contos infantis de Sophia, a cargo das assistentes ao acto.
E Luís Guerreiro permitiu-se recordar diversos episódios da vida da escritora nascida no Porto e formada em Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, como quando foi agraciada com o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores em 1974.
Um pedido de desculpa por um prémio
O escritor Jorge de Sena - profundamente anti-comunista, mas um anti-fascista, precisou - tinha sido preterido pelo júri da Sociedade Portuguesa de Autores no concurso de literatura do ano de 1974, em favor de Sophia Andersen. Segundo revelou Luís Guerreiro, esse facto devera-se a que três dos elementos do júri eram comunistas e tinham votado contra a hipótese de ser Jorge de Sena o vencedor nesse ano, devido à sua oposição radical às ideias políticas dos regimes de leste, tendo optado antes por galardoar a poetisa, apesar não comungarem igualmente do seu posicionamento ideológico (foi deputada à Assembleia Constituinte de 1975, eleita pelo PS, e escreveu um poema - lido também nesta tertúlia - alusivo aos momentos políticos dessa época).
Este facto teria levado Sophia a enviar uma carta ao amigo Jorge de Sena, em que quase lhe pedia desculpa por ter ganhado o prémio nesse ano, face aos contornos políticos que envolveram essa atribuição.
Cristianismo e paganismo emergem ("são pilares") da obra desta poetisa, referiu Luís Guerreiro, chamando a atenção para a sua apetência pelo classicismo grego e pela "ética social".
Foi fundadora do Centro Nacional de Cultura e a sua escrita encontrava-se liberta das regras da sintaxe, embora em alguns dos seus poemas se tenham regido por elas, admitiu.
"Uma apaixonada do mundo"
Definiu-a como uma "paisagista", com uma "obsessão naturalista" e uma "apaixonada do mundo", marcada pelo mar e pela praia, ela que passava habitualmente os três meses de férias de verão na praia da Granja, em casa de seu avô, facto já aproveitado pelo município de Espinho para explorar este pormenor cultural.
Este professor universitário referiu as raízes aristocráticas desta poetisa, o que não a impediram de ter sido uma opositora ao regime salazarista (militou nos grupos de católicos progressistas não comunistas), ao contrário da sua amiga Agustina Bessa Luís, igualmente de famílias nobres, mas uma apoiante da ditadura.
"Ela arriscou", vincou o autor desta exposição/debate, chegou a ser chamada à PIDE e visitava assiduamente seu marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares, preso em Caxias.
Sophia era prima directa do escritor com ligações minhotas Ruben A., o que levou Luís Guerreiro a considerar importante "despertar as figuras intelectuais do Alto Minho, para que se tornem numa "atracção cultural" do ponto de vista turístico.
Poética, ou seja, no âmbito da literatura, uma actividade criativa envolvendo a exploração do significado das palavras e das respectivas associações lexicais enquanto símbolos e artefactos de modelação do mundo e da vida. Afinal, a magia de uma fala meticulosamente convertida em escrita, com vista a proporcionar ao leitor uma fonte transepocal de fruição estética e de conhecimento.
E nesse propósito, recorrendo o autor de um texto, quer no domínio da prosa quer no domínio da poesia, a variadas figuras de estilo (imagens, metáforas, alegorias, etc.). Isto, de acordo com a sua particular sensibilidade, e em função da musicalidade e comunicabilidade apropriadas a uma específica atmosfera narrativa. Tal como a criar um imprevisto ordenamento sintáctico, uma imagem inusitada ou uma ideia original.
Ora se é predominantemente no âmbito da poesia que mais usual é a pesquisa dos jogos de linguagem - bem como a libertação de uma normativa gramatical e retórica -, esses imaginativos recursos estilísticos podem ainda condicionar um qualquer outro género literário. E entre estes a crónica, o conto e o drama, práticas que ocasionalmente a autora que homenageamos experimentou.
Resistência, ou seja, a oposição e luta contra uma determinada ordem de valores entendida como motivo de opressão e desesperança por aqueles que a sofrem. E muito especialmente pelos grupos sociais mais desfavorecidos no plano económico, político e cultural. Grupos que, normalmente, em qualquer sociedade, representam a maioria dos cidadãos e, assim, a estrutura de base da pirâmide social.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), nascida numa família da alta-burguesia portuense em que se cruzavam tradições aristocráticas nacionais e heranças burguesas e cosmopolitas do norte europeu, enquanto intelectual e cidadã estaria condicionada, naqueles lusitanos, sombrios e asfixiantes anos 40 em que iniciou a sua carreira literária, a dar apoio ao regime autoritário do Estado Novo (1928-1974). Porém, não tardou a jovem autora a demarcar-se desse acanhado e estiolado universo político-cultural e a encetar um activo e corajoso combate contra a ordem vigente.
Após transitar do Porto para Lisboa onde frequentou a licenciatura em Filologia Românica, embora sem a concluir (1936-1939), vai em 1946 estabelecer na capital a residência definitiva e aí constituir família. Entretanto, à medida que os filhos foram surgindo (um quinteto) desenvolveu uma notável e continuada actividade poética com imediata repercussão ao nível da mais exigente esfera crítica nacional.
