Há uns anos, José António Garcia Calvo, conhecido como "José, o Peregrino" passou por Caminha, numa das suas peregrinações em direcção a Santiago de Compostela.
Tem percorrido todo o mundo, em direcção aos "lugares santos" de diferentes religiões, desde que foi o único sobrevivente de entre 17 tripulantes, de um naufrágio ocorrido a 1 de Janeiro de 1999 nos bancos da Noruega, quando aí pescava bacalhau num barco espanhol com bandeira da Monróvia. Passou 10 horas sobre dois cadáveres até que um helicóptero o recolheu. Permaneceu oito meses numa câmara hiperbárica, três anos e meio numa cadeira de rodas e outros tantos usando muletas. Avisaram-no de que não poderia voltar a caminhar.
No entanto, este vaticínio não se confirmou, começou a caminhar e já percorreu 110.000 km a pé.
É um dos ícones dos Caminhos.
Este ano, de regresso à sua terra, em Cádiz, Andaluzia, proveniente de Cracóvia, depois de ter passado por Lurdes e Santiago, teve conhecimento através da sua rede de amigos de caminhadas da existência de um novo Abrigo de Peregrinos em Seixas.
Bateu à porta, foi acolhido de imediato e desfrutou da hospitalidade do Albergue de S. Bento e das belezas desta freguesia.
De entre os lugares com mais espiritualidade que visitou nos últimos 11 anos, destacou Jerusalém, Roma, Trondheim (Noruega), Cracóvia, toda a América e Tibete.
"As pessoas que encontro é que me dão as forças para continuar", assim justifica "José, o Peregrino" tanta persistência. Acrescentou que o que necessita para prosseguir esta saga é de "compreensão e que me tratem como o que sou - um peregrino", como sucedeu no Albergue de S. Bento em que lhe foi facultada "comida, cama e que não me preocupasse com a falta de dinheiro porque estaria bem com eles", garantiram-lhe.
"Ou paga oito euros ou dorme na rua"
De todas estas viagens pelo mundo, do que mais recorda "são as pessoas porque são maravilhosas", e de entre os locais que mais o impressionaram foi o Tibete porque "há aí uma paz enorme e em que as pessoas não têm nada e o pouco que possuem compartem-no com todos", ao contrário do sucedido nesta sua última caminhada por Espanha, em que "não me deixaram dormir num albergue porque não tinha dinheiro, sendo obrigado a dormir na rua". Ripostou, dizendo que "isso não está bem no Caminho", só porque lhe faltavam dois euros. Ao passo que em Portugal lhe facultaram uma cama e um banho, "o único de que necessito", assevera.
Tentando saber qual a intempérie que mais custa suportar, admitiu que o calor "vem bem, mas não se pode caminhar". "Com a chuva também não vai muito bem", pelo que prefere o frio.
Apesar de o verão ser o tempo mais conveniente para estas caminhadas, José opta por não as fazer nesta época, porque, justifica, "esses não são peregrinos, são tour-peregrinos".
Em 2021 celebra-se o Ano Jacobeo, mas José não pretende realizar a Caminhada. Rindo-se, justifica essa opção "porque vai ser uma loucura e não se vai caber em nenhum sítio e é tudo mais caro".
Albergue de S. Bento recomendado
Aos 70 anos (fala alemão, inglês, francês, italiano e "o português compreendo-o muito bem"), já pensa em reduzir estas aventuras pelo mundo. Vai cingir-se a viajar pela província de Cádis, "com o meu neto", e pela serra "que é também muito bonita" e até ao Rocio, um percurso que "eu faço muitas vezes". "Para caminhar, não é preciso ir a Santiago. Pode ir-se a qualquer parte do mundo".
Encantado com o recebimento do Albergue de Seixas, garantiu-nos desde logo que "já o tenho recomendado a outros peregrinos e espero que me dêem ouvidos".