Uma poética que progressivamente repercutiu, embora quase sempre com discreta e elegante contenção retórica, as suas opções ideológicas e objectivos sócio-políticos. Um programa visando abolir um regime obsoleto e a instauração no país de uma democracia de tipo europeu. Neste contexto, entre outras actividades, Sophia apoiou a candidatura do general Delgado à presidência da República em 1958, subscreveu a Carta dos movimentos católicos contra o regime autoritário e foi uma incansável activista política integrada na direcção do Centro Nacional de Cultura. Mais tarde, após a revolta militar de 25 de Abril de 1974, no decurso da restauração de um regime tendencialmente democrático, acabou por integrar a lista de deputados socialistas pelo círculo do Porto à Assembleia Constituinte. Uma experiência frustrante.
De facto, mau grado o iminente colapso das liberdades mais genéricas ter sido evitado a tempo, os jogos palacianos ou/e arruaceiros que então se digladiavam, eram processos de acção inconciliáveis com a sua rectilínea ética social. E daí a ulterior e inflexível abstenção que assumiu relativamente a novas incumbências político-partidárias.
No ano de 1940, Sophia Andresen havia publicado os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia. Um género que cultivou ao longo dos anos, paralelamente a uma actividade no campo da tradução (Eurípides, Shakespeare, Claudel, Dante, etc.), como enquanto contista - Contos Exemplares (1962), Os três reis do Oriente (1965) - e ainda a autoria de uma belíssima série de narrativas para crianças: A Menina do mar (1958), A fada Oriana (1959), A noite de Natal (1959), O cavaleiro da Dinamarca (1954), O rapaz de bronze (1966), A Floresta (1968), entre outros títulos.
Nesta sintética resenha não devendo ser esquecidas as suas episódicas reflexões literárias sobre diferentes temas e autores, e em particular a emotiva e intensa meditação que dedicou à arte da Grécia antiga. Tal como os textos dramáticos que escreveu e a correspondência com Jorge de Sena, títulos que igualmente ajudam a aclarar o seu percurso humano, intelectual e político. E obviamente a elucidarem a longa lista de obras poéticas que subscreveu - da inaugural Poesia (1944); de Coral (1950) a Mar Novo (1958) e deste a Livro Sexto (1962) e, entre outros livros, de Geografia (1957) a Navegações (1983) e de O Búzio de Cós e outros poemas (1997) a Orpheu e Eurídice (2001) - permitindo, pois, uma leitura crítica destas obras elucidar a fulgurante e sincrética visão do mundo que nelas se expressa.
Sophia de Mello Breyner Andresen - altiva cariátide no contexto de uma atrabiliária vida literária e de um jacobino maniqueísmo ideológico ainda mal resolvido -, a sua figura frágil mas de enorme solidez cívica e moral vai-se agigantando à medida que se adensa o conhecimento de uma complexa e pessoal fidelidade à herança filosófica e estético-religiosa do mundo helénico, a sua mais funda paixão.
Sophia é antes de mais uma hipersensível paisagista. Uma ofuscada pitonisa submetida ao império mágico da luz, "A omnipotência do Sol rege a minha vida", Geografia, p. 11, e assim, sujeita igualmente às sombras mediterrânicas e ao seu inextinguível acervo cultural. Um oráculo, por conseguinte, irremediavelmente preso à sublime presença das suas praias e acrópoles, à estatuária, às poéticas e homéricas odisseias e tragédias, ao pensamento crítico e mitologia.
A urbana escritora portuense é, pois, uma criatura contrastante, umbilical e panteisticamente irmanada a uma agreste e domesticada Natureza. Como sujeita ao fascínio por uma cultura imemorial que o mar e a poesia dulcificam e ameaçam, um magma primordial de ideias e valores dinamizado pelas forças instintivas e o rigor ético em que se esculpem e temperam as almas mais inteiras.
E assim, a este culto sophianiano do mar grego e do mar português (o mar da Granja, o mar de Lagos e de outras muitas navegações), mares confundidos na sua metafísica imobilidade e eterna cadência, podendo aplicar-se a fórmula que o artista plástico e poeta surrealista da Galiza, Urbano Lugrís, comungando semelhante devoção, um dia proferiu: "perante o mar deveríamos ajoelhar-nos".
Mas esta herança clássica, sensível, senão epicurista, e ainda legível nas paisagens da orla do Mediterrâneo, evoca-a Sophia como a componente primordial da cultura europeia. Ganhando, porém, uma outra densidade, uma outra mística sociológica e margem de libertação ao, sincreticamente, integrar a transfiguradora herança do cristianismo.
Herança que a escritora, perante a perplexidade de quem ignora a força da mensagem evangélica, sempre arvorou como arma de combate. E, por isso, serenamente pôde escrever no seu Livro Sexto (1962), p. 62: "Era um Cristo sem poder / Sem espada e sem riqueza/ Seus amigos o negavam/ Antes do galo cantar/ A polícia o perseguia/ Guiada por Fariseus/ … Foi cuspido e foi julgado/ … E morreu desfigurado/ A treva caiu dos céus/ Sobre a terra em pleno dia/ Nem uma nódoa se via nas vestes dos Fariseus."
Como no mesmo livro que a consagrou como poeta resistente, corajosamente exarou, p. 68, o epigramático e iconoclasta terceto: "O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/A podridão lhe agrada e seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas."
Esta é, pois, a autora que a Casa da Eira, em Lanhelas, vai apresentar a quem quiser visitar os seus espaços nos próximos sábados, 25 de Janeiro, 1 e 8 de Fevereiro, entre as 16 e as 18 horas. Entrada livre